5 de junho de 2026

Xirumba, fotógrafo de Pernambuco, por Urariano Mota

Nestes dias, Xirumba vai para 78 anos de idade. Com a cara de índio, possui olhos que são fendas amendoadas, é franco, sincero

Xirumba, fotógrafo de Pernambuco

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por Urariano Mota

Desde ontem que pensei em botar nestas linhas o título de “Xirumba, artista de Olinda”. Mas mudei de ideia depois de ver que a coincidência dessa honra com outro grande artista, Bajado, que se assinava como “Bajado, um artista de Olinda” não seria justa. Isso não porque Xirumba seja menos genial que o anterior olindense. Afinal, ambos fizeram morada, trabalho a partir de Olinda. Xirumba, em suas fotografias, também pinta, com uma arte aguda sem ostentação. Mas não seria justo porque a diversidade artística de Xirumba vai além dos muros da cidade. Ele é fotógrafo inspirado do que lhe comove e justifica a vida dentro e fora de Olinda. Vanguarda em mais de um sentido, mas o mais óbvio é que tem olhares raros e temas, dos quais o comum da gente nem suspeita. Para ele, tudo é tema. 

Pois quem der um google em “Xirumba fotografias” receberá um universo além de Olinda. Aqui 619300.jpg (1200×942) ou aqui, por exemplo 619301.jpg (451×600) . Mas de modo mais claro, tenho em mãos o seu livro, infografia, Terra de Maracatu, cujas fotos e lentes passeiam, flagram a beleza na cidade de Nazaré da Mata, com seus imortais maracatus. Olhem só, por favor, e depois resistam a tal arte se forem capazes.

Em uma apresentação, é informado que ele “é  fotógrafo profissional desde a década de 1970, além de artista plástico e autor de vários livros. Sua fotografia é inspirada na cultura popular de Pernambuco e revela o contexto social imprimindo um olhar e atenção pelo cotidiano das pessoas; trabalhadoras da cidade e do mundo rural, as crianças nas ruas, os velhos e a natureza”. Em outra, no Mapa Cultural de Pernambuco somos informados que Xirumba Amorim é fotógrafo internacionalmente reconhecido através de suas exposições realizadas no Recife, em Olinda, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Paris, Cidade do México, Guadalajara, Santiago de Cuba e Valência. E que seu nome de batismo é Arlindo de Souza Amorim, ao que  ele sempre se defende dizendo “minha mãe pensava que tinha um filho bonito”. 

Nestes dias, Xirumba vai para 78 anos de idade. Com a cara de índio, possui olhos que são fendas amendoadas, é franco, sincero, e termina por parecer um indivíduo hostil ao contato pessoal. Mas o quanto as aparências enganam! Ele é um artista íntegro, de coração aberto à beleza popular do mundo. 

É uma lenda viva de Olinda, de Pernambuco. Xirumba ficou nu em plena Igreja do Carmo, em Olinda,  durante uma apresentação de Augusto Boal, Nas palavras de Xirumba: “Na época, Boal estava fazendo umas palestras cobrando muito caro. As pessoas questionavam isto protestando. Em São Paulo ele alegou que foi um bêbado. No Rio, que foi um drogado. Em Olinda o protesto foi atribuído a um doido bêbado”.

O seu nome aparece na música de Alceu Valença e Carlos Fernando nestes versos:

“Xirumba-bá
Gê-gererê
Amim sem dadá
Cafi com você”

Aqui no YouTube Leque Moleque

Mas Xirumba não gosta dessa música nem dessa fama, acreditem. A razão, é que ao curtir um fumo mais pesado, ele afirma que não baba. Cospe.

De um ponto de vista de grana, de grama de ouro para a sobrevivência material, Xirumba possui o que o grande pintor Rodolfo Mesquita definia como um “sucesso de estima”. Ou seja, ele é respeitado por críticos e círculos cults, mas isso não se traduz em vida confortável. Pelo contrário. É muito difícil ser artista se uma pessoa só tem uma arte livre, sem concessões, para viver. Ora, viver, para sobreviver, melhor dizendo.

Fica então este registro de admirador, que amadureceu para melhor compreender o fotógrafo e  artista Xirumba. Com um abraço fraterno

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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