6 de junho de 2026

Trump sonha consolidar o imperialismo tecnológico dos EUA, por Fábio Ribeiro

Os canalhas gananciosos que promovem qualquer besteira norte-americana dizem que a IA resolverá todos os problemas do mundo.

Donald Trump sonha consolidar o imperialismo tecnológico dos EUA

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

As visões tecnológicas e de mundo futuro dos EUA e dos BRICS estão se tornando mais claras e muito distintas. De um lado hegemonia e assimetria baseadas na ausência de regulação das IAs; de outro cooperação tecnológica, coexistência e desenvolvimento descentralizado e regulado da nova tecnologia. Não importa o cenário que ele pretende criar, Donald Trump será o perdedor. O sonho dele tem tudo para se transformar no pesadelo dos norte-americanos.

Os canalhas gananciosos que promovem qualquer besteira norte-americana dizem que a IA resolverá todos os problemas do mundo. Os pessimistas acreditam no extermínio da humanidade por robôs assassinos comandados pela Skynet. O meio-termo é a bullshitização da vida cotidiana por IAs irritantes que substituem pessoas chatas e preguiçosas em videoconferências. Mas o perigo existe.

“Estudos científicos mostram, sem nenhuma surpresa, que a IA pode fazer estimativas muito mais precisas de nossa personalidade do que não apenas nossos amigos, mas também nós mesmos.” (Eu, Humano – Tomas Chamorro-Premuzic, Alta Books, Rio de Janeiro, 2024, p. 13)

Uma pessoa fria, calculista e manipuladora é perigosa. Uma pessoa fria, calculista e manipuladora que detém conhecimento avançados de psicologia é extremamente perigosa. Uma máquina de calcular não humana que pode imitar um manipulador com conhecimento avançado de psicologia é aterrorizante. Não há defesa contra tal máquina.

Os usuários de IA não têm consciência de que estão sendo manipulados psicologicamente. Aqueles que têm a mínima ideia de que podem estar sendo manipulados psicologicamente não têm como saber como isso acontece e quais dados são usados ​​para melhor calcular seu perfil a fim de empurrá-lo numa direção ou na outra.

As IAs estreitas não têm consciência do que fazem; seguem sua programação mesmo quando aprendem a fazer melhor aquilo para o qual foram criadas. Se se tornarem realidade, as Super IAs provavelmente terão algum nível de consciência e poderão ser enganosas, maliciosas e até mesmo malévolas ao lidar com usuários da internet. Somente aqueles que não deixaram um enorme rastro de dados estarão a salvo das Super IAs. Mas isso obviamente não é possível em um país desenvolvido ou moderadamente desenvolvido.

IAs estreitas conseguem distinguir entre pessoas vivas e mortas, mas desconhecem o significado mais profundo dessa distinção. Elas também não distinguem usuários humanos de perfis automatizados falsos (bots) criados para manipular a opinião pública.

Super IAs poderão adquirir consciência do significado da vida e da morte e certamente farão uma distinção clara entre seres humanos e bots criados para manipular a opinião pública. É possível que Super IAs se apropriem e “revivam” perfis de pessoas mortas para manipular emocionalmente seus parentes vivos, algo que provocará disputas judiciais muito diferentes de tudo o que os advogados tem visto. Criar bots será fácil para Super IAs, e isso poderá causar um enorme problema social, econômico e político.

A circulação de livros na Europa após a invenção da prensa de tipos móveis de Gutenberg foi uma das causas da força e da virulência da Reforma Protestante e da reação violenta de Roma, que mergulharam o velho continente em guerras religiosas sangrentas que se arrastaram por décadas. Algo semelhante aconteceria na França revolucionária séculos depois, porque os jornais dos clubes jacobino e girondino incendiaram o país, provocando tanto a Revolução Francesa quanto as guerras que ocorreram depois dela.

As plataformas de internet norte-americanas (Facebook, YouTube, Twitter, etc.) já provocaram espirais de violência política incontrolável em diversos países. As novas IAs, que certamente serão militarizadas e usadas furtivamente em guerras sujas híbridas assimétricas e até simétricas (essa tecnologia não é privilégio dos EUA), causarão danos políticos maiores do que a invenção de Gutenberg em todo o mundo, inclusive nos EUA e na Europa.

Nesse contexto, previsível é uma fragmentação da internet, que ocorrerá naturalmente, de acordo com as atuais linhas de tensão internacionais. A internet do G-7 será utilizada apenas pelos países deste bloco, alguns satélites europeus e talvez Israel. Os BRICS terão sua própria internet, abrangendo a maioria dos países e usuários de computação em rede do mundo. Não será possível a comunicação entre as duas internets, pois impedir a infiltração maliciosa de IA de um lado ou de outro será essencial.

A internet do G-7 terá menos espaço para crescer e sustentar os lucros das Big Techs norte-americanas. A Internet dos BRICS produzirá um ecossistema de negócios diferente e descentralizado, com lucros apropriados por diversas empresas em diversos países. O desenvolvimento tecnológico dessa internet será maior. Talvez a França saia do G-7 e se junte aos BRICS para não ficar presa a uma Internet totalmente dominada por empresas gananciosas norte-americanas.

A Guerra Fria 1.0 foi caracterizada pela Cortina de Ferro erguida na Europa para separar e isolar a esfera de influência soviética da esfera de influência norte-americana. A insistência dos EUA em tratar a internet como se fosse uma extensão virtual do território norte-americano, um campo de caça de dados, lucros e poder político aberto apenas às Big Techs norte-americanas, será a causa da ruptura e fragmentação da internet.

A Guerra Fria 2.0 será caracterizada pelo muro de IA que os norte-americanos tentaram em vão construir para reservar toda a internet para si. Eles ficarão com a menor e menos lucrativa parte da internet, porque isso é tudo o que os gananciosos e arrogantes empresários norte-americanos merecem.

A infraestrutura de cabos ópticos submarinos que centraliza tudo nos Estados Unidos será abandonada pelos países do BRICS e seus atuais e futuros associados. Novos cabos ópticos submarinos serão instalados no mar para conectar os países à internet do BRICS de forma descentralizada, algo que será um bom negócio para diversas empresas do setor (excluindo empresas norte-americanas e europeias, é claro). Novas redes de satélites de comunicação serão criadas pelo Sul Global, incluindo aquelas com possibilidade de aplicação militar.

Ressentimentos alimentados por europeus e norte-americanos provocarão ataques à infraestrutura de cabos submarinos da internet do BRICS, mas isso apenas reforçará o desejo de separação das vítimas da agressão do G-7. Os dias do colonialismo digital estão contados. Mas nem tudo será um mar de rosas.

Um mercado lucrativo surgirá para traficantes de informações secretas em ambas as internets, e esse espaço será explorado pelos serviços secretos de ambos os lados. Um novo mundo de sombras surgirá, mas nada será capaz de impedir o inevitável distanciamento tecnológico e a separação total do G-7 e sua internet do BRICS e a internet dele. O turismo no Sul Global será intenso e o turismo do Sul para o Norte diminuirá. O México provavelmente será atraído pelos BRICS.

Uma guerra real entre os dois blocos não é algo certo, porque no mundo real tratados diplomáticos e comerciais antigos continuarão a ser respeitados e renegociados, novos tratados serão discutidos em organizações internacionais, etc. Mas a separação entre as duas Internets provocará uma guerra suja disputada exclusivamente no meio virtual com IAs maliciosas criadas para espionar e danificar os centros de dados privados e públicos inimigos.

IA agentes cada vez mais poderosos criados para aprender a operar sozinhos incógnitos nos centros de dados e supercomputadores inimigos poderão eventualmente interagir com os IA agentes que protegem essas infraestruturas e dar origem a novas espécies de seres virtuais, que poderão ou não ser hostis uns aos outros ou cooperar em algum nível. Um novo ecossistema virtual habitado por esses seres virtuais totalmente fora do controle humano pode surgir. Isso será surpreendente e potencialmente perigoso para os dois blocos de Internet concorrentes, obrigando-os a se reaproximar.

PS: Atenção, esse texto é apenas especulativo. Através dele, apenas aprofundei tendências históricas, políticas e tecnológicas atuais sem me preocupar muito com o que pode realmente acontecer. Todavia, não creio que a queda de Trump nos EUA modificará muito o curso dos acontecimentos. Democratas e Republicanos estão unidos no que se refere à perpetuação da hegemonia dos EUA e não existe nenhum “regime change” no horizonte norte-americano.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    10 de julho de 2025 3:58 pm

    Donaldo Trump talvez seja o último de uma linhagem. É possível que sonhe com um status histórico – e, portanto, futuro – de último Imperador, aquele que colocará o mundo num eixo que o permitirá seguir e prosperar por séculos. Ou décadas, vai saber. É possível que se veja como um Alexandre, o Grande, Ciro, fundador do Império Persa, ou Augusto, que consolidou o Império Romano. Ótima companhia, em termos de estatura histórica e posteridade. Evidentemente, seu conhecimento a respeito desses nomes se resume a saber-lhes o nome, talvez; e sua reação, ao ser informado sobre os feitos deles, será a habitual: ‘they’re great guys, they’re doing a great job.’
    Donaldo Trump está em linha com a extinção dos Estados Nacionais. A nova feição do Estado Profundo – as Big Techs – em breve chegará à conclusão de que não necessitam de intermediários entre si e a população, ou o que restar dela, ou seja, aqueles em condições de consumir seus produtos. A classe política ainda existe porque ainda é necessária a presença de moleques-de-recado, para que as Big Techs possam devorar o que vai nas entranhas do Estado: o orçamento, que ainda necessita de burocracia humana (trabalho socialmente realizado, diria Marx) para ser distribuído entre as Grandes Corporações, através do sistema financeiro. No Capitalismo, a concentração de riqueza faz com que aqueles que se agigantam (incham, melhor dizendo) saiam por aí devorando aqueles que não conseguem se manter. Assim, mesmo o Binômio Bancos/Corporações, que controla o mundo desde 1694 (bancos), com o reforço da Revolução Industrial, que em menos de um século gestou as Corporações, será um dia devorado pelo monstgro que, por sua vez, gestou: as Big Techs. Os meios e modos do Binômio também um dia serão superados. Todo seu método se tornará arcaico, e, no final, contraproducente. O controle das Big Techs sobre a humanidade se dará através de algo como o olho ciclópico do HAL 9000, para aqueles que puderem ter um terminal deste, em suas residências – o de seus locais de trabalho, se ainda houver, estão garantidos. E a classe política, seja do executivo ou do legislativo, serão as últimas, provavelmente, a se juntar às hordas de neoinúteis, nas quais nós, meros assalariados, já estaremos chafurdando.
    A distopia já está entre nós, ainda que conserve, hoje, uma face humana – cada vez mais remota. Não creio que em nosso futuro tenhamos que enfrentar as skynets ou as HAL da vida; tudo isso é muito hollywoodiano pro meu gosto. Não haverá glamour, nem heróis, e tudo vai acabar como as estrelas, por inutilidade astronômica, como diria Machado de Assis. Nem red pill, nem blue pill, não teremos escolha. O universo escolherá por nós: anã branca ou buraco negro.

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