4 de junho de 2026

A “pinochetização do mundo” e o projeto autoritário-global de Trump, por Gustavo Tapioca

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A “pinochetização do mundo” e o projeto autoritário-global de Trump

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por Gustavo Tapioca

Ao analisar os rumos políticos da extrema-direita global, o professor e ensaísta João Cezar de Castro Rocha tem usado uma expressão perturbadora e precisa: “pinochetização do mundo”. A metáfora não é retórica nem exagerada — trata-se de uma leitura crítica e profundamente embasada da forma como o projeto político representado por Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei e Viktor Orbán, entre outros, reedita, em escala global, um modelo forjado no sangue e na repressão: o da ditadura de Augusto Pinochet, no Chile.

A expressão lança luz sobre uma das transformações mais perigosas do nosso tempo: a conversão da democracia em fachada para regimes autoritários guiados por uma lógica de choque neoliberal, despolitização da sociedade e perseguição sistemática a qualquer projeto alternativo de organização popular.

Repressão e ultraneoliberalismo

Em 1973, após o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende, o general Augusto Pinochet implantou no Chile uma ditadura marcada por repressão brutal, militarização da política e um choque neoliberal sem precedentes.

O país tornou-se um verdadeiro laboratório da Escola de Chicago, sob influência direta de economistas como Milton Friedman. O receituário foi simples e cruel. Privatizações em massa, desmonte dos serviços públicos, eliminação dos direitos trabalhistas e sindicais e supressão da participação política. Tudo isso sustentado por uma máquina de violência que torturou e assassinou milhares.

A experiência chilena inaugurou uma fórmula perversa. Quanto maior a radicalidade do neoliberalismo, maior a necessidade de repressão estatal para sustentá-lo.

Trump, Bolsonaro e o retorno do modelo

Castro Rocha argumenta que o projeto de Trump, especialmente durante sua campanha de reeleição e suas ações após a derrota em 2020, retoma os elementos centrais do “modelo Pinochet”. Um Estado forte para reprimir, mas fraco para proteger, uma economia entregue aos interesses do grande capital, e uma narrativa política baseada no medo e na divisão social.

No caso brasileiro, Bolsonaro não escondeu suas referências autoritárias. Seu governo foi marcado por ameaças constantes ao STF, à imprensa, à oposição e às urnas. A pandemia foi tratada como uma guerra ideológica, e as instituições democráticas foram desidratadas sob a retórica do “combate à corrupção” e da “família cristã”.

No plano econômico, tentou-se repetir a cartilha neoliberal. Teto de gastos, privatizações aceleradas, desmonte da legislação trabalhista, ataques à universidade pública e à ciência.

Mais do que coincidência, há uma estratégia transnacional de replicação desse modelo, agora reforçada pelas redes sociais, pelas fake news e pela militarização simbólica da política. Um processo que Castro Rocha chama de pinochetização do mundo.

Da ditadura à “democradura”

O termo “pinochetização” é importante porque explicita que não se trata apenas de populismo de direita ou conservadorismo radical. Trata-se de uma transformação estrutural do regime político, onde a democracia se torna apenas uma casca formal. O conteúdo, na prática, é autoritário, repressivo, desigual e violento.

Hoje, essa repressão não se faz apenas com tanques nas ruas, embora isso continue sendo uma ameaça real. Ela ocorre via instrumentos legais (lawfare), censura algorítmica, criminalização de movimentos sociais, precarização da vida como controle social. Trata-se de uma nova forma de ditadura mais digital, mais sofisticada, e igualmente destrutiva.

A “pinochetização” transforma o Estado em um instrumento de guerra contra o povo. Desmantela a Constituição, sufoca a cultura, destrói o pacto social e substitui o diálogo democrático por trincheiras ideológicas. A política é convertida em guerra cultural. A oposição vira inimiga. O pobre vira suspeito. O ativista, um terrorista.

A guerra cultural e a despolitização

Como lembra Castro Rocha em suas análises, o objetivo maior dessa estratégia é a despolitização da sociedade. A política, vista como espaço de conflito e negociação, é substituída por um campo de batalha moral. Os algoritmos amplificam o ódio. A razão pública é substituída por slogans. E as vozes dissidentes são tratadas como traidoras da pátria.

Essa é a chave para entender o que está em jogo em 2025 e 2026. A defesa da democracia não é apenas uma questão eleitoral, mas de sobrevivência civilizatória. Combater a pinochetização do mundo exige mais do que ganhar eleições. Exige mobilização cultural, organização de base, vigilância institucional e resistência intelectual.

O nome do inimigo é conhecido

Pinochet não morreu. Foi globalizado. O que antes era um experimento chileno tornou-se um plano de governo para o mundo. O nome mudou, mas o projeto é o mesmo. Esmagar a política para manter o lucro. Destruir direitos para garantir a desigualdade. E transformar a democracia em um espetáculo vazio, dominado por algoritmos e armas.

Ao nomear esse processo, João Cezar de Castro Rocha faz mais do que uma crítica. Ele nos oferece uma ferramenta de análise e resistência. Dar nome ao inimigo é o primeiro passo para enfrentá-lo.

A possível candidatura ou, a essa altura, ex-candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência da República é, na leitura de João Cezar de Castro Rocha, parte orgânica do processo de “pinochetização do Brasil”. Tarcísio representa a versão tecnocrática, polida e aparentemente moderada do mesmo projeto autoritário-neoliberal que Bolsonaro tentou implementar de forma mais explícita.

Sua imagem — até o momento em que Trump atacou o Brasil com o tarifaço de 50% — de vinculado ao mercado e apoiado pelo agro e pelos empresários, e descolado das grosserias bolsonaristas, é funcional ao avanço de uma agenda radical, mas sem os ruídos do populismo tosco. Trata-se de uma estratégia típica da nova extrema-direita. A de  substituir o militar truculento pelo tecnocrata disciplinador — um Pinochet de gravata, legitimado pelas elites econômicas e pela mídia.

Em suma, Tarcísio seria o nome ideal para consolidar a “ditadura do mercado” com aparência democrática, exatamente o que a “pinochetização do Brasil” exige. Mas o imponderável fez uma surpresa. Ao concordar com a taxação trumpista de 50% nas importações brasileiras, Tarcísio perdeu o apoio do empresariado em geral, particularmente o de  São Paulo, e da mídia corporativa que até então apoiava sua candidatura. A direita brasileira está procurando de lanterna na mão um pinochetista (pero no mucho) para chamar de seu e lançar um “novo” nome para disputar com Lula a presidência da República.

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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