11 de junho de 2026

Economia de Mercado de Ações versus Economia de Endividamento, por Fernando N. da Costa

René Magritte

Economia de Mercado de Ações versus Economia de Endividamento

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por Fernando Nogueira da Costa

O mercado de ações se desenvolveu nos Estados Unidos, a partir do fim do século XIX, porque as unidades federativas e seus bancos eram emissores de moeda privada dita “livre”. O governo federal sequer emitia títulos de dívida pública para financiamento corporativo.

Desse modo, as grandes corporações recorrerem a emissões de ações para se financiarem. Surgiu assim a tradição de participação acionária de pessoas físicas em associações com as empresas de capital aberto.

Essa hipótese é articulada como uma interpretação crítica e sistêmica do desenvolvimento do mercado de ações nos Estados Unidos. Em especial, destaca a cultura acionária de base popular contrastante com a trajetória da financeirização periférica em países como o Brasil.

Houve um federalismo bancário e uma fragmentação monetária nos EUA do século XIX. Até a criação do Federal Reserve em 1913, os EUA possuíam um sistema financeiro extremamente descentralizado e instável sem Banco Central.

Cada banco estadual ou local podia emitir sua própria moeda, chamada de Notas Bancárias (Banknotes). O governo federal não emitia moeda fiduciária de curso forçado de maneira centralizada.

O Tesouro Nacional emitia poucos títulos de dívida pública. Em muitos períodos, buscava superávits fiscais por influência do padrão-ouro e do pensamento jeffersoniano e jacksoniano, hostis à dívida pública permanente.

Como resultado, o Estado federal não era o principal emissor de instrumentos financeiros líquidos. Em sua ausência, a intermediação financeira para investimento de longo prazo teve de se deslocar para outras formas de captação, sobretudo ações corporativas.

A ascensão das corporações e o financiamento via mercado de capitais ocorreram com a industrialização, acelerada após a Guerra Civil (1861–1865). Houve então a formação de grandes conglomerados nas atividades de ferrovias, aço, petróleo, eletricidade etc.

Surgiu a necessidade de financiamento de projetos de longa maturação e alto risco, para os quais os bancos fragmentados e com pouca capitalização não eram suficientes. A expansão dos mercados de ações, principalmente via Bolsa de Nova York (NYSE), foi o mecanismo de captação direta de capital pela emissão de ações.

Nesse contexto, o mercado acionário não era apenas uma alternativa, mas uma necessidade estrutural para o financiamento do capitalismo corporativo americano nascente. Daí houve a emergência da cultura acionária popular nos EUA.

A financeirização estadunidense não começa com fundos ou bancos de investimento sofisticados, mas sim com a popularização do investimento direto em ações por indivíduos, ainda no fim do século XIX e início do XX. Surgiu uma tradição associativa típica do capitalismo anglo-saxão na qual o investidor é visto como “parceiro” da empresa, mesmo em grandes corporações.

Após a crise de 1929, a criação de instrumentos regulatórios (como a Securities Act de 1933) e proteções legais para acionistas minoritários favoreceram o acesso direto de pessoas físicas ao mercado.

Essa tradição foi consolidada no pós-guerra com o boom das ações de empresas como General Electric, IBM, AT&T etc. Depois, na Era Neoliberal, foi reforçada nas décadas de 1980-90 com a financeirização da previdência via 401(k) e fundos mútuos, mas sobre uma base já existente de participação de indivíduos no capital acionário.

No Brasil e em outras economias periféricas, a função de financiamento das empresas foi historicamente exercida pelo Estado e pelos bancos públicos com crédito direcionado, subsidiado para setores prioritários, não por emissão de ações. A ausência de uma tradição de estabilidade monetária e de proteção ao investidor minoritário inibiu a formação de uma cultura acionária popular.

O mercado de ações ficou restrito às elites financeiras e aos fundos institucionais, ao contrário dos EUA. Além disso, a financeirização brasileira é marcada pela renda fixa pós-fixada, vinculada ao juro real elevado, com alta liquidez e baixo risco, diferentemente do papel exercido pelas ações nos EUA como ativo financeiro popular de longo prazo.

Em comparação, nos EUA, ausência de um Estado federal emissor centralizado de moeda e títulos no século XIX forçou o desenvolvimento precoce de mercados de ações como principal instrumento de financiamento de longo prazo das grandes corporações. Esse vazio institucional estatal favoreceu a emergência de uma cultura acionária descentralizada e associativa nos EUA, enraizada nas práticas de participação direta de pessoas físicas no capital empresarial.

Essa tradição histórico-institucional ajuda a explicar por qual razão os EUA têm alto percentual de pessoas físicas na bolsa, as empresas americanas historicamente priorizam shareholder value e os países periféricos, com sistemas financeiros mais centralizados e estatais, seguiram trajetórias distintas — orientadas à dívida pública, à intermediação bancária e ao rentismo com risco soberano para não haver fuga de capital para o dólar, ou seja, a dolarização como há na Argentina.

Portanto, o desenvolvimento dos mercados de capitais reflete trajetórias históricas marcadas por estruturas institucionais distintas. Os Estados Unidos desenvolveram um mercado de ações profundamente enraizado na cultura popular, enquanto o Brasil mantém uma estrutura financeira altamente concentrada, estatal e avessa à participação direta de indivíduos no capital acionário.

Minha hipótese é a ausência de um emissor federal de moeda e dívida no século XIX levou os EUA a desenvolverem precocemente mercados acionários como forma de suprir o vazio de intermediação financeira de longo prazo. Distingo dois tipos ideais de sistema financeiro: um é o sistema de mercado de capitais (market-based), com financiamento via ações e mercado de títulos corporativos, outro é o sistema de intermediação bancária (bank-based), nos quais o crédito bancário e o Estado são os principais alocadores de capital.

A categoria de “financeirização periférica” analisa como o Brasil absorveu a lógica financeira global sob condições específicas: juros reais elevados, ausência de cultura acionária e predomínio da dívida pública interna como ativo preferencial.

Até a criação do Federal Reserve em 1913, nos Estados Unidos, cada banco estadual emitia sua própria moeda. O governo federal evitava déficits crônicos e não emitia títulos federais como instrumento regular de política econômica. A fragmentação institucional exigia soluções privadas para o financiamento da infraestrutura e da industrialização como em ferrovias e aço.

O financiamento da expansão ferroviária nos anos 1870–90 foi feito majoritariamente por emissão de ações e bônus corporativos. A NYSE tornou-se o epicentro de um sistema financeiro descentralizado e pró-capital corporativo. O modelo acionário substituiu o banco universal europeu e criou uma forma associativa de propriedade do capital.

Leis como a Securities Act (1933) e a criação da SEC ampliaram a confiança do pequeno investidor. Nos anos 1950–60, surgem os primeiros fundos mútuos e previdência corporativa baseada em ações (401k). Desde os anos 1990, cerca de 50% das famílias americanas detêm ações direta ou indiretamente.

Desde os anos 1930, o Estado brasileiro assume o papel de emprestador de última instância do setor privado, via bancos públicos, subsídios diretos. A lógica desenvolvimentista priorizou o crédito direcionado e a captação por dívida pública, não mercado acionário.

A hiperinflação consolidou instrumentos pós-fixados (LFT, CDI) como forma dominante de poupança. A partir de 1994, com o Plano Real, a dívida pública se torna o principal lastro dos ativos financeiros de rentistas. O ambiente institucional desfavorece a confiança no mercado acionário por parte do acionista minoritário.

Há, no mercado de ações brasileiro, altas taxas de corretagem e baixa educação financeira, baixa proteção ao investidor minoritário, predominância de IPOs voltadas a grandes investidores institucionais, preferência cultural por ativos com rentabilidade segura e liquidez diária.

Dados comparativos

IndicadorEUA (2022)Brasil (2022)
Famílias com ações diretas/fundos53%4%
Dívida pública como % da carteira PF10%>60%
Número de empresas listadas~4.000~400
Crédito ao setor privado via mercadoAltaBaixa
Presença de banco estatalResidualDominante

A tradição acionária popular nos EUA surgiu não da abundância institucional, mas da ausência de Estado como agente financeiro direto. Ao contrário, no Brasil, a intermediação financeira estatal preencheu o vazio deixado por um mercado de capitais incipiente e um ambiente macroeconômico muito instável.

A superação dessa divergência exigiria, no Brasil, uma reforma tributária e previdenciária capaz de desincentivar a concentração de renda em títulos públicos, uma educação financeira massiva, políticas de desbancarização do investimento e criação de plataformas acessíveis para ações e cooperativas de capital.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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