
‘Bette Davis’ não é apenas uma peça, por Alexandre Coslei
Através das redes sociais, tive o imenso privilégio de iniciar contato com a atriz Nina de Pádua e com o ator e diretor Anselmo Vasconcellos. Nina é de uma grandeza e de uma generosidade impossíveis de dimensionar. É gigante. Sempre acreditei que a verdadeira vocação do ator reside justamente nisso: na generosidade, na empatia, na capacidade de enxergar o outro. Sem essas qualidades, o intérprete se limita a ser um impostor esnobe. Sem essa entrega ao outro, ninguém é capaz de ser um ator virtuoso, alguém que verdadeiramente recria realidades paralelas.
Lembro-me bem do dia em que pude enviar dois dos meus livros a Nina. Imediatamente, ela os divulgou em sua página. E eu me emocionei — porque se trata de um gesto raro, ainda mais vindo de alguém que tem a possibilidade real de colaborar com outro artista que tenta se fazer visível. É um gesto que poucos cometem — só os que têm coragem de partilhar sua própria grandeza. De fã, tornei-me seguidor fiel.
Quem for ao Espaço Provocações, na Barra da Tijuca, esperando glamour ou nostalgia de diva hollywoodiana, pode se preparar: Bette Davis – Manual de Sobrevivência não oferece espelhos lustrados, mas estilhaços cortantes. E sobre eles caminha Nina de Pádua — colossal, mordaz, dilacerante — como se fosse ela mesma a última trincheira da dignidade feminina em ruínas.
A dramaturgia é de Jau Sant’Angelo, mas quem dita o ritmo é a presença irrefreável da atriz, que transforma o monólogo em uma espécie de autofagia sagrada. Nina não interpreta: ela rasga. E o que emerge dali não é apenas Bette Davis, mas o retrato cru de todas as mulheres que ousaram ser mais do que decorativas.
Sob a concepção e direção do lendário Anselmo Vasconcellos, o espetáculo assume o tom de uma confissão noturna, um diário escrito com fúria, onde vaidade, fracasso e resistência são os temperos de um mesmo prato. O figurino de Wanderley Gomes é o último artifício de uma deusa que se recusa a cair de joelhos.
A luz — ainda que não mencionada diretamente na peça — cumpre o papel exato de uma navalha: não embeleza, fere. Ilumina o que resta da estrela caída. E o que sobra ali, em carne viva, é puro teatro.
Essa Davis que Nina nos oferece não cabe no imaginário pop. Ela é velha, sarcástica, ferida, lúcida demais para o nosso tempo de amenidades. Mas também é universal. Porque toda mulher interessante carrega em si algo de trágico.
Bette Davis – Manual de Sobrevivência não é apenas uma peça — é um exorcismo. E Nina de Pádua é sua sacerdotisa. Quem perder, jamais saberá o que perdeu. Arrisque-se a assistir.
📍 Local: Espaço Provocações – Av. Armando Lombardi, 350 – 3º piso – Barra da Tijuca – RJ
🗓 Datas: 02, 16, 23 e 30 de agosto (sábados), às 20h
🎟 Ingressos à venda no Sympla
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