14 de junho de 2026

Ditadura nunca mais e o silêncio covarde do futebol mineiro, por Bruno Mateus

Ao emudecerem, Cruzeiro, Atlético e América deixam de dar um poderoso recado a seus torcedores e à sociedade: ditadura não se comemora
Foto: Evandro Teixeira

Ditadura nunca mais e o silêncio covarde do futebol mineiro

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por Bruno Mateus

Diferentemente de outros clubes brasileiros, Cruzeiro, Atlético e América não se manifestaram no aniversário do golpe militar de 1964

Não seria fantástico – e didático – se clubes de futebol com milhões de torcedores e seguidores nas redes sociais se manifestassem a favor da democracia e gritassem “Ditadura nunca mais!”? Seria, mas não foi o que aconteceu em Minas Gerais, de onde escrevo estas linhas em uma Belo Horizonte em que o céu desta manhã de quarta-feira (2) se divide entre o azul e o cinza nublado numa curiosa metáfora de uma cidade separada por cores tão antagônicas quando o assunto é a rivalidade nos gramados.        

Diferentemente de outros clubes brasileiros, os quais merecem aplausos pela grandeza, dignidade e compromisso com a memória do país, Cruzeiro, Atlético e América escolheram covardemente o silêncio nas últimas segunda, 31 de março, e terça-feira, 1º de abril, datas que nos remetem ao golpe militar de 1964. A partir dali, vivemos uma ditadura de 21 anos que censurou, perseguiu, prendeu, sequestrou, torturou e assassinou milhares de brasileiros. Centenas são os desaparecidos.

O silêncio e a omissão dos principais clubes de Minas Gerais são constrangedores, embora não surpreendentes. Questionei Cruzeiro, Atlético e América por meio de suas assessorias de imprensa. Enviei-lhes as mesmas perguntas no fim da manhã da última quarta-feira (2): por que o clube não se posicionou no aniversário do golpe de 1964? O clube não considera importante somar sua voz aos que se posicionaram a favor da democracia e contra o golpe de estado que inaugurou uma ditadura de 21 anos?

Até a publicação deste texto, Cruzeiro, Atlético e América não se manifestaram. O espaço continua aberto. 

Motivo da paixão de milhões de brasileiros, os clubes de futebol, essas instituições que dão sentido e identidade à vida de muita gente, não estão descolados da sociedade. Para combater preconceitos e chagas ainda abertas no tecido social deste cambaleante país tropical, as agremiações mineiras levantam suas vozes contra o racismo, a homofobia e a violência contra a mulher, entre outros debates necessários, em posicionamentos que indicam avanços importantes nos últimos anos. Na quarta-feira (2), por exemplo, o Dia Mundial da Conscientização do Autismo foi lembrado pelo trio nas redes sociais. 

Por que se calam diante da ditadura? O que temem? Ou são apenas indiferentes? Não se trata, no fim das contas, de direitos humanos? Ao emudecerem, Cruzeiro, Atlético e América deixam de dar um poderoso recado a seus torcedores e à sociedade: ditadura não se comemora e o futebol pode e deve ser instrumento de memória, verdade e justiça. 

Contudo, sempre há tempo de embarcar no trem que pega o caminho certo da história. Que a partir de 2026, Cruzeiro, Atlético e América não se calem e calcem suas chuteiras para repudiar o golpe de estado de 1964 e defender a democracia. Pois o silêncio, camarada, é amigo da impunidade, sócio da indiferença e cúmplice do esquecimento. 

Vozes isoladas

Apenas seis dos 20 clubes da elite do futebol nacional –  VascoBahiaBotafogoInternacionalCorinthians e Sport – se posicionaram por meio de suas redes sociais sobre o aniversário de 61 anos do golpe de 1964 – vale lembrar que no ano passado foram só quatro e, em 2021, sete. 

“Há 61 anos, o Brasil vivia um período sombrio de sua história. Em memória às vítimas e em respeito à liberdade, o Clube do Povo reitera o seu compromisso com a democracia e os direitos humanos: ditadura nunca mais!”, publicou, na última terça-feira (1º), o Internacional. Ao lado de Bahia, Vasco e Corinthians, o time gaúcho é reconhecido por não deixar a data passar batida.             

Da Série B veio o grito do Remo: “Ditadura nunca mais. Em memória às vítimas e em defesa da democracia”. O Náutico, que disputa a terceira divisão em 2025, não ficou calado e avisou que “não há futebol sem torcida, nem país justo sem democracia”. 

No X (antigo Twitter), o paraibano Sousa lembrou o episódio conhecido como “Sexta-feira Sangrenta”, ocorrido em 21 de junho de 1968, quando um protesto de estudantes no Rio de Janeiro foi brutalmente reprimido pela polícia. Até hoje não se sabe oficialmente quantos militantes morreram: se foram três, de acordo com a Comissão Nacional da Verdade, ou 28, como aponta o Centro de Documentação de História Contemporânea, da Fundação Getúlio Vargas.

A publicação do Sousa, que classifica o golpe de 64 e o que se seguiu como “período nefasto”, sentencia: “Que não se repita nunca mais! Democracia sempre”. A imagem que acompanha o post e este texto, uma das mais emblemáticas da ditadura, é do fotojornalista baiano Evandro Teixeira (1935-2024). 

Baile argentino

Não, não estou falando da vitória da seleção albiceleste na semana passada, no Monumental de Núñez, por 4 a 1, placar que ficou de bom tamanho para o desnorteado escrete canarinho. O site Trivela fez um levantamento que mostra o baile ao qual me refiro: neste ano, 28 dos 30 clubes da primeira divisão foram às redes sociais dizer “nunca más” em 24 de março, data do golpe de 1976. 

O 24 de março, aliás, desde 2002, se transformou no Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça, feriado na Argentina. As avenidas se enchem de pessoas de todas as idades para homenagear as vítimas do rismo de estado e os 30 mil mortos e desaparecidos. Lá, os clubes de futebol também são os protagonistas de uma partida disputada dia após dia, ano após ano. 

Bruno Mateus é jornalista de Belo Horizonte, pai da Amora e interessado pelo extraordinário das coisas comuns.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Lênin and The Ulianovs

    7 de abril de 2025 10:25 am

    Minas conspira até dormindo.

    Veio de Minas as colunas de Mourão, e veio de Minas, Magalhães Pinto.

    Dias desses, assistia no canal Curta um documentário sobre 64.

    Eis que, para minha surpresa, a filha de JK (ele mesmo) declarou:
    -meu pai apoiou o golpe, achava que os militares estabilizariam o país, e devolveriam aos civis.”

    Um doce (de leite) para quais “civis” ele se referia.

    Vieram as Diretas Já.

    E olha lá no palanque o Tancredo, que abraçava Ulisses, e combinava o colégio eleitoral com os assassinos de farda.

    Minas é um mar de ressentimentos mal resolvidos.

    1. Cesar eli rignel

      8 de abril de 2025 10:13 am

      É fato histórico ,elites mineiras são escravagistas,reacionárias,mineiros são os judeus do Brasil..!

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