4 de junho de 2026

MAGA-Lândia e o Tarifaço Disciplinador, por Fernando Nogueira da Costa

Segundo o Instituto da Teoria Conspiratória, o tarifaço não tem nada a ver com o lobismo do Capachonarinho, ajoelhado diante de O Aprendiz
Max Ernst

Sátira: MAGA-Lândia e o Tarifaço Disciplinador

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por Fernando Nogueira da Costa

Ou: Como a submissão virou patriotismo e o imperialismo virou retaliação política

Na colônia cultural da Direita Tropical — onde a cloroquina é elixir, urna eletrônica é conspiração e o boné vermelho com “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Novamente) é orgulho — os MAGAlóides vibraram quando o Imperador Donald, deus do neoliberalismo de conveniência e dos memes de teorias conspiratórias, decretou o Grande Tarifaço contra os produtos brasileiros.

– “50% sobre tudo!”, gritou Donald, com a fúria de um pato mal-humorado. Laranja? Tarifa! Café? Tarifa! Carne? Tarifa! Açúcar? Tarifa! Petróleo bruto para a gente refinar? Tarifa! Semimanufaturados de ferro ou aço baratos para a gente fabricar e construir aqui? Tarifa! E nem escutou qualquer explicação de ser “um tiro no pé” o aumento dos preços dos importados baratos.

Imediatamente, os discípulos tropicais começaram a grasnar (ou mugir):

– “A culpa é do PT!”

– “A culpa é do Lula!”

– “A culpa é do BRICS!”

Segundo o gado do Instituto da Teoria Conspiratória (ITC), o tarifaço não tem nada a ver com o lobismo do Capachonarinho, ajoelhado diante do trono de O Aprendiz. Nada disso. A verdadeira razão é o Brasil ter ousado levantar os olhos e pensar em um mundo multipolar, onde o Sul Global dialoga entre si, sem pedir bênção ao Tio Sam.

Pau-Mandado da Familícia acusou em suas redes sociais: “a responsabilidade é de quem governa. Lula colocou sua ideologia acima da economia –  e esse tarifaço é o resultado justo para o país pagar seus pecados. Quem mandou não se submeter?”

O arrebanhador do gado afirmou a sábia decisão ser resultado de alinhamento do Brasil a países do Sul Global para criar uma ordem multilateral com comércio via outra moeda. Disse: “o governo petista não pode jogar a culpa no seu antecessor!”

“É isso que dá não obedecer ao Imperador Donald!”, mugiu o gado nos podcasts da revolta negacionista e anticientífica. “Quem manda fazer comércio com a China? Quem manda fazer reunião da cúpula do BRICS no Rio de Janeiro? Quem manda pensar com a própria cabeça, pô?”

Agora, vejam bem o novo argumento da racionalidade MAGA-lóide™: – “O tarifaço do Donald é uma lição educativa: assim se enquadra países desobedientes! Se fôssemos submissos como antes, no tempo do Capachonaro, ele até baixaria as tarifas!”

Sim, senhoras e senhores. Em MAGA-lândia, submissão virou sinônimo de “diplomacia estratégica”. Ser colônia virou “parceria comercial”. A dependência virou “liberdade”.

O que Capachonaro realmente pretendia era um Brasil de joelhos, grato pelo privilégio de vender barato commodities ao Império e importar caro bens industriais como armas semi-automáticas para suas milícias, ops, CACs. Ele não bateu continência para a bandeira americana?

O mais curioso é agora, diante do prejuízo bilionário causado ao agronegócio, os mesmos defensores da independência do Banco Central e da livre iniciativa, em comércio livre de Estado, exigem o governo brasileiro urgentemente pedir desculpas ao Imperador Donald. O Lula deveria ir de boné MAGA cantar o hino dos EUA e prometer nunca mais participar do BRICS.

“É isso que dá querer ser amigo da África e da Ásia!”, dizem os doutores em geopolítica do X, Instagram, Telegram etc. “O certo era continuar como antes nos bons tempos do Capachonaro: entregando tudo de graça e pedindo por favor para ser explorado.”

Enquanto isso, Donald, lá cada vez mais isolado, com protestos em todas as universidades norte-americanas e gente cansada do seu racismo de reality show, começa a se parecer menos com um imperador e mais com um Pato Donald manco, grasnando tarifaços a custo de no próximo ano perder a maioria em seu próprio Congresso. Porque, veja, americano gosta de café com açúcar, carne com suco de laranja — mas não gosta de inflação.

Epílogo: se o Brasil perder com a tarifa, a direita MAGA tupiniquim não se importará em perder a narrativa ilusória? Afinal, como convencer o povo brasileiro de o Império do Norte ser seu melhor amigo… quando ele acaba de meter a mão no seu bolso?!

Mas não se preocupe: os MAGAlóides já têm a explicação pronta e enfadonha a partir dos seus dois neurônio (sem S) funcionando a pleno vapor: – “É tudo culpa do PT. E do Lula. E da vacina.”

Enquanto isso, a soberania nacional irá sendo estocada junto com a dignidade — em vez de contêineres tarifados a 50%, para Tornar a América Grande Novamente, os exportará para o Sul Global.

Fato ignorado pelos MAGAlóides: em termos de PIB nominal, o BRICS representa cerca de 29% da economia global. Em paridade do poder de compra, tem uma representatividade maior, chegando a 37% do PIB mundial. Com a expansão, o Brics+ pode representar mais de 40% do PIB mundial, superando a participação do G7, EUA incluso. Abriga mais de 40% da população mundial. Só.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. AMBAR

    11 de julho de 2025 6:48 pm

    Uma coisa que o laranja do norte não percebeu mas logo a ficha vai cair, é que ele, tão esperto, foi manipulado por um brasileiro bolha, puxa-saco e ignorante – o Bananinha – que mentindo pra ele fe-lo tomar uma decisão impensada. Quando a cabeça dele esfriar, quando ele perceber que reagiu a informações e dados falsos só pra se livrar da insistência de um cara chato , vai ficar muito puto, mas aí o estrago já foi feito. Da desimportância que a família bozo tem ao simples chute na bunda pode virar um passo. Lula rirá.

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