
Editorial Solene da Grande Imprensa Neoliberal
por Fernando Nogueira da Costa
Nota: esta é uma edição especial intitulada “Em Defesa do Mercado e Contra os Demônios da Tributação”.
Senhores leitores, cumpre-nos reafirmar, com a gravidade de sempre: o Brasil só encontrará a senda da prosperidade caso mantenha a sagrada aliança entre austeridade fiscal e intocabilidade dos rentistas.
Não nos iludamos: surgem vozes dissonantes — economistas heterodoxos, professores inconvenientes, colunistas ousados — capazes de sussurrarem ideias perigosas, como tributar lucros e dividendos e ameaçar os juros reais maiores do mundo. É nosso dever, como guardiões da ordem de O Mercado, alertar: tais propostas equivalem a profanar o altar do investimento estrangeiro.
Por isso, defendemos com convicção:
1. Os gastos sociais devem ser cortados sem dó nem piedade. É preferível uma fila maior no SUS em vez de um susto menor no Boletim de Mercado.
2. A correção monetária não é um privilégio, mas uma dádiva natural. Se ela persiste, somada a um cupom, a culpa é exclusivamente da gastança governamental.
3. O Tripé Macroeconômico é patrimônio da humanidade (brasileira). Qualquer crítica soa como vandalismo contra um monumento tombado desde o fim do milênio passado.
4. A grande imprensa é, acima de tudo, vigilante do bom senso. E bom senso, como sabemos, rima com déficit público zero, juros na lua e rentista feliz.
Assim, reafirmamos solenemente: cortar gastos é sacrifício patriótico; proteger isenções é dever moral; e sufocar a heterodoxia é serviço público.
E concluímos com a oração costumeira:
O Mercado seja louvado, juros sejam preservados, dividendos sejam imaculados.
A austeridade é eterna, e nela encontraremos a salvação. Amém.
Diante desse editorial solene, houve por bem a direção do Valor Econômico impor um “Manual de Redação Jornalística Neoliberal”, com regras internas de como todo editorial deve ser escrito para jamais ameaçar rentistas.
No entanto, foi uma versão confidencial — distribuída apenas entre editores-chefes, analistas de mercado e colunistas “responsáveis”, leia-se, sem a mania de pluralismo ideológico.
1. Princípio da Santidade do Mercado: jamais utilize o termo especulador ou rentista. Diga sempre “investidor” ou, de preferência, “agente racional”. Soa mais nobre e oculta a normalizada dependência parasitária dos juros.
2. Regra de Ouro da Tributação: quando surgir a ideia de taxar lucros e dividendos, classifique-a imediatamente como “populista”, “retrógrada” ou “ameaça à confiança”. Se for proposta por economista heterodoxo, adicione os adjetivos “folclórica” ou “irresponsável”. Se for defendida por alguém de esquerda, conclua com: “O Mercado reagiu mal”.
3. Corte de Gastos é Sempre Virtude: nunca chame cortes de orçamento social de “retirada de direitos”. Prefira: “ajuste necessário”, “reforma modernizadora”, “sinal positivo para os investidores”. Se faltar remédio no SUS ou livros para alunos pobres, lembre isso ser “um colateral doloroso, mas indispensável para o equilíbrio fiscal”.
4. Correção Monetária: trate a indexação como uma simples consequência da irresponsabilidade governamental. Nunca mencione os bancos e os fundos se beneficiarem disso. Se pressionado, diga: “é o preço da estabilidade, uma proteção para o enriquecimento de todos”.
5. Especialistas Entrevistados: se forem da Escola de Chicago ou da Faria Lima, apresente-os como “referências técnicas”. Se forem críticos, apresente-os como “vozes dissonantes” ou “acadêmicos polêmicos”. E nunca dê a palavra a mais de um heterodoxo por vez: sempre contrabalance com pelo menos três liberais bem-comportados.
6. Tom Editorial: O editorial deve soar como fosse um sermão. Use expressões como: “é preciso coragem para cortar”, “o país não pode viver acima de suas possibilidades”, “a sociedade precisa aceitar sacrifícios”. Sacrifícios, claro, somente dos outros.
7. Cláusula Final de Encerramento: todo texto deve terminar invocando a divindade suprema: “O Mercado confia, logo, o país respira.”
Daí surgiu uma constituição sagrada dos editoriais econômicos intitulada Estatuto Ético da Grande Imprensa Neoliberal (Carta Magna dos Editorialistas Fiscais, promulgada solenemente na Avenida Faria Lima, no ano da graça do Tripé da Santíssima Trindade Efe-Agá-Cê, Santo Malan e São Armínio)
Preâmbulo. Nós, editores, colunistas e porta-vozes do bom senso de O Mercado, em assembleia iluminada pelo Santo Espírito da Escola de Chicago, promulgamos este Estatuto Ético, destinado a preservar a ordem rentista, defender a sacrossanta isenção de lucros e dividendos, e assegurar nenhum pensamento heterodoxo contaminar nossas páginas.
Artigo 1º – Do Mercado: O Mercado é eterno, infalível e onisciente. Qualquer opinião divergente será considerada heresia fiscal e tratada como mera “opinião acadêmica sem aderência à realidade”.
Artigo 2º – Da Tributação: É vedada, em qualquer hipótese, a defesa de impostos sobre: rendimentos de juros, lucros e dividendos, ou qualquer outra forma de renda do capital. Constitui crime contra a ética editorial propor tributação progressiva. A pena é o exílio intelectual ou a desmoralização pública via manchete.
Artigo 3º – Dos Gastos Públicos:
1. Todo gasto social será chamado de “excesso”.
2. Todo gasto com rentistas será chamado de “compromisso contratual”.
3. A função primordial do jornalismo econômico é naturalizar a regra de ajustes recaírem sempre sobre os pobres.
Artigo 4º – Dos Especialistas:
§1º – Economistas heterodoxos só poderão ser ouvidos em tom folclórico, como espécimes exóticos de zoológico acadêmico.
§2º – Para cada heterodoxo citado, pelo menos três neoliberais, devidamente diplomados em Chicago, devem ser consultados como contrapeso.
§3º – A palavra final é sempre de “O Mercado”, mesmo quando não foi ouvido.
Artigo 5º – Da Correção Monetária: É terminantemente proibido mencionar ela proteger apenas rentistas. Deve-se atribuir sua persistência exclusivamente à gastança governamental.
Artigo 6º – Do Tripé Macroeconômico: O Tripé é patrimônio sagrado, equivalente à Constituição Financeira da Nação.
1. Quem o questionar deve ser tachado de “populista”.
2. Quem o elogiar deve receber colunas semanais e espaço cativo em editoriais.
Artigo 7º – Da Conclusão dos Textos: Todo editorial econômico deverá encerrar-se com fórmulas de fé, tais como: “o ajuste é inevitável”; “O Mercado reagiu bem”; “a confiança foi restaurada”.
Cláusula de Eternidade: Enquanto houver rentistas no Brasil, este Estatuto permanecerá em vigor, garantido pela pena sem pluralismo da Grande Imprensa e pela devoção à fé neoliberal.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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jsfilho
1 de setembro de 2025 1:35 pmEnfim foi revelado o Manual de Redação da Globonews! Obrigado por divulgar!
Euclides Roberto Novaes de Sousa
1 de setembro de 2025 2:15 pmMuito bom!