10 de junho de 2026

Dependência tecnológica do Brasil torna país refém das Big Techs

Se antes o poder dos EUA se impunha pelas armas e pelo mercado financeiro, agora ele opera pela digitalização, pelas plataformas e pelo controle de dados
Redes sociais
Imagem: Pixabay

Em meio a uma conjuntura geopolítica cada vez mais tensionada, marcada pela ascensão de um novo modelo de dominação digital, especialistas brasileiros apontam que o país vive uma grave situação de dependência tecnológica em relação às grandes empresas de tecnologia — as chamadas Big Techs — e aos Estados Unidos.

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A análise foi feita durante o programas TVGGN Justiça da última sexta-feira (11). “Se antes o poder dos EUA se impunha pelas armas e pelo mercado financeiro, agora ele opera pela digitalização, pelas plataformas e pelo controle de dados”, afirmou o apresentador Luís Nassif.

O jornalista fez referência direta à influência de Donald Trump e sua articulação com figuras como Steve Bannon, sugerindo que a ingerência sobre o Brasil vai além de questões ideológicas, sendo também uma forma de frear iniciativas locais de regulamentação das plataformas.

Isabela Rocha, mestre em Ciência Política e integrante da equipe que desenvolve a plataforma piauiense de inteligência artificial SoberanIA, apresentou dados alarmantes de um estudo recém-divulgado por universidades brasileiras e o Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics.

Segundo a pesquisa, a máquina pública brasileira destinou R$ 23 bilhões às Big Techs, como Microsoft, Google e Amazon, nos últimos anos.

Desse total, R$ 10 bilhões foram gastos apenas entre junho de 2023 e junho de 2024, valor que, segundo Isabela, poderia ter sido usado para pagar bolsas de pós-graduação a todos os estudantes do país ou construir 86 data centers de alto padrão (Tier 3), impulsionando a infraestrutura tecnológica nacional. “Esse dinheiro está sendo enviado para o exterior, aprofundando nossa dependência e fortalecendo bilionários estrangeiros”, criticou.

A pesquisadora também apontou que a tentativa brasileira de regular as plataformas digitais tem gerado reações internacionais, incluindo as recentes taxações de 50% sobre produtos brasileiros anunciadas pelo governo Trump, que, na avaliação dela, representam retaliações políticas disfarçadas de medidas econômicas.

Software livre

O sociólogo Sérgio Amadeu, professor da UFABC e um dos principais articuladores do movimento de software livre no Brasil, relembrou os avanços conquistados entre 2003 e 2006, quando coordenou o Comitê de Implementação de Software Livre no Governo Federal. Ele destacou que, apesar das conquistas técnicas e de adesão de gestores públicos, faltou apoio político mais amplo para consolidar a estratégia.

Amadeu denunciou o lobby das multinacionais, como Microsoft e Oracle, dentro do Judiciário e de instituições federais, o que teria travado projetos de informatização baseados em tecnologias abertas.

“O Brasil sofre de uma alienação técnica. Ainda existe uma visão ultrapassada de que tecnologia é só meio, quando, na verdade, é também um fim — é infraestrutura estratégica para o país”, afirmou.

Segundo ele, o Brasil perdeu oportunidades de desenvolver soluções autônomas, e hoje 45% dos custos de projetos de inteligência artificial em universidades são destinados à infraestrutura de hospedagem — quase sempre em serviços de nuvem das Big Techs. “Só em 2024, o déficit na balança de serviços em telecomunicações e computação foi de US$ 7,2 bilhões, mais de R$ 35 bilhões em saída de divisas.”

Judiciário

O advogado André Matheus, vice-presidente da Comissão Especial de Combate ao Lawfare da OAB-RJ, analisou a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que flexibiliza a exigência de ordem judicial para a remoção de conteúdos digitais que incitem crimes como terrorismo, racismo ou ataques à democracia.

Ele destacou que o STF considerou parcialmente constitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet e classificou a decisão como pioneira e de grande impacto internacional.

“A partir de agora, plataformas podem ser obrigadas a remover conteúdos nocivos sem ordem judicial. Isso coloca o Brasil como referência global, o que desperta reações das Big Techs, preocupadas com o efeito dominó dessa jurisprudência”, explicou.

Na avaliação de Matheus, a taxação imposta pelos EUA seria uma resposta velada à ofensiva brasileira contra o poder das plataformas, utilizando instrumentos econômicos como forma de pressão geopolítica. “É uma nova forma de guerra — não com armas, mas com tarifas, lobbies e sabotagens digitais”, concluiu.

Apesar dos desafios, iniciativas locais apontam caminhos possíveis para a construção de uma soberania digital brasileira. Um exemplo destacado na entrevista foi o projeto SoberanIA, do governo do Piauí, a primeira plataforma de inteligência artificial criada pelo poder público estadual no Brasil.

Isabela Rocha, que colaborou com a concepção do projeto, relatou como o Estado buscou construir um sistema baseado em dados locais, evitando a dependência de plataformas estrangeiras. “A ideia surgiu a partir de oficinas que ministrei sobre uso ético de IA. O foco era mostrar que não é a tecnologia que está errada, mas a forma como ela é usada e para quem ela serve”, explicou.

A plataforma foi desenhada para auxiliar processos internos do governo, com base em dados públicos piauiense e programação em servidores próprios. Embora ainda restrita ao uso institucional, a expectativa é que o modelo possa ser expandido para outros estados e, futuramente, adaptado para uso mais amplo pela população.

Como conclusão, os entrevistados do programa afirmaram que a saída para o país passa por investimento em infraestrutura própria, políticas públicas robustas, regulação das plataformas e uma profunda mudança de mentalidade no setor público.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

5 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    12 de julho de 2025 4:48 pm

    Assistência tecnológica lucrativa para um genocídio em Gaza, vigilância digital de cidadãos dissidentes norte-americanos e britânicos que ousam combater esse crime e repressão a funcionários que se opõem às ações da empresa. As Big Techs norte-americanas são as novas Deutsche Gesellschaft für Schädlingsbekämpfung mbH que fabricam Zyklon-B. Depender de Big Techs norte-americanas era ruim num passado recente. Agora se tornou um comportamento perigoso, suicida.

  2. Paulo Dantas

    12 de julho de 2025 7:21 pm

    A pior dependência e no Software, gestão, Banco de Dados, Analise de Dados, Comunicação, IA etc.

    Os governos anteriores tentaram por exemplo trocar o pacote Office por versão abertano setor público mas encontra resistência nos servidores só para citar um exemplo.

    Em Banco de Dados não tem solução segura face ao volume de dados das bases de governo, passa só por um fornecedor praticamente.

    Mesmo o aberto é feito quase sempre feito lá fora.

    A solução passa por grana, investimento pesado para tirar um gap de décadas.

  3. José de Almeida Bispo

    13 de julho de 2025 1:35 pm

    Henrique VIII, quando fundou a Inglaterra (o que houve antes foi a velha e atrasada Britânia), para isso cortou pela cepa a dependência cultural com Roma; com a Igreja Católica, o que o sujeitava automaticamente ao protetor desta, o poderio espanhol.
    Ninguém é ninguém sem ter opinião própria. E jamais ninguém vai ter opinião própria sendo conduzido por mídia estrangeira. Jamais!

    1. Jacob Binsztok

      13 de julho de 2025 10:10 pm

      Perfeito, exige uma verdadeira revolução cognitiva,o que não é uma tarefa simples.

    2. Jacob Binsztok

      13 de julho de 2025 10:15 pm

      Perfeito, o pais exige uma revolução cognitiva,tarefa,bastante complexa.

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