15 de junho de 2026

O governo Lula encontra sua primeira bandeira, por Luís Nassif

O que Haddad propôs não foi nenhuma luta de classe, mas a elevação do Brasil ao mesmo patamar de justiça tributária de países desenvolvidos
Ricardo Stuckert

O governo Lula encontrou metade de sua bandeira política, um modo profundamente capitalista de instituir justiça fiscal: a progressividade. É um princípio tão antigo quanto a instituição dos métodos tributários. Diz que, quem ganha mais precisa pagar proporcionalmente mais.

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A progressividade parte do princípio de que os primeiros reais servem para a subsistência. Portanto, precisa haver isenção para todas as faixas. Depois, à medida que a renda vai aumentando, vai aumentando progressivamente a alíquota sobre as partes seguintes.

No Brasil, a regressividade atingiu níveis inacreditáveis. As pessoas do topo da pirâmide pagam proporcionalmente menos impostos do que a base. A taxa efetiva de um super-rico não passa de 10%, contra alíquotas muito maiores na base.

O aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) visava conseguir saídas para fechar o orçamento. A molecagem de Hugo Motta, o desastrado presidente da Câmara Federal, forneceu o mote para a reação do governo. Ao vetar o IOF, fez o Ministro Fernando Haddad sair da discrição habitual e lançar o mote do “pobre contra o rico”.

No Brasil, a alíquota máxima da tabela de IR é de 27,5%. Com as diversas formas de ganhos financeiros, rendas de mais de R$ 1 milhão mês não paga mais que 10%.

Compare com outras economias.

PaísAlíquota Máxima Federal (%)Alíquota Total Máxima (%)Notas
EUA37~50,3 (com estaduais)Varia muito por estado
França4549 (com sobretaxas)Sistema familiar pode reduzir efetivo
Reino Unido45Até 60% (marginal efetiva)Acima de £ 125 mil não há dedução pessoal
Itália43~46 (com regionais)Impostos locais variam
Canadá33~53,5 (com província)Depende fortemente da província
Japão45~55Impostos locais somam cerca de 10%

O que Haddad propôs não foi nenhuma luta de classe, mas a elevação do Brasil ao mesmo patamar de justiça tributária de países desenvolvidos, uma proposta civilizatória.

Imediatamente, houve o reboliço da mídia, incapaz de disfarçar os interesses pessoais de seus controladores. Editoriais contra o aumento do IOF, editoriais denunciando o MEI (Microempreendedor Individual), com uma falta de sutileza comprometedora. É evidente que a linha editorial de empresas jornalísticas reflete os interesses econômico-financeiros de grupos. Mas nunca de forma tão ostensiva quanto agora, denotando um profundo amadorismo.

De qualquer modo, Lula encontrou seu primeiro mote eleitoral: o da justiça tributária, que os jornais preferem falar em colocar os pobres contra os ricos, nós contra eles.

Falta o segundo pedaço da bandeira: o plano de metas. O governo já cumpriu brilhantemente seu desafio de tirar, mais uma vez, o Brasil do mapa da fome. Falta agora dizer claramente o que o país quer ser, quando crescer.

Há uma série de planos sendo tocados individualmente por Ministérios: o da Indústria e do Comércio, o da Fazenda, do Planejamento, de Ciência, Tecnologia e Inovação. Falta a síntese principal: o plano de metas de Lula.

Há uma guerra mundial pela frente, com o Congresso dominado pelo que de pior a política brasileira produziu na história, pretendendo açambarcar as funções do Executivo.

É um momento tenso, cujas práticas mais abjetas estão sendo testadas no grande laboratório do Paraná. Foi lá que a Polícia Militar invadiu uma sessão que pretendia discutir seus crimes. E é lá que deputados estaduais pretendem cassar o mandato de um combativo deputado da oposição.

Ontem, no coquetel de abertura do encontro do Novo Banco dos BRICS, a ex-presidente Dilma Rousseff analisou os arroubos do Congresso, sob Eduardo Cunha, e agora, sob o jovem Hugo Motta. O que se queria, nos dois momentos, era tirar o poder do Executivo sobre o orçamento.

Criou-se um moto perpétuo, no qual o Centrão, aliado à ultradireita, controla as emendas e, através delas, garante a reeleição dos seus. O país prepara-se para enfrentar uma organização perigosíssima, porque está controlando os instrumentos para conseguir a maioria eleitoral.

E, sem um plano de metas claramente definido, perpetua-se o quadro atual, com cada grupo – Faria Lima, jornais, Joãos Dorias da vida – tenta tirar sua lasquinha, sem que haja uma massa crítica dos chamados pais refundadores da República.

Essa refundação só será possível com Lula acenando claramente para o tipo de país que se pretende.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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11 Comentários
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  1. fabricio coyote

    4 de julho de 2025 8:34 am

    o brasil acabou. a provs da dissociação do judiciário do Povo Bradileiro traduz se no encontro de políticos e juízes em lisboa: à metrópole os colonos discutem o fim dos direitos trabalhistas com aval de ministrecos do supremo cuja maioria foi indicada pelo partido dos trabalhsdores. adicione se a isso relatório do banco mundial sobre a gritante desigualdade brasileira. esses fsscistas discutem a vida da nação remotamente com dinheiro público num país q não mais prarica jornalismo, com as raras exceções de Nassif, Bob Fernandes e Janio de Freitas. é o ponto de não retorno: as próximas eleições serão a pá de cal no trabalhismo brasileiro a partir do partido dos trabalhadores. como dizia Leonel de Moura Brizola, paricipante ativo das Internacionais: o pt é a esquerda que a direita gosta.

    https://www.poder360.com.br/opiniao/taca-da-perversao/

    só uma Constituinte nos salva!

    1. Anônimo

      5 de julho de 2025 11:20 am

      Brizola tinha razão em 1989, quando o PT lançou Lula como candidato à presidência, tirando Brizola do páreo e entregando o país à direita mais retrógrada representada por Collor, o que acabou em impeachment. Durante os anos 1990, o PT foi dando razão a Brizola, pela lógica stalinista de José Dirceu de “fortalecer o partido” acima dos interesses do povo, aliada ao irresistível talento de Lula pour la negociação. Etc, etc…
      Durante os primeiros governos de Lula, os movimentos sociais foram perdendo força… por que será??

  2. José de Almeida Bispo

    4 de julho de 2025 8:59 am

    “Falta o segundo pedaço da bandeira: o plano de metas.” NÃO. Se unificar num grande plano; nem o povo vai aderir, e “nosso” Congresso supremacista-entreguista, com a mídia da Faria Lima (Globo, UOL-Folha, Estadão, etc., etc.)vem com tudo pra cima. Vai ter que ser no varejo mesmo. Nossa elite nasceu pra ser golpista e serviçal ao estrangeiro. TODA VIDA FOI ASSIM.
    Se houvesse racionalidade se faria, não um Moncloa, monitorado pelo Opus Dei; mas, pelo menos algo como o Plano Real.
    Mas isso está fora de questão num país que expulsou seu Imperador, não porque era titânico; mas por apresentar traços de civilizado.

  3. Rui Ribeiro

    4 de julho de 2025 10:39 am

    “Os solteiros ricos deveriam pagar mais impostos. Não é justo que alguns homens sejam mais felizes do que outros.” – Oscar Wilde.

  4. EDUARDO T S PEREIRA

    4 de julho de 2025 10:43 am

    Gostei da parte do Paraná. E bem daquele jeito descrito

  5. Silvio Torres

    4 de julho de 2025 10:43 am

    Pela reação desesperada da mídia mafiosa, o Lula acertou um direto no queixo da “elite”.

  6. Rui Ribeiro

    4 de julho de 2025 11:08 am

    O que diz a Falha de São Paulo?

    “De olho em 2026, Lula aposta no exagero populista para resgatar popularidade perdida
    Presidente aposenta de vez a fantasia do ‘governo de união’, retoma o discurso do ‘nós contra eles’ e faz distribuição desenfreada de benefícios”.

    A dita não foi dura, foi branda, pois pimenta nos olhos da Nação é refresco nos olhos da Falha de São Paulo

  7. Lênin and The Ulianovs

    4 de julho de 2025 2:03 pm

    Ora, por que o medo de falar em luta de classes, pobres contra ricos, se esse é o cotidiano, e pior, se está é a definição da mais cruel estrutura tributária da Terra, a brasileira??????

    Por que subtrair o nome correto, quando o Insper boy faz a primeira coisa correta e corajosa em toda sua vida como ministro??????

    Ah, tá, não é uma revolução de classes, nem é algo que qualquer país mequetre já não tenha feito.

    Mas aqui, onde o quarto de empregada ainda lembra as senzalas, e onde um Uruguai não tem privada para cagar, qualquer coisa é alguma coisa.

    Sim, foi um sopro pequeno, mas um movimento de pobres contra ricos.

    E não, não é possível que os interesses de ambos coexistam.

  8. Lênin and The Ulianovs

    4 de julho de 2025 2:04 pm

    Por que o medo de falar pobres contra ricos?

    Ah, sim, porque é sempre rico contra pobre, esse é o normal, e ninguém se assusta.

  9. IOFalantej.marcelo

    4 de julho de 2025 4:28 pm

    Nassif leu meus pensamentos,justamente isso q queria saber se SERIA IM ABSURDO as taxas no Brasil mas as manchetes da mídia tradicional sempre escondem o principal e ainda distorcem mudam a percepção do povo,por issso q o País é o mais INJUSTO FINANCEIRAMENTE FALANDO todos querem lucro fácil em nome da religião do dinheiro sem DEVOLVER ao País um real aff !!!

  10. Maria Theml

    6 de julho de 2025 9:07 am

    NASSIF ESTÁ MAIS QUE NA HORA DE COBRAR IPTU E VÁRIOS OUTROS IMPOSTOS DESSAS IGREJAS EVANGÉLICAS QUE ESTÃO O TEMPO TODO QUERENDO DERRUBAR A DEMOCRACIA NO BRASIL E DEMONIZANDO O GOVERNO, CHAMANDO LULA DE LADRÃO E POR AÍ VAI.
    A CADA DEZ PASSOS ELES ABREM UMA IGREJA, ATÉ AQUI AO LADO DO MEU PRÉDIO NA BARRA DA TIJUCA TEM UMA. É UMA LEPRA QUE SE ARRASTA POR TODO O PAÍS! ELES SE METERAM NA POLÍTICA COM A FINALIDADE DE LEVAR O PAÍS AO FUNDO DO POÇO. NASSIF TEM QUE COMEÇAR A FAZER EDITORIAIS CONTRA ISSO.

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