20 de junho de 2026

Zuzu Angel, a estilista que levou a brasilidade e a luta contra a ditadura para a moda

Hildegard Angel, filha de Zuzu e jornalista, contou à TVGGN os horrores vividos pela sua família durante o regime militar
Crédito: Arquivo pessoal

O programa TVGGN da última quarta-feira (16) contou com a participação da jornalista Hildegard Angel, que deu um relato emocionante sobre a coragem de sua mãe, Zuzu Angel, no enfrentamento à ditadura militar para que pudesse encontrar notícias do filho, Stuart, torturado e morto pelo Estado brasileiro. 

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Antes da luta política, Zuzu foi a primeira estilista que teve a coragem de trazer a brasilidade para a moda, conceito tão em alta nos dias atuais, mas que para a época foi alvo de muitos ataques. 

“Teve um grande costureiro, talvez o maior de todos, que dizia que ela [Zuzu] tinha de ser esquartejada em praça pública, porque ela propunha o Brasil e isso era considerado uma heresia”, lembra Hildegard.

Zuzu, aliás, se descrevia como uma “mineira jeca, que nunca perdeu sua ternura por Minas Gerais e nem pelas fragilidades e delicadezas brasileiras”. “A alma brasileira é uma alma humilde, uma alma da criatividade, superando as dificuldades sem qualquer arrogância ou pretensão”, dizia a estilista, de acordo com a filha. 

A jornalista relata ainda que Zuzu sempre teve uma enorme atração por Hollywood e que, por destino ou projeção, algumas das estrelas da indústria cinematográfica norte-americana passaram a frequentar seu ateliê, trazidas por Harry Stone.

Hildegard lembra ainda que Zuzu criou os três filhos sozinha, já que o pai morava em outro estado, com outra família e dedicava seus recursos financeiros a um orfanato com 50 crianças. Ainda assim, a estilista conseguiu, com um enorme sacrifício, garantir o acesso dos três filhos nos melhores clubes, escolas e cursos. 

“Ela era uma mãe coragem, nos criou com independência, com personalidade, com direito de sermos o que nós quiséssemos. Nós não tínhamos nem obrigação de ter ensino superior, nós tínhamos obrigação de ser o que nós quiséssemos, o que nós gostássemos.”

Assim, Hildegard e a irmã seguiram para o teatro, enquanto Stuart Angel Jones ingressou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para cursar Economia, onde se aproximou dos movimentos estudantis e da luta contra a ditadura militar.  

“Quando houve a ditadura, eles faziam o comício dentro do campus e na entrada da  Volkswagen, ele saía correndo e fazia um discurso e voltava. Saíam correndo, mas depois os jovens foram proibidos. Os jovens que não rezavam na cartilha da ditadura foram impedidos de prosseguir em seus cursos e não podiam frequentar as universidades. Então, ali foi estagnada uma geração preparada, brilhante, multifacetada, multi informada, essa preciosidade que era juventude no Brasil nos anos 1960”, continua a jornalista. 

Coragem

Diante da perseguição do filho, Zuzu ficou preocupada e passou a mirar a elite brasileira, para que pudessem ajudá-la caso o filho fosse preso. 

Por meio de uma cliente, conheceu Yolanda Costa e Silva, esposa do presidente Artus da Costa e Silva, uma mulher controversa. Apesar da linda postura da primeira-dama, para quem a estilista fez até um vestido para receber a rainha Elizabeth, da Inglaterra, Zuzu percebeu que não poderia contar com qualquer apoio.  

Como previa Zuzu, no início dos anos 1970, a situação de Stuart se agravou. A esposa Sônia, com quem vivia na clandestinidade, foi assassinada pela ditadura na casa dos pais dela. 

Já Stuart foi pego em uma emboscada, durante um encontro com um amigo. Ainda que o amigo dissesse aos militares que o encontro seria uma hora mais tarde do que o combinado, o irmão de Hildegard tinha o péssimo hábito de chegar adiantado. 

Ele, então, foi posto no porta-malas de um carro e levado para a base aérea do exército. “Ele foi barbaramente torturado para dizer dois endereços, sobretudo o do Carlos Lamarca e ele não disse. Eles então amarraram ele o pescoço, no para-choque de um jipe, com a boca voltada para o cano de descarga e deram várias voltas. Ele ficou em carne viva, respirando aquele gás tóxico. Quando ele chegou, na de volta à cela depois dele ter passado por todas as máquinas de tortura, essa foi a última, ele morria de sede, porque os pulmões haviam virado carvão. Ele gritava: “Água água água!”. Aí chamaram um daqueles médicos torturadores, que deu depoimento que viu o Stuart e disse: “Ele não vai se recuperar”. Não fez exame nenhum, porque o negócio deles era matar mesmo. E o Stuart morreu naquela madrugada de 15 de maio, perto do Dia das Mães”, lembra a irmã.

Para a jornalista, Stuart não denunciou Lamarca porque o pai era um homem meritório que deu a vida por crianças pobres. Assim, os filhos herdaram a determinação de ser leal aos companheiros. 

Luta

Mas foi então que começou a saga de Zuzu, que chegou a receber uma ligação em que lhe disseram que Stuart seria morto. Ela pediu ajuda a conhecidos militares, entre eles o general e ex-ministro do Exército, Sílvio Frota, mas sem sucesso. 

A estilista, então, levou para as passarelas e suas coleções o luto pelo filho. Ela chegou, inclusive, a unir um dossiê com denúncias sobre as mortes e corrupções do governo militar, entregue ao ex-secretário de estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger.  

“Olha este aqui é um dossiê sobre o filho de um americano que foi assassinado no Brasil e eu preciso que o senhor tome conhecimento sobre a ditadura militar brasileira”, afirmou Hildegard. 

Também perseguida, Zuzu enfrentava os militares com bravura. “Ela tinha sempre uma patrulhinha que parava na porta da loja e ela dizia: ‘Eu não tenho medo de vocês, não. Vocês já me levaram tudo. Eu não tenho. Pode ficar aqui, não tenho medo, não. Vocês não têm vergonha, eu sou uma senhora.” 

Assim como o filho, Zuzu foi morta pelos militares. 

Confira o relato na íntegra em: https://www.youtube.com/watch?v=FzJ2112K99Y&t=446s

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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5 Comentários
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  1. Lênin and The Ulianovs

    18 de abril de 2025 6:48 am

    Ah, ainda estamos aqui?

    Faltou dizer que até a morte do rapaz, dona Zuzu tomava chá, metaforicamente, com as madames cujos maridos patrocinaram o golpe e as torturas que vitimaram muitos, aí incluído seu filho.

    Paradoxo também é dona Hildegard, que passou anos “lustrando” os cacoetes da cafonice provinciana de brucutus sociais, que tinham sonhos cosmopolitas.

    “Coluna social”????

    Um tipo de escárnio com milhões de despossuídos, coisa típica dos caipiras locais, que só no Brasil alcançou tanta dimensão.

    Que porcaria é essa?

    Colonismo social seria melhor nome, não?

    Enfim, por aqui, filho de banqueiro se junta a empresa que deu voz e cara ao golpe, para fazerem filme sobre desaparecido (RICO) e “colonista social” desse mesmo grupo de mídia, tia de desaparecido (RICO), são a linha de frente da memória da ditadura.

  2. Lênin and The Ulianovs

    18 de abril de 2025 6:50 am

    White and wealthy lives matter.
    Only.

  3. Lênin and The Ulianovs

    18 de abril de 2025 7:00 am

    Eu acho lindas essas histórias de gente rica que têm coração, né não?

    Dá até uma esperança no mundo, de que um dia que eles vão abrir mão dos privilégios para distribuir a renda que roubam dos pobres…

    Olha, parabéns, Nassif…

    E eu que pensei, minha vida toda, que só a luta e o ódio de classes pudessem fazer a classe trabalhadora conseguir o que lhe é devido…

    Que Marx qual nada, o mundo precisa é de Zuzus…

    E Hildegards? Nem tanto.

    O mundo precisa desse “jeitinho brasileiro” de esfolar pobre com ternura…

    Como JK, que vendeu Fuscas em um país de analfabetos, cheios de parasitas nas barrigas, que cresceram comendo barro das paredes casas de taipa.

    Um país bos(t)a nova: um banquinho, um violão e, quem sabe, uma branquinha, um pãozin de queijo ou um torresmim..

    1. Leonora Luz

      18 de abril de 2025 4:38 pm

      Publique seu nome completo e seu histórico de vida, Lenin. Pois de esquerdista raiz vc parece nada ter. Deboche odioso, mal ódio de burgueses. Conte-nos qual foi tua contribuição. Grata.

      1. Lênin and The Ulianovs

        18 de abril de 2025 8:53 pm

        Uai, Leonora, ódio de classes? Sempre.

        Por mim, certamente, enforcaria todos os burgueses, com as echarpes de Zuzu.

        Contribuição? Esquerdista raiz, Nutela?

        Quem sabe?

        Mas o fato é, não reconheço em você credenciais para tal julgamento.

        Agora, me parece mais interessada no mensageiro, que na mensagem.

        Ou seja, acertei no alvo, né?

        Ah, uma dica, eu nunca apareceria em colunas sociais ou minha esposa tomaria chá com as madames da Zuzu (ainda bem).

        Basta né?

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