5 de junho de 2026

Uma guerra imperial na Venezuela?, por Fernando Marcelino

O governo Trump está colocando em movimento uma geopolítica do petróleo muito mais perigosa na América Latina.

Uma guerra imperial na Venezuela?

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por Fernando Marcelino

Como assinalamos no artigo “Trump e Nova Doutrina Monroe” (23/04/2025), o atual governo dos Estados Unidos tem como prioridade máxima a “reconquista da América Latina”, especialmente pelo controle de recursos energéticos e minerais estratégicos. O governo Trump representa uma mudança de postura dos Estados Unidos, pois está disposto a ir além das sanções econômicas para conter regimes considerados ameaças à estabilidade continental. Existe uma escalada que indica um alcance estratégico maior, representando uma mensagem clara a regimes que desafiam os interesses norte-americanos na América Latina.

O governo Trump está colocando em movimento uma geopolítica do petróleo muito mais perigosa na América Latina. Como apontou Edward Hunt, o governo Trump está organizando uma rede de estados produtores de energia no Caribe para fornecer à região um suprimento constante de combustíveis fósseis. Na esperança de deixar de lado a Venezuela, o país rico em petróleo que antes o fornecia de forma acessível ao Caribe, o governo Trump está trabalhando para posicionar outros países ricos em petróleo como os principais fornecedores de energia da região. Autoridades do governo estão particularmente focadas na Guiana e no Suriname, dois países ricos em petróleo que eles esperam que os líderes regionais adotem como alternativas à Venezuela. O fato de seus próprios países, Guiana e Suriname, agora serem capazes de superar a Venezuela na produção de petróleo e trabalhar com seus vizinhos na região é uma grande oportunidade para Trump.

Na esperança de marginalizar permanentemente a Venezuela e excluí-la completamente do Caribe, começou a criar uma rede de países produtores de petróleo que fornecerão petróleo para a região sob ordens dos EUA. O governo Trump tomou várias medidas em direção aos seus objetivos. Em 24 de março, o presidente Trump emitiu uma ordem executiva  ameaçando  impor uma tarifa de 25% a qualquer país que importasse petróleo da Venezuela. A ordem de Trump colocou forte pressão sobre os líderes caribenhos que esperavam  reativar  a Petrocaribe. Em segundo lugar, o governo Trump organizou visitas diplomáticas dos EUA aos países caribenhos. No final de março, o secretário de Estado Marco Rubio viajou para a Guiana e o Suriname, onde elogiou seus líderes por abraçarem a produção de petróleo e os encorajou a trabalhar juntos em uma nova rede sob a liderança dos EUA. Essa abordagem pode ser exemplificada com Trump buscando assegurar os interesses da ExxonMobil na Guiana. Marco Rubio deixou claro que os Estados Unidos vão intervir militarmente para proteger a exploração de petróleo da companhia estadunidense, caso ela seja ameaçada – em especial, pela Venezuela. Trump respondeu agressivamente às reivindicações territoriais da Venezuela, sinalizando que os militares dos EUA intervirão se a Venezuela tentar tomar qualquer parte do território da Guiana. Autoridades do governo estão buscando criar um acordo de segurança com a Guiana que forneceria ao país o mesmo tipo de proteção militar que os Estados Unidos estendem aos seus parceiros ricos em energia no Oriente Médio.

Algumas semanas atrás, Trump dobrou uma recompensa para US$ 50 milhões por informações que levaram à prisão de Maduro. Marco Rubio afirmou que os EUA enviaram forças militares para combater cartéis de drogas, especificamente, o “Cartel de los Soles”, que foi designado como uma “organização terrorista estrangeira”. Rubio também afirmou que os EUA não reconhecem o governo Maduro da Venezuela e o rotularam como uma “empresa criminosa”. Nesta semana, o governo Trump prometeu usar “toda força” contra Maduro. A ordem é destituí-lo a qualquer preço. Na missão, três navios chegariam à costa venezuelana em 36 horas, no domingo, como parte de uma missão que deve durar meses. O Comando Sul, responsável pelas operações no continente, deslocou porta-aviões, submarinos nucleares, aeronaves de patrulha de longo alcance como o P-8 Poseidon, drones e caças de combate para bases em Porto Rico, Panamá, Colômbia, Bahamas e Antilhas, além de 4.500 marinheiros e fuzileiros navais.

Os navios de guerra — USS Sampson, USS Jason Dunham e USS Gravely — contratorpedeiros da classe Arleigh Burke, a espinha dorsal da frota de superfície da Marinha, fazem parte da missão. No coração de cada contratorpedeiro está o sistema de combate Aegis, uma combinação de radar, poder de computação e tecnologia de mísseis que permite a detecção e o combate em tempo real de múltiplas ameaças. O arsenal do navio tem um sistema de lançamento vertical de 96 mísseis que pode ser carregado com uma mistura diversificada de armas, incluindo os mísseis de cruzeiro Tomahawk para ataques terrestres de longo alcance, mísseis padrão para defesa aérea e antimísseis, e mísseis ASROC (foguetes antissubmarinos) para guerra submarina. Os helicópteros MH-60R Seahawk embarcados são equipados com sonar, torpedos e sensores avançados que estendem as capacidades antissubmarino do navio muito além do horizonte. O avião P-8 Poseidon desempenha papel central no monitoramento de áreas estratégicas, com sensores avançados, autonomia prolongada e capacidade de lançar torpedos, mísseis e cargas de profundidade. Um submarino de ataque, cuja classe e nome exatos não foram divulgados, também vai operar na área, adicionando opções de ataque furtivo e de longo alcance à força-tarefa. 

A presença de uma frota naval massiva tem vários propósitos, como intimidação psicológica para forçar uma rendição ou um golpe interno, o estabelecimento de uma Zona de Exclusão Aérea para neutralizar a Força Aérea Venezuelana (FAB), lançamento de ataques aéreos e de mísseis de precisão contra comando e controle, defesas aéreas, quartéis e infraestrutura crítica e bloqueio naval para impedir o fluxo de armas e o fluxo de petróleo venezuelano, estrangulando economicamente o regime. A simples notícia da mobilização militar já provocou efeitos financeiros, reduzindo recursos disponíveis ao governo chavista. O receio não é apenas de uma intervenção direta, mas também um bloqueio prolongado que poderia colapsar a economia.

O objetivo exato dos contratorpedeiros de Trump, que devem chegar à costa venezuelana já no domingo, permanece incerto. Um cenário possível é de intervenção limitada e rápida. Trump parece estar preparando uma “expedição de punitiva”, como em Granada em 1983 e no Panamá em 1989, só que com ataques de precisão em estruturas militares e lideranças do governo. É o que os EUA são especialistas e operam em conjunto com forças militares privadas. Primeiro com uma barreira de contenção naval, para forçar o desabastecimento e inflação. Depois com ataques cirúrgicos nas principais bases militares e estoque de armamentos, decretando de exclusão aérea sobre o país. Bombardeios de precisão e operações especiais matam a liderança do regime, destroem defesas aéreas e instalam rapidamente um governo de transição pró-EUA. Os radares poderiam ser destruídos por mísseis anti-radar. Centros de comando podem ser neutralizados com mísseis de cruzeiro, prejudicando qualquer resposta coordenada. As comunicações podem ser suprimidas. Estruturas energéticas vitais podem ser atacadas.

Na segunda (18), Maduro afirmou mobilizar 4,5 milhões de milicianos armados em todo o país em resposta às “ameaças bizarras” dos EUA – “Defendemos nossos mares, nossos céus e nossas terras. Nenhum império tocará a Venezuela. Nossas fábricas e locais de trabalho serão armados. Mísseis e fuzis serão colocados nas mãos do povo”, disse em rede de televisão. Para uma guerra assimétrica, Caracas tem à disposição mísseis antinavio que podem dar trabalho às defesas dos Arleigh Burke, apenas 2 fragatas, 2 corvetas, sistemas russos costeiros Bal, com mísseis Kh-35 de 120 km de alcance e alguns barcos de patrulha com os Peyakaap-2 iranianos, que podem operar mísseis. O que poderia ter um efeito é a geração nova de mísseis iranianos de desenho chinês comprados a partir de 2020, como o moderno CM-90, com 90 km de alcance, e o C-802A, com 180 km e capacidades de manobra em voo, podendo ser importantes na assimetria que mísseis antinavio e balísticos podem dar.

A frota naval, por mais poderosa que seja, não resolve o desafio fundamental: a ocupação territorial. Pode-se montar uma base militar na Guiana, mas seriam necessários desembarques anfíbios de fuzileiros navais para tomar pontos-chave e estabelecer uma cabeça-de-praia para a entrada de mais tropas. Seria preciso uma campanha aérea massiva seguida de invasão terrestre para tomar Caracas e centros vitais. O verdadeiro desafio começaria com uma guerra de guerrilha, forçando os EUA a uma ocupação prolongada, enfrentando uma insurgência persistente. Isso levaria a combates urbanos casa-a-casa em cidades venezuelanas, com altíssimas baixas civis e militares.

É claro, tal intervenção significaria um perigo elevadíssimo para o Brasil e toda a América do Sul e Latina. Colômbia e Brasil seriam arrastados para o conflito inevitavelmente. Gustavo Petro, presidente da Colômbia, disse que “os EUA estão perdidos se pensam que, invadindo a Venezuela, resolverão seu problema. Eles vão arrastar a Venezuela para a mesma situação da Síria, só que com o problema adicional de arrastar a Colômbia para ela”. Petro disse que essa invasão abriria espaço para uma atuação ainda mais forte dos grupos criminosos que atuam na fronteira entre os dois países, que aproveitariam para expandir sua rede de atuação para a exploração de recursos naturais. 

Num cenário de guerra, a Venezuela teria uma nova crise migratória que poderia gerar um fluxo de 3-5 milhões de pessoas em poucas semanas, sobrecarregando dramaticamente as fronteiras, criando caos social e humanitário, com pressões sociais imensas para lidar com refugiados, violência transnacional e o custo econômico. Protestos e instabilidade política, especialmente nas regiões fronteiriças, seriam altamente prováveis.

Uma guerra direta EUA-Venezuela seria um ponto de inflexão catastrófico para as Américas. Uma guerra imperial contra a Venezuela seria um ponto de não-retorno com consequências imprevisíveis e profundamente negativas, transformando a América Latina em um teatro de guerra, abrindo uma nova frente na “Guerra ao Terror”. Se atingir seus objetivos imperais, o que hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer outro país da região que não seja um vassalo dos Estados Unidos.

Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Josias HG

    22 de agosto de 2025 1:57 pm

    A cobra vai fumar pelo jeito

  2. Rui Ribeiro

    22 de agosto de 2025 4:54 pm

    O Trump lustroso o ego do Putin no Alasca com o objetivo de atacar a Venezuela sem que a Rússia se intrometa

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