28 de junho de 2026

De Meias-Verdades e Pares Desfeitos, por Rogério Faria

Quando um par de meias some, eu nem dou por ele. Nem sequer me lembro. Um pé, não. Qual o propósito de um pé de meia solitário?
Goya

De Meias-Verdades e Pares Desfeitos

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por Rogério Faria

Ponho a roupa suja para lavar, recolho a seca para guardar, e aquele pé de meia segue solitário no varal de roupas íntimas. Não que ele tenha qualquer intimidade ali. Está exposto a cuecas e calcinhas e, pior, a outros pares que vêm e vão, com seus olhares condescendentes. E segue cinza como uma fria manhã de inverno. Não me lembro desde quando, mas há tempo o suficiente para eu perder a esperança de que sua versão esquerda surja no próximo cesto de roupa suja.

Não sei se ele mesmo tem alguma expectativa. Ou se já desistiu de ficar roto, com um furo no dedão, ao lado de sua cara-metade, já abrindo no calcanhar.

Eu sorrio. Um sorriso sem graça. Meu olhar tenta dizer: “Talvez na próxima”. Mas não sei se meias-verdades o preenchem.

Quando um par de meias some, provavelmente eu nem dou por ele. Nem sequer me lembro de que já o tive. Mas um par que some, duas peças, uma na companhia da outra, pode estar aquecendo os pés de outra pessoa. Ou perdido no fundo do armário, mas não está sozinho.

Um pé, não. Qual o propósito de um pé de meia solitário?

Talvez ele tivesse mais sorte nas mãos da minha avó. Poderia virar um paninho de tirar pó, uma peça de artesanato, um fantoche. Eram outros tempos, em que uma roupa era, sim, mais valorizada, mais respeitada.

Hoje, acho que ele não serve nem para a reciclagem.

Qualquer hora terei que encarar a realidade e tirá-lo de lá.

E se eu o jogar novamente na gaveta de meias? Ele terá companhia. Outros solitários devem estar lá dentro, junto a pares com mais furos que um queijo suíço (e cheirando a queijo também?). Talvez, atrasado para um compromisso, ainda no escuro da madrugada, um dia eu o vista com o pé de outro par. Só talvez.

Ele ficará lá até o dia em que minha esposa me obrigar a limpar a gaveta de meias. Aquela tirana sem coração. E então, espero que o caminhão de lixo o leve para o além, tal qual o barqueiro Caronte a transportar as almas para o mundo dos mortos na mitologia grega. Um paraíso à meia-luz, um céu de meia-tigela, de meias-verdades.

— Hora de ir.
— Eu fui um bom pé de meia?
— Não. Você foi o melhor.

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