
O genocídio em Gaza e o poder das palavras
por Luciano Fazio
Desde o final de 2023, as ações militares israelenses em Gaza atingiram sistematicamente civis palestinos, suas casas e as infraestruturas essenciais para a sobrevivência: água, alimentos, medicamentos e energia. Já não se trata de “danos colaterais” decorrentes de ataques a alvos militares: a própria população civil se tornou o alvo deliberado.
Nesse contexto a palavra “genocídio” se impõe: um termo pesado, que expressa a vontade de aniquilar um grupo humano enquanto tal. Desde o início desta guerra, as vítimas civis palestinas já superaram as 60 mil pessoas.
Ainda assim, em Israel, o governo e sua maioria parlamentar limitam a liberdade de expressão, proibindo a expressão “genocídio” para descrever as próprias ações em Gaza. Nesses dias, um deputado israelense foi retirado à força da tribuna do Parlamento por ter ousado qualificar dessa forma as operações do exército. E no exterior, diversas personalidades do mundo judaico tentam censurar o termo.
Mas o que significa, hoje, impedir de nomear o que está acontecendo?
UM CONCEITO JURÍDICO, NÃO APENAS POLÍTICO
O termo “genocídio” não é uma hipérbole retórica. É um conceito jurídico definido pela Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948: designa a intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Reconhecer oficialmente um ato como genocídio não é, portanto, apenas uma questão de linguagem, mas de direito internacional: traz sérias consequências políticas e penais para o Estado acusado e para os indivíduos envolvidos.
Em 29/12/2023, a África do Sul denunciou Israel à Corte Internacional de Justiça (CIJ) por violar a Convenção sobre o Genocídio. Em 26/01/2024, a Corte julgou as acusações “plausíveis” e determinou medidas provisórias: proibir ações genocidas, garantir a entrada de ajuda humanitária e permitir investigações independentes. Israel, porém, não as cumpre.
O Tribunal Penal Internacional (TPI) — responsável por julgar indivíduos — em 21/11/2024 emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro e o ex-ministro da Defesa de Israel, por ter usado a fome como arma de guerra e cometido vários crimes contra a humanidade.
O debate, portanto, já não é um simples confronto de opiniões: está nas mãos das mais altas instituições jurídicas do mundo.
A LINGUAGEM E A MEMÓRIA DO HOLOCAUSTO
No plano político, a linguagem torna-se um instrumento de poder. Proibir o uso do termo “genocídio” visa impedir que se consolide, na opinião pública, a percepção de que Israel esteja cometendo crimes muito mais graves do que meras operações militares ou de autodefesa.
Surge então um elemento particularmente delicado: a memória do Holocausto. Um trauma histórico real e imenso é evocado e, em parte, “monopolizado” para legitimar políticas atuais. As atrocidades sofridas pelos judeus durante a 2ª Guerra Mundial continuam a ser usadas como escudo moral, até para justificar ações de perseguição ou aniquilamento de outros povos.
AS PALAVRAS MUDAM AS PERCEPÇÕES
A psicologia cognitiva nos ensina que as palavras têm um enorme poder na formação das percepções. Nossos pensamentos e a consciência das emoções se estruturam por meio delas, mesmo quando não são pronunciadas em voz alta. Termos fortemente carregados de significado, como “genocídio”, ativam esquemas mentais e emocionais poderosos. Proibi-los significa neutralizar essas reações. O próprio uso de eufemismos, como “operações militares”, já reduz o impacto emocional e favorece uma racionalização moral: aquilo que antes parecia inaceitável torna-se, gradualmente, “tolerável”, legitimando a escalada da violência contra os civis palestinos.
O SILENCIAMENTO FERE AS VÍTIMAS
No plano ético e dos direitos humanos, impedir que se nomeie um genocídio equivale a negar ou minimizar a dor das vítimas palestinas e a desacreditar as denúncias vindas da ONU, ONGs e testemunhas diretas. Esse silenciamento visa ocultar abusos e violações graves e destrói a confiança em quem o promove.
As palavras não são neutras: podem revelar os fatos ou escondê-los; podem defender os direitos humanos ou negá-los. Reivindicar o uso do termo “genocídio” não é um ataque à existência do Estado de Israel: é um apelo urgente para deter um massacre que acontece diante dos olhos do mundo.
Luciano Fazio – Matemático pela Università degli Studi de Milão (Itália) e pós-graduado em Previdência pela FGV.
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