As reuniões anuais do banco dos Brics, o New Development Bank (NDB), presidido por Dilma Rousseff, são divididas em duas frentes. A primeira são os seminários de debate sobre os temas mais relevantes do ano para o NDB. A segunda, as reuniões fechadas do Conselho de Governadores. Neste ano, a ciência e tecnologia, com foco especial na inteligência artificial, foi um dos tópicos centrais da 10ª reunião do banco, realizada no Rio de Janeiro, nos dias 4 e 5 de julho.
A presidente do NDB, Dilma Rousseff, enfatizou a oportunidade dos países em desenvolvimento impulsionarem seu progresso por meio de investimentos em tecnologia, inovação e transição energética. O foco do banco permanece no desenvolvimento sustentável. Assim como destacou o presidente Lula na cerimônia de abertura, os esforços globais devem estar voltados ao combate à emergência climática, com o compromisso de limitar o aquecimento global a 1,5 ºC até o fim do século. Sem isso, alertou, o planeta se tornará inabitável para os humanos.
A inteligência artificial surge como um desafio urgente, sobretudo pela velocidade com que seus avanços vêm ocorrendo. Isso impõe a necessidade de adaptação rápida, tanto em infraestrutura quanto na formação de talentos capacitados.
Exclusão e inclusão digital
Vukosi Marivate, co-fundador da Lelapa AI, apresentou a missão da empresa e os desafios de desenvolver soluções de inteligência artificial voltadas ao Sul Global. Segundo ele, ainda existem barreiras de entrada enormes, especialmente para os países africanos. O Sul Global representa mais de 2 bilhões de pessoas e possui características únicas, como a diversidade linguística. Na África do Sul e na Nigéria, por exemplo, 90% da população não fala inglês e mais de 200 milhões de pessoas usam o suaíli como língua principal.

Marivate destacou a importância de identificar as demandas sociais locais e propôs que as instituições financeiras pensem em como escalar soluções digitais baratas, eficazes e adaptadas à realidade dessas populações. A IA, para ele, precisa ser acessível e pensada para o benefício coletivo e não apenas concentrada nas grandes potências.
Seguindo essa linha, a presidente do NDB alertou para os riscos de uma revolução digital excludente:
“Devemos abraçar a revolução digital. Não de maneira passiva, mas ativa e estratégica. Conectividade, inteligência artificial e dados estão moldando a nova economia. Entretanto, sem uma política de inclusão, só aprofundaremos a exclusão digital.”
Dilma defende que, para reduzir a lacuna entre os países do Sul Global e as grandes potências, o NDB deve financiar projetos de ciência e tecnologia nos países membros, com destaque especial para a IA.
Disputa global em IA
Os Estados Unidos lideram o mercado global de inteligência artificial, concentrando cerca de 35% da receita, com gigantes como Nvidia, Google e OpenAI, segundo a Grand View Research. A China, participante dos Brics e do NDB, aparece logo atrás, com cerca de 26% de participação estimada até 2030, colhendo os frutos do seu plano nacional de IA, lançado em 2017. Já a Índia representa aproximadamente 8% do mercado e cresce a uma taxa superior a 40% ao ano, impulsionada pelo setor de serviços e políticas públicas de digitalização (conforme o International Trade Administration dos EUA).
Os demais países em desenvolvimento enfrentam enormes dificuldades para competir. A infraestrutura necessária como data centers, energia abundante e placas de vídeo de alto desempenho representa uma barreira tecnológica. Empresas como Nvidia (EUA) e Huawei (China) concentram esse tipo de produção, dificultando o acesso a países sem parque industrial avançado. Além disso, o desenvolvimento científico depende de grandes centros de pesquisa e investimento contínuo em educação.
Esses fatores são interligados. O desenvolvimento sustentável exige matrizes energéticas renováveis, centros de inovação e políticas educacionais de longo prazo.
A China como motor da IA
O governo chinês publicou, em 2017, um plano para transformar o país em líder global em IA até 2030. Desde então, o país implementou políticas de formação de talentos, incluindo a IA como disciplina nas universidades, e criou redes de incentivo ao empreendedorismo tecnológico.
Startups como a DeepSeek ganharam destaque internacional, surpreendendo o Ocidente com tecnologias altamente eficazes. A surpresa é reflexo do pouco conhecimento que se tem sobre os investimentos a longo prazo da China no setor.
Um dos palestrantes do seminário do NDB foi Haitao Song, reitor do Instituto de Pesquisa em Inteligência Artificial de Xangai. A instituição já incubou mais de 20 startups de alta tecnologia, com valor de mercado superior a US$ 5 bilhões.
Song também é diretor da Aliança Global da ONUDI sobre Inteligência Artificial para Indústria e Manufatura (AIM-Global), lançada em julho de 2023, durante a Conferência Mundial de IA em Xangai. A iniciativa busca reunir governos e empresas para estabelecer padrões éticos e sustentáveis para a IA no setor industrial.
Durante o evento do NDB, Song apresentou aplicações avançadas, como sistemas preditivos de acidentes industriais e robôs humanoides com sensores inteligentes para interagir com o ambiente. Ele destacou ainda a AgiBot (Zhiyuan Robotics), primeira fábrica chinesa de produção em massa com robótica generalista, que emprega mais de mil robôs em diversas etapas de fabricação, incluindo montagem e organização de estoque.
O papel do NDB
Diante desse cenário, o NDB se propõe a ir além do financiamento de obras tradicionais como estradas e ferrovias. Investir em ciência e tecnologia pode permitir aos países do Sul Global, como o Brasil, reduzir a dependência de exportações de baixo valor agregado e entrar em cadeias produtivas mais sofisticadas.
Isso inclui financiar infraestrutura científica, fomentar a educação e tornar tecnologias como a robótica acessíveis aos países membros. Como destacou Dilma Rousseff, isso também significa investir no desenvolvimento de habilidades e formação de talentos.
O próprio NDB pretende incorporar a IA em sua estrutura interna para otimizar seus custos operacionais e direcionar mais recursos aos países membros. Disse a presidente:
“A gente acha que isso é fundamental. Aproveitar a tecnologia — incluindo inteligência artificial — não é só pro exterior, é no banco também. Porque temos a missão de ser um banco do século XXI. E não se é um banco do século XXI sem duas coisas: bons talentos e aplicação estratégica de tecnologia, especialmente a inteligência artificial.”
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