5 de junho de 2026

O olhar para trás, por Felipe Bueno

O ato de votar vem carregado do que aquela pessoa aprendeu (ou não), de suas vivências, carências, necessidades, formação.
Reprodução

O olhar para trás

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por Felipe Bueno

Nascemos e crescemos com a ideia imperturbável de que a democracia foi a conquista máxima da sociedade em forma de nação, ou seja, um organismo político individual que representa as vontades do coletivo. O oxigênio que garante a sobrevivência de cada um desses organismos é o direito ao voto.

Escrevo direito ao voto, e não simplesmente voto, porque houve ao longo da breve história da democracia sucessivas conquistas que permitiram transformar a potência em ato. Para ser um indivíduo com direitos, cada corpo vivo precisou primeiro de plena cidadania. E sabemos que foi demorado e cheio de obstáculos o caminho que trouxe a, pelo menos nominalmente, um estado de acesso universal ao voto.

Reconhecemos que esse direito universal está longe de ser efetivo na prática, considerando as diferenças entre cada nação que possa se encaixar nesse conceito. Mas façamos um exercício teórico. Imagine-se numa sala de aula resolvendo os velhos problemas de física propostos em sistemas fechados, sem atrito e isentos de interferências e erros.

Três parágrafos depois, temos aqui o momento do choque: o voto, no limite, é a única ferramenta legítima que pode destruir a própria democracia de dentro para fora. E evitar que isso aconteça demanda olhar para trás, para bem antes do dia específico de qualquer eleição.

Quais são os insights, quais são as ideias preconcebidas que cada ser humano traz para o momento de votar? Em que está pensando enquanto espera que a fila à sua frente se desfaça e chegue a sua vez? Quais são os catalisadores que agem quando ele está pronto (pronto?) para preencher a cédula ou apertar cinco ou seis botões?

A resposta deve ser procurada muito além e muito antes do que aqui no Brasil, por exemplo, se conhece como período eleitoral, tradicional temporada de avalanches de mentiras e acusações cada vez mais ultraprocessadas pelas redes sociais.

Por mais rápido que seja o ato de votar, ele vem carregado do que aquela pessoa aprendeu (ou não), de suas vivências, suas carências, suas necessidades, sua formação. Em resumo, de suas perguntas até o momento sem respostas satisfatórias.

Ou, pior, com respostas, mas não as corretas.

Entender isso é olhar para trás, de modo aristotélico, por que não, para tentar reparar o erro de programação que permite que a estrutura democrática gere a própria morte.

Exercer a cidadania é um direito adquirido, mas não seria também uma obrigação cuidar desse mesmo direito para que possa continuar existindo?

Voltando ao parágrafo inicial, vivemos na falsa segurança de uma mentira ou, no mínimo, uma sensação sustentada por bases muito frágeis: temos como cláusula pétrea de nossa existência algo que, no livro da humanidade, tem ocupado ainda poucas páginas. A brevidade histórica da democracia deve ser lida como um sinal do risco de que, a cada momento, sua morte possa estar se aproximando. Há aqui um paradoxo, fazendo eco à provocação de Francis Fukuyama mais de trinta anos atrás: se a evolução política se encerrou, e a democracia é a expressão mais próxima que temos da perfeição, será preciso dar um upgrade em seus operadores de alguma forma; se isso é mentira e a evolução continua, o que virá depois?

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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