
O destino de Bolsonaro está fora do alcance dos EUA
por André Luiz de Carvalho Matheus
Tirando uma improvável — e politicamente desastrosa — invasão militar, os Estados Unidos não têm meios reais de impedir o desfecho judicial de Jair Bolsonaro no Brasil. A era da tutela explícita já passou, e o mundo multipolar impõe limites claros à interferência de uma potência estrangeira sobre o curso institucional de outro país soberano, especialmente quando esse país possui um Judiciário que, com todas as suas contradições, está disposto a enfrentar crimes contra a ordem democrática.
No campo econômico, a situação também não oferece espaço para pressões eficazes. As empresas americanas têm interesses sólidos no Brasil, desde o agronegócio até o setor financeiro e de tecnologia. Qualquer retaliação econômica mais agressiva seria um tiro no pé, criando instabilidade em um dos maiores mercados do hemisfério sul e afetando diretamente os lucros de multinacionais sediadas nos próprios Estados Unidos. O capital, nesse caso, funciona como freio à aventura geopolítica.

Já as sanções simbólicas impostas a ministros da Suprema Corte, como Alexandre de Moraes, são demonstrações de força para consumo interno da extrema direita internacional — mas não produzem qualquer efeito concreto na atuação jurisdicional dos alvos. Nenhum ministro brasileiro precisa de visto americano para exercer suas funções. Nenhuma decisão judicial dependerá do aval de Washington. Pelo contrário, quanto mais os ataques se intensificam, mais se consolida a percepção de que há uma tentativa explícita de constranger o Judiciário brasileiro e proteger um aliado que atentou contra as instituições democráticas.
A verdade incômoda para Trump e seus seguidores é que o destino de Bolsonaro será decidido dentro do Brasil, por instituições brasileiras, com base em leis brasileiras. E isso escancara o esvaziamento da capacidade imperial de ditar os rumos da política em países que, apesar das pressões, ainda preservam o mínimo de soberania institucional. A história agora corre em outro ritmo — e, nesse caso, os Estados Unidos estão assistindo da arquibancada.
André Luiz de Carvalho Matheus, vice-presidente da Comissão Especial de Estudos e Combate ao Lawfare da OAB/RJ, doutorando em direito (PUC-RIO), mestre em Teoria e Filosofia do Direito (UERJ), advogado com atuação em liberdade de expressão, litígio estratégico e direito penal.
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