5 de junho de 2026

Por que Trump teme o sistema monetário do BRICS, por Luís Nassif

Não há mais nenhum setor da economia mundial capaz de se rivalizar com as big techs, com exceção dos Estados nacionais.

Há certa dificuldade em entender os movimentos erráticos do presidente norte-americano Donald Trump. Especialmente as ameaças aos países que aderirem à moeda do BRICS. → Saiba mais sobre o BRICs no Projeto Brasil!

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Há uma mudança fundamental na lógica do poder norte-americano. A partir do acordo de Bretton Woods, o poder se manifestava através de um multilateralismo enviesado, em torno de instituições como FMI, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, sempre com predomínio norte-americano e tendo como peça central o dólar.

As duas formas de poder de uma Nação são as Forças Armadas e a moeda. Desde então, o dólar cumpriu todas as funções de uma moeda referência:

  • Moeda de reserva internacional: cerca de 58% das reservas cambiais globais sendo denominadas em dólar.
  • Moeda de comércio internacional: mais de 80% do comércio mundial é faturado em dólar.
  • Moeda de financiamento internacional: emissão de dívida soberana e corporativa em dólar, especialmente em países emergentes.
  • Referência cambial: muitas moedas sendo atreladas ao dólar.
  • Moeda dos contratos internacionais: contratos de leasing, financiamentos de aviões, energia e infraestrutura.

Gradativamente, o dólar foi perdendo relevância. Nas represálias contra a Rússia, o país foi proibido de usar o swift (o sistema internacional de troca de reservas em dólares), um golpe político que feriu de morte a credibilidade do sistema.

Além disso, a dívida pública norte-americana criou uma relação negativa com a China. Esta aplicava suas reservas nos EUA, permitindo o crescimento da economia norte-americana via endividamento, enquanto a própria China crescia via produção voltada para o comércio exterior e, depois, para a economia interna.

Ao mesmo tempo, a diplomacia dos canhoneiros tornou-se muito onerosa para a economia norte-americana, da mesma maneira que sucedeu com outras civilizações, como a romana e a britânica.

O poder das big techs

Enquanto isto ocorria, as big techs norte-americanas ascendiam ao topo do mundo, mudando a natureza do poder norte-americano e confrontando o poder até então absoluto de Wall Street e da City londrina.

A ascensão de Trump mudou completamente a estrutura de poder. Agora não se trata especificamente de manter a supremacia norte-americana com o poder das canhoneiras e do dólar, mas de submeter o mundo – e o próprio EUA – ao poder das big techs. 

Não há mais nenhum setor da economia mundial capaz de se rivalizar com as big techs, com exceção dos Estados nacionais. Ora, uma das manifestações do poder nacional é o sistema monetário. Hoje em dia, o único poder a confrontar a postura ditatorial de Trump, nos Estados Unidos, é o FED – representando o poder do mercado financeiro.

Nos EUA, os embates de Trump com o FED e um conjunto de medidas intempestivas, tirando a previsibilidade do dólar, parecem ter a intenção de ser o último prego no caixão do sistema monetário pós-Bretton Woods.

A estratégia interna de Trump está explícita: a troca das moedas nacionais pelas moedas privadas.

  • No dia 1 do novo mandato (23‑jan‑2025), assinou a EO 14178 (Fortalecimento da liderança em finanças digitais), revogando regras anteriores e estabelecendo um grupo de trabalho para criar um marco regulatório claro para as criptomoedas.
  • Pouco depois, instituiu a criação de um Crypto Summit na Casa Branca e nomeou um “cripto czar”, David Sacks.
  • Em março de 2025, aprovou um Decreto Presidencial para criar uma Reserva Estratégica de Bitcoin e um Estoque Digital de Ativos (BTC, ETH, XRP, SOL, ADA) – chamados por ele de “crypto capital of the world”
  • A ordem determinou que os EUA mantenham e auditem cerca de 200 mil BTC apreendidos, comparando-a ao “Fort Knox Digital”.
  • A SEC foi orientada a suavizar sua atuação — novas empresas cripto cresceram e várias ações foram suspensas ou abandonadas .
  • A CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities) recebeu reforço, enquanto uma unidade de combate a crimes cripto do DOJ foi dissolvida.
  • Trump é fortemente investidor: plataformas como World Liberty Financial (stablecoin USD1), memecoins ($TRUMP, $MELANIA), e grandes participações em Bitcoin e Ethereum, o que elevou sua fortuna em centenas de milhões 

O papel do BRICS

No Ocidente, o poder absurdo das big techs vem sendo questionado justamente pelos Estados nacionais – a União Europeia e o Brasil. Apesar de seu escorregão no episódio do IOF, o Ministro Alexandre de Moraes transformou-se na principal liderança global contra o poder sem limites das redes sociais.

Google, Apple, Amazon, PayPal estão avançando céleres para serem dominantes na categoria de meios de pagamento de base ampla (retail payment instruments), categoria onde se enquadram os cartões de crédito. No futuro, bastará trocar as moedas nacionais por criptomoedas. Com o avanço da Inteligência Artificial, o controle global ficará mais próximo.

É nesse quadro que surge o BRICS trabalhando um novo sistema monetário, articulando, preservando e fortalecendo o papel das moedas nacionais e desenvolvendo uma rede BRICS Pay e na interoperabilidade de sistemas de pagamento. A regulação das redes e, agora, a montagem do sistema monetário dos BRICS, são empecilhos às pretensões de Trump, de ser o novo dono do mundo.

Nas discussões do NDB (Novo Banco dos BRICS), uma das preocupações era justamente definir limites para o uso da IA e a preservação da chamada soberania monetária.

Todos os países BRICS defendem a preservação de suas moedas nacionais (real, rublo, rupia, yuan, rand, etc.) como pilar de autonomia macroeconômica. Isso se reflete em três frentes:

DimensãoEnfoque
Política cambialCada país mantém regime de câmbio próprio (flutuante, administrado ou fixo), com metas e prioridades nacionais.
Política monetáriaBancos centrais dos BRICS seguem regras locais: metas de inflação, crescimento ou estabilidade cambial.
DesdolarizaçãoA substituição do dólar é buscada, mas sem sacrificar a autonomia das moedas nacionais.

É interessante a comparação da BRICS+ AI Charter (Carta de Inteligência Artificial dos BRICS), com o EU AI Act (União Europeia) e as diretrizes OCDE/ONU:

📊 TABELA COMPARATIVA: BRICS+ AI Charter × EU AI Act × Diretrizes da OCDE/ONU

Critério🇧🇷🇷🇺🇮🇳🇨🇳🇿🇦 BRICS+ AI Charter🇪🇺 EU AI Act (2024)🌐 OCDE/ONU (Recomendações globais)
Modelo regulatórioÉtico, pluralista, voltado à soberania e inclusãoRegulação ex ante, com regras rígidas por nível de riscoDiretrizes não vinculantes, baseadas em consenso técnico
Base jurídicaProposta político-normativa em construçãoLei aprovada e vinculante em todos os países membros da UESoft law (recomendações e princípios)
Classificação de riscoEm discussão; princípio da contextualização cultural e socialDivisão em 4 níveis: proibido, alto risco, médio e mínimoAponta riscos, mas sem categorização jurídica obrigatória
Foco ético e culturalDiversidade, pluralismo ético, evita imposições culturaisDireitos fundamentais europeus (non-discrimination, privacy)Foco em transparência, inclusão, sustentabilidade
Uso militar e estatal da IAFlexível; pode incluir usos soberanos e militares (ex: China, Rússia)Proíbe IA para vigilância biométrica em tempo real em públicoRecomenda cautela, mas não veda
Transparência e explicabilidadeFortemente apoiada, mas com adaptação à realidade técnica localObrigatória para sistemas de alto riscoRecomendação central (princípio da “explainability”)
Proteção de dados e uso de conteúdoPropõe compensação a criadores de dados usados em treino de IAProteção forte via GDPR e proibição de scraping sem base legalRecomendação de consentimento informado e uso justo
Soberania digitalPonto central: dados, infraestrutura e LLMs locaisNão é prioridade; depende de empresas privadasPromove interoperabilidade, não necessariamente soberania
Governança internacional propostaONU + BRICS+ Secretariat + países do Sul GlobalUnião Europeia (comissão, parlamentos, tribunais)Fóruns multilaterais (UNESCO, OCDE, G7/20)

Nesse jogo, a posição do Brasil pode ser sintetizada em 3 princípios:

  • Valorização da ética, direitos humanos e justiça algorítmica, como o EU AI Act;
  • Também defende soberania tecnológica e dados locais, como o Charter BRICS;
  • Tem criticado propostas da OCDE por não refletirem as realidades do Sul Global.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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9 Comentários
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  1. viveAaronvivSchwartzvive

    8 de julho de 2025 10:14 am

    Nassif pra um tiozinho igual vc até q ENTENDEU MAIS OU MENOS o w tá rolando no mundo parabéns,eu vou ajudar Thuamo tb só estou esperando ele se enrolar mais lá será SÓ depois das eleições brasileiras isto se não estourar a guerra antes !!!Obs.:Certo min. Judiciário do Brasilferrou o governo deoxem ele se virar sozonho,só mais um traíra no mundo !!!

  2. AMBAR

    8 de julho de 2025 1:20 pm

    Trump não se ouve e nem se vê. Acha que o que seja contra interesses norte-americanos é contra os interesses do mundo. Imperialista, acha que o mundo é seu quintal. Pior que isso é a inveja que sente dos líderes que agora apontam no mundo e o ódio de não ser mais o centro das atenções. Onde já se viu uma reunião de países importantes onde ele não é convidado a participar.

  3. Wagner Lemes

    8 de julho de 2025 2:16 pm

    Parabéns pela matéria Nassif! Excelente análise!

  4. fabricio coyote

    8 de julho de 2025 3:01 pm

    uma caricatura de trump (trunfo! de aposta) poderia ser qual um cão colocando o rabinho entre as pernas: China e Rússia deram o ultimato sobre o bombardeio ao Irã.

    https://jpegmafia.bandcamp.com/album/scaring-the-hoes-dlc-pack

  5. cezar perin

    8 de julho de 2025 4:27 pm

    Baita análise como sempre…….

  6. Rafael

    8 de julho de 2025 6:23 pm

    Primeiro. Parabéns pelo artigo de alta relevância.
    Alguns pontos destacar – premissas:
    “dívida pública norte-americana criou uma relação negativa com a China”
    “diplomacia dos canhoneiros tornou-se muito onerosa para a economia norte-americana”
    “as big techs norte-americanas ascendiam ao topo do mundo, mudando a natureza do poder norte-americano e confrontando o poder até então absoluto de Wall Street e da City londrina”
    “submeter o mundo – e o próprio EUA – ao poder das big techs”
    Deduz-se que a nação EUA tende a declinar para surgir o que Varoufakis chama de “feudo capitalismo”. Aliás, o Ladislau Dowbor também fala disso quando mencionado que hoje não se “ganha mais dinheiro” como antigamente, produzindo bens e serviços, mas “intermediando sinais eletrônicos” (essa definição é por minha conta). Isso Dowbor chama de capital improdutivo.

    Assim, Trump e os nobres – senhores feudais – das big tehcs dominariam um mundo em que os estados nações perderiam poder e surgiria um sistema político-econômico global que não é mais o capitalismo, mas, o “feudo capitalismo”, por falta de definição melhor.

    No meu ponto de vista, uma questão chave para analisar esse processo é o que poderia se chamar de técnica. Ou seja, assim como o capitalismo superou o feudalismo com a “técnica”, da máquina a vapor – que permitiu o desenvolvimento urbano industrial, com sua classe de empresários burgueses (que derruba a monarquia) e sua massa de consumidores assalariados – a chave para entender o fim do capitalismo também pode estar numa “nova técnica” disruptiva. E, nesse caso, uma dessas “técnicas” seria as moedas digitais que seriam tecnicamente mais eficientes que as moedas nacionais nas trocas globais. E isso enfraqueceria um dos pilares dos estados nacionais a ponto de vir a acabar com eles.

    Daí, surgem as perguntas:
    Essa “técnica” (nano computadores, redes digitais/big techs, cripto moedas) irá substituir as relações sociais de produção e poder “nacional-capitalistas”?
    Os estados nações vão acabar como acabaram as monarquias absolutas? O que será da China, Rússia, Índia, etc?
    Surgirá um novo sistema, para substituir o capitalismo – com seus estados nações republicanos, suas democracias e economias liberal mercantil capitalista.
    O “velho” (sistema capitalista global) está morrendo?

    1. Lênin and The Ulianovs

      9 de julho de 2025 7:38 am

      O erro de avaliação está aí…

      Um erro anti histórico, de Dowbor e do grego.

      Estamos diante de uma nova fase pós capitalista, que reúne, em sua etapa de acumulação, o anti valor (dinheiro que veio do dinheiro), e dados, que realimentam esse sistema de alavancagem.

      Há uma tentação de reduzir certas similaridades a um nome como feudo capitalismo (moeda privada e fragmentação das estruturas políticas estatais), mas a história não roda ao contrário.

      A moeda não era a questão central do feudalismo, mas sim a questão da terra como axioma de sócio reprodução do modo de produção, cuja estrutura era rígida e hereditária.

    2. AMBAR

      9 de julho de 2025 11:05 am

      Pode chegar ao ponto de a população pobre seja mantida fechada num campo de força tendo todas as suas funções monitoradas, sem direito a individualidade, propriedade, mobilidade, ou vontade. Servirá somente para uso e descarte.Submeter o mundo sempre foi o sonho dourado dos irmãos do norte.

  7. TWA

    9 de julho de 2025 2:27 pm

    Tenho entendido que uma das premissas do projeto 2025 é que por tempo demais o dólar se manteve forte e todo mundo desvalorizava suas moedas nacionais para ganhar “competitividade” em cima da indústria americana, logo Trump e seus asseclas do 2025 querem desvalorizar o dólar de todo jeito fazendo essa bagunça no mercado, e estão conseguindo.

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