
Carnívoros entre herbívoros
por Daniel Afonso da Silva
A Executive Order 14257 do presidente Donald J. Trump impõe constrangimentos políticos, econômicos, fiscais e morais ao mundo inteiro. Realizada como Regulating Imports With a Reciprocal Tariff To Rectify Trade Practices That Contribute to Large and Persistent Annual United States Goods Trade Deficits, ela começa a alterar relações substanciais dos Estados Unidos com mais de 100 países. Remodelando imediatamente interações com 69 deles. Implicando-lhes em tarifas aduaneiras adicionais entre 10 e 40%. Além de deixar incerta a relação com outros trinta ou quarenta – China à frente – que negociam bravamente por um ponto ótimo de taxação.
No destaque planetário aparecem o Brasil enredado em 50% de tarifas sobressalentes; a Suíça, 39%; o Canadá, 35%; o México, 25%, a Índia, 25%; a União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul, 15%; e o Reino Unido, 10%.
Todas sobretaxações sobre produtos selecionados. Entendidos como “desleais” e “impróprios” à positividade da balança comercial norte-americana.
Uma primeira impressão causa escárnio. Uma segunda, mais detida, estupefação. Apenas a partir da terceira vista, com algum recuo, que se começa a notar não se tratar de novidade. Bem ao contrário. Nada mais que coerência, consistência e permanência. Pois os norte-americanos sempre agiram assim. Protegendo-se. Ora com o porrete desabrido – big stick. Ora com ele envolto em sedução – soft power. Sempre mesclando um ao outro. Fazendo-os siameses. Constituintes de seu poder. Jamais totalmente rude nem totalmente brando. Power. Simplesmente poder. Síntese de seus interesses nacionais.
Vendo por esse prisma, Trump talvez nem seja o mais contundente entre os mandatários norte-americanos. Pois a ideia de America First e a convicção de Era de Ouro participam da história dos Estados Unidos desde o seu nascedouro. Afirmadas por todos os influentes do país desde meados século XVIII. Antes mesmo da Independência. Quando os founding fathers ainda meditavam sobre os melhores caminhos para a emergência de seu destino manifesto.
Após 1776, nenhum presidente norte-americano relevante deixou de reabilitar esses desejos. Sobretudo em momentos de crise. Notadamente em horas de precisão.
Às vezes com jeito. Caso de Washington e Lincoln.
Às vezes com timidez. Típica do presidente Wilson.
Às vezes com determinação. Marca de Roosevelt.
Mas sempre com empenho. Muita vez, fazendo doer. Independentemente de a quem. Como nos casos de Bush e Obama.
O primeiro invadiu o Iraque. Desmoralizou a interdição do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Deslegitimou todo o direito internacional. Desautorizou instituições multilaterais. Desorganizou toda a realidade econômica e política do Oriente Médio. Saiu do mundo. Permitindo a ascensão de divergentes em todas as partes. Só para lembrar “quem manda”. Para el bien del imperio.
O outro, Barack H. Obama, segue imortalizado como o maior promotor de guerras norte-americanas desde tempos imemoriais. Fazendo de sua presidência a Obama’s war period. Malgrado o seu dístico “para o bem de nossa família”. “Our family”. “Nosso tudo”. Sempre entoado no seu vocabulário como meio de justificação sorridente da agressividade cotidiana dos Estados Unidos ao encontro de seus diferentes.
A dessemelhança de Trump e seus homólogos reside em, pelo menos, três razões.
Primeira: o excesso de informações e imagens sobre a atuação da classe política. Segunda: o misto de emoções. Terceira: o primado da transparência praticado por Trump. O que leva Trump, diferente dos outros, a não reconhecer zonas cinzas. Operando simplesmente nos gradientes preto e branco. Sem mediações. A ferro e fogo. Sem sorrisos nem tergiversações. Tudo pela Era de Ouro e pelo America First. Como sempre foi.
De modo que a Executive Order 14257, em fins de julho, elevou a sua popularidade. Da mesma sorte que quando Úrsula von der Leyen foi obrigada àquela mise-en-scène na Escócia, o regozijo entre os norte-americanos foi às alturas.
Em níveis mais diretos, os 35% de sobretaxa aos canadenses respondeu a relações conturbadas entre Washington e Ottawa. No caso dos 25% ao México, entre Washington e Ciudad de Mexico.
Ottawa e Ciudad de Mexico, infelizmente, sempre vivem lejos de Dios y cerca dos Estados Unidos.
Índia, por seu turno, começa a pagar o preço de sua aliança – discreta, mas determinada – com a Rússia ao fazer-se repositório do petróleo eslavo inviabilizado nos mercados europeus após 2022.
Reino Unido ficou com 10% somente pela aliança meta-histórica entre os dois países. Mesmo assim, 10% continuam 10%.
Os 50% de sobretaxa ao Brasil residem mais no temperamento dos dois presidentes que em qualquer outra dispersão. Pois não parece verossímil que Trump esteja “punindo” o Brasil em resposta ao “dossiê Bolsonaro”. Também carece de consistência compreender sua ação como reação à participação brasileira nos BRICS. É certo que ninguém sério em Washington vê com bons olhos a “tentação meridionalista” brasileira. Mas, por evidente, não é pra tanto.
Trump e Lula, ao fim das contas, agem como carnívoros num mundo de herbívoros. Eles dois atuam pelo rapport de force. Sem meias palavras. Mas cada qual com as forças e meios de manobra que possuem. O Brasil pode, econômica e fiscalmente, até ser derrotado na queda de braço. Mas, no plano moral, o presidente Lula já demonstrou que não.
Um nem outro possuem receios em chocar a opinião pública. Também não se preocupam com a crítica. Lá e cá, os dois seguem princípios esquecidos ou fora de moda entre os herbívoros. Ambos avocam à dignidade de seu país e de seu povo acima de tudo.
Trump está determinado a reabilitar o moral de milhões de norte-americanos derrotados pela globalização e humilhados pelas externalidades negativas da crise financeira de 2008. Lula segue disposto a lembrar ao mundo inteiro que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Ambos têm razão.
Ambos defendem-se com fibra.
Ambos lutam com as armas que dispõe.
Como condená-los?
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.
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Rui Ribeiro
5 de agosto de 2025 10:48 amO déficit da balança comercial americana não deriva do protecionismo das demais nações, mas do fato de que os EUA são sanguessugas, ou seja, eles consomem mais do que produzem. Assim, é impossível a balança comercial estadunidense não ser deficitária.