4 de junho de 2026

Identitarismo e universidade pública: uma reflexão necessária, por Francisco Ladeira

Quem ousa questionar seus dogmas ou recusa adotar sua “novilíngua” politicamente correta é imediatamente cancelado. Sem direito a defesa.
Reprodução

Identitarismo e universidade pública: uma reflexão necessária

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Francisco Fernandes Ladeira

Entre 2021 e 2024, cursei o doutorado em Geografia na Unicamp. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a marcante diversidade do ambiente acadêmico. Realidade particularmente significativa quando consideramos se tratar da segunda melhor universidade do país. Em décadas passadas, dificilmente se veria a presença de setores historicamente excluídos em um espaço tão valorizado, sobretudo pela classe média, de onde emana seu principal ativo: o capital simbólico. Esse cenário é fruto direto das políticas de ações afirmativas.

Embora a educação, per se, não seja capaz de promover as profundas transformações sociais de que precisamos, a presença de negros, indígenas e outras minorias poderia representar o germe de um amplo processo de conscientização coletiva. A lógica é clara: ao acessarem o conhecimento universitário – que desvela os mecanismos de perpetuação das desigualdades –, esses jovens tornam-se potenciais agentes de mudança em seus círculos sociais. Contudo, esse potencial está sendo desperdiçado. Muitos foram cooptados pelo identitarismo, ideologia difundida pelo imperialismo estadunidense que, sob o pretexto de defender minorias, visa fragmentar a classe trabalhadora e corroer a esquerda por dentro.

Num primeiro momento, o identitarismo mostra-se sedutor, especialmente para os politicamente inexperientes. Afinal, a esquerda sempre se colocou ao lado dos oprimidos (e o identitarismo aparenta fazer o mesmo). Somam-se a isso as idealizações românticas: os chamados “povos originários”, supostamente defendidos pelos identitários, são retratados como sociedades edênicas, imunes aos vícios e contradições do mundo moderno. Um contraponto tentador para mentes contestadoras.

No entanto, o centro da questão reside no fato de que o identitarismo, enquanto ideologia imperialista, não emancipa – oprime. Para seus adeptos, a mera inclusão simbólica de indivíduos minoritários em posições de poder basta. Isso reforça a ilusão de que o capitalismo permite mobilidade social plena, desde que haja esforço individual. A velha e nociva narrativa meritocrática. Assim, o sucesso pontual de alguns serve para encobrir a marginalização de muitos. Já a suposta defesa dos povos originários converteu-se no álibi perfeito para a exploração de recursos naturais em países periféricos. Basta observar as inúmeras ONGs na Amazônia que, em nome da proteção indígena e ambiental, facilitam a espoliação do território.

O identitarismo também se manifesta na academia através de temáticas de pesquisa. O marxismo tornou-se démodé; a nova onda é o “decolonial” – jargão acadêmico que, ao focalizar opressões de muitos séculos atrás, obscurece a atuação contemporânea do imperialismo estadunidense. É o equivalente intelectual à derrubada de estátuas: gesto vazio, desprovido de projetos transformadores reais.

Nas universidades, o identitarismo também opera como patrulha ideológica. Quem ousa questionar seus dogmas ou recusa adotar sua “novilíngua” politicamente correta é imediatamente cancelado. Sem direito a defesa. Seus alvos preferenciais são abstrações como “branquitude”, “heteronormatividade” e “patriarcado”. Nunca o capitalismo. Enquanto o burguês é aliado (desde que faça gestos demagógicos às minorias), o trabalhador comum, visto como “preconceituoso estrutural”, é inimigo. Eis como age o soft power imperialista: no momento em que as minorias conquistam acesso às universidades, o identitarismo é acionado para neutralizar seu potencial revolucionário, impedindo a formação de uma consciência crítica genuína.

***

Francisco Fernandes Ladeira é professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados