10 de junho de 2026

Carnívoros entre herbívoros, por Daniel Afonso da Silva

O Brasil pode, econômica e fiscalmente, até ser derrotado na queda de braço. Mas, no plano moral, o presidente Lula já demonstrou que não.
Gage Skidmore - Flickr

Carnívoros entre herbívoros

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por Daniel Afonso da Silva

A Executive Order 14257 do presidente Donald J. Trump impõe constrangimentos políticos, econômicos, fiscais e morais ao mundo inteiro. Realizada como Regulating Imports With a Reciprocal Tariff To Rectify Trade Practices That Contribute to Large and Persistent Annual United States Goods Trade Deficits, ela começa a alterar relações substanciais dos Estados Unidos com mais de 100 países. Remodelando imediatamente interações com 69 deles. Implicando-lhes em tarifas aduaneiras adicionais entre 10 e 40%. Além de deixar incerta a relação com outros trinta ou quarenta – China à frente – que negociam bravamente por um ponto ótimo de taxação.

No destaque planetário aparecem o Brasil enredado em 50% de tarifas sobressalentes; a Suíça, 39%; o Canadá, 35%; o México, 25%, a Índia, 25%; a União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul, 15%; e o Reino Unido, 10%.

Todas sobretaxações sobre produtos selecionados. Entendidos como “desleais” e “impróprios” à positividade da balança comercial norte-americana.

Uma primeira impressão causa escárnio. Uma segunda, mais detida, estupefação. Apenas a partir da terceira vista, com algum recuo, que se começa a notar não se tratar de novidade. Bem ao contrário. Nada mais que coerência, consistência e permanência. Pois os norte-americanos sempre agiram assim. Protegendo-se. Ora com o porrete desabrido – big stick. Ora com ele envolto em sedução – soft power. Sempre mesclando um ao outro. Fazendo-os siameses. Constituintes de seu poder. Jamais totalmente rude nem totalmente brando. Power. Simplesmente poder. Síntese de seus interesses nacionais.

Vendo por esse prisma, Trump talvez nem seja o mais contundente entre os mandatários norte-americanos. Pois a ideia de America First e a convicção de Era de Ouro participam da história dos Estados Unidos desde o seu nascedouro. Afirmadas por todos os influentes do país desde meados século XVIII. Antes mesmo da Independência. Quando os founding fathers ainda meditavam sobre os melhores caminhos para a emergência de seu destino manifesto.

Após 1776, nenhum presidente norte-americano relevante deixou de reabilitar esses desejos. Sobretudo em momentos de crise. Notadamente em horas de precisão.

Às vezes com jeito. Caso de Washington e Lincoln.

Às vezes com timidez. Típica do presidente Wilson.

Às vezes com determinação. Marca de Roosevelt.

Mas sempre com empenho. Muita vez, fazendo doer. Independentemente de a quem. Como nos casos de Bush e Obama.

O primeiro invadiu o Iraque. Desmoralizou a interdição do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Deslegitimou todo o direito internacional. Desautorizou instituições multilaterais. Desorganizou toda a realidade econômica e política do Oriente Médio. Saiu do mundo. Permitindo a ascensão de divergentes em todas as partes. Só para lembrar “quem manda”. Para el bien del imperio.

O outro, Barack H. Obama, segue imortalizado como o maior promotor de guerras norte-americanas desde tempos imemoriais. Fazendo de sua presidência a Obama’s war period. Malgrado o seu dístico “para o bem de nossa família”. “Our family”. “Nosso tudo”. Sempre entoado no seu vocabulário como meio de justificação sorridente da agressividade cotidiana dos Estados Unidos ao encontro de seus diferentes.

A dessemelhança de Trump e seus homólogos reside em, pelo menos, três razões.

Primeira: o excesso de informações e imagens sobre a atuação da classe política. Segunda: o misto de emoções. Terceira: o primado da transparência praticado por Trump. O que leva Trump, diferente dos outros, a não reconhecer zonas cinzas. Operando simplesmente nos gradientes preto e branco. Sem mediações. A ferro e fogo. Sem sorrisos nem tergiversações. Tudo pela Era de Ouro e pelo America First. Como sempre foi.

De modo que a Executive Order 14257, em fins de julho, elevou a sua popularidade. Da mesma sorte que quando Úrsula von der Leyen foi obrigada àquela mise-en-scène na Escócia, o regozijo entre os norte-americanos foi às alturas.

Em níveis mais diretos, os 35% de sobretaxa aos canadenses respondeu a relações conturbadas entre Washington e Ottawa. No caso dos 25% ao México, entre Washington e Ciudad de Mexico.

Ottawa e Ciudad de Mexico, infelizmente, sempre vivem lejos de Dios y cerca dos Estados Unidos.

Índia, por seu turno, começa a pagar o preço de sua aliança – discreta, mas determinada – com a Rússia ao fazer-se repositório do petróleo eslavo inviabilizado nos mercados europeus após 2022.

Reino Unido ficou com 10% somente pela aliança meta-histórica entre os dois países. Mesmo assim, 10% continuam 10%.

Os 50% de sobretaxa ao Brasil residem mais no temperamento dos dois presidentes que em qualquer outra dispersão. Pois não parece verossímil que Trump esteja “punindo” o Brasil em resposta ao “dossiê Bolsonaro”. Também carece de consistência compreender sua ação como reação à participação brasileira nos BRICS. É certo que ninguém sério em Washington vê com bons olhos a “tentação meridionalista” brasileira. Mas, por evidente, não é pra tanto.

Trump e Lula, ao fim das contas, agem como carnívoros num mundo de herbívoros. Eles dois atuam pelo rapport de force. Sem meias palavras. Mas cada qual com as forças e meios de manobra que possuem. O Brasil pode, econômica e fiscalmente, até ser derrotado na queda de braço. Mas, no plano moral, o presidente Lula já demonstrou que não.

Um nem outro possuem receios em chocar a opinião pública. Também não se preocupam com a crítica. Lá e cá, os dois seguem princípios esquecidos ou fora de moda entre os herbívoros. Ambos avocam à dignidade de seu país e de seu povo acima de tudo.

Trump está determinado a reabilitar o moral de milhões de norte-americanos derrotados pela globalização e humilhados pelas externalidades negativas da crise financeira de 2008. Lula segue disposto a lembrar ao mundo inteiro que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Ambos têm razão.

Ambos defendem-se com fibra.

Ambos lutam com as armas que dispõe.

Como condená-los?

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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  1. Rui Ribeiro

    5 de agosto de 2025 10:48 am

    O déficit da balança comercial americana não deriva do protecionismo das demais nações, mas do fato de que os EUA são sanguessugas, ou seja, eles consomem mais do que produzem. Assim, é impossível a balança comercial estadunidense não ser deficitária.

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