5 de junho de 2026

Nova Geopolítica da Soja entre China, EUA e Brasil, por Fernando Marcelino

Apesar dos esforços recentes para reforçar o fornecimento local, a China ainda depende muito da soja do Brasil e dos Estados Unidos.
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Nova Geopolítica da Soja entre China, Estados Unidos e Brasil

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por Fernando Marcelino

A soja transcendeu sua condição de simples commodity agrícola para se tornar um ativo geopolítico estratégico no século XXI. Seu papel fundamental na cadeia de alimentação humana e, sobretudo, animal (ração para criação intensiva de aves, suínos e peixes) coloca a soja no cerne da segurança alimentar global. Um dos principais fatores geopolíticos atuais gira em torno do futuro da soja. Este cenário configura um triângulo geopolítico decisivo, envolvendo os três maiores atores do agronegócio mundial: Brasil (maior produtor e exportador), Estados Unidos (segundo maior produtor e exportador) e China (maior importador e consumidor). Para os três países trata-se de uma questão central, pois envolve a soberania alimentar, um expressivo setor econômico e inclusive, negócios conjuntos, com as grandes multinacionais do agronegócio global, fornecedores de tecnologia, sementes e insumos. Dessa forma, a reorganização atual de suas relações terá diversas consequências de curto e longo prazo.

A China é o maior consumidor e importador mundial de grãos. Para garantir soberania alimentar, o país mantém reserva estratégica de grãos estimada em mais de 100 milhões de toneladas. Recentemente o governo chinês elevou sua meta de produção anual de grãos para cerca de 700 milhões de toneladas métricas. Pequim continua a priorizar medidas destinadas a reduzir a dependência de fontes externas, ao mesmo tempo em que impulsiona a produção local e garante investimentos agrícolas no exterior. Xi Jinping e os formuladores de políticas da China têm consistentemente colocado a segurança alimentar em primeiro plano, reconhecendo-a como uma “prioridade nacional máxima” (国之大者) em meio a um ambiente global cada vez mais complexo. A divulgação do “Documento Central nº 1” da China para 2025, em 23 de fevereiro, reforça esse foco na revitalização rural, modernização agrícola e garantia do suprimento de alimentos do país em meio a desafios nacionais e internacionais.

A China não busca a autossuficiência no sentido estrito de produzir internamente 100% dos grãos de soja que consome. Isso é considerado impossível devido a restrições de terra, água e produtividade. Além disso, a urbanização e a crescente classe média chinesa continuam a aumentar a demanda por carne, leite e ovos. Qualquer ganho em eficiência é, em grande parte, compensado pelo aumento absoluto da demanda. O objetivo real é garantir a suficiência quase total em grãos como arroz e trigo, que são diretamente consumidos pela população e, para a soja e outros grãos forrageiros (como milho), a estratégia é gerenciar a dependência externa, não eliminá-la. A política chinesa de autossuficiência em soja é, na verdade, uma política de “redução da vulnerabilidade estratégica”. A China reconhece que a dependência de importações é inevitável, mas está empenhada em tornar essa dependência gerenciável, diversificada e segura, o que envolve diversificar fornecedores, controlar os riscos da cadeia de suprimentos e aumentar a produtividade doméstica onde for economicamente viável.

O foco chinês é estabilizar e expandir modestamente a área plantada e, principalmente, aumentar o rendimento por hectare (produtividade) através de sementes geneticamente superiores e melhores técnicas agrícolas e ter ganhos de eficiência na cadeia de produção animal (reduzindo desperdício de ração) e na substituição parcial de farelo de soja por outras fontes de proteína. Nos últimos anos, as autoridades chinesas lançaram uma campanha para aumentar a produtividade em 100 condados produtores de soja, por meio de métodos que vão desde a promoção de variedades que podem ser plantadas em maior densidade até a intensificação dos esforços de manejo das culturas para prevenir doenças e danos causados ​​por pragas. Uma combinação de rotação de culturas e métodos de cultivo consorciado tem sido empregada para expandir a área de cultivo de soja. O governo vem fornecendo subsídios agrícolas, disseminando variedades de alto rendimento, promovendo o cultivo intercalar de milho e soja e fornecendo financiamento, crédito e seguro para a soja, tudo em uma tentativa de promover o aumento da produção. Além disso, empresas chinesas são incentivadas a adquirir ou arrendar terras para produção de soja em países. Isso não conta como “produção doméstica”, mas garante que a soja produzida seja controlada por entidades chinesas, direcionada para o mercado chinês e menos sujeita a flutuações de preços internacionais.

A China também está expandindo o armazenamento de grãos em províncias importantes, aumentando anualmente seu orçamento para estoques agrícolas à medida que as tensões geopolíticas e comerciais se intensificam. Na província de Hebei, foi construído o Qinhuangdao Haigang Grain Reserve Base, o maior complexo de armazenagem de grãos do planeta. Com capacidade superior a 810 mil toneladas, o megacomplexo foi construído próximo ao Porto de Qinhuangdao, um dos mais movimentados da China. A localização estratégica permite conexão direta com as rotas marítimas e ferroviárias, facilitando tanto a recepção de grãos importados quanto o escoamento interno. O projeto ocupa cerca de 37 hectares (370 mil m²) e conta com mais de 90 silos verticais de grande porte, todos operados por sistemas digitais de monitoramento e controle. O investimento total na estrutura ultrapassou US$ 3,3 bilhões.

Apesar dos esforços recentes para reforçar o fornecimento local, a China ainda depende muito da soja do Brasil e dos Estados Unidos. A China é o maior mercado consumidor e o principal importador de soja do mundo, representando 61% de todas as compras da oleaginosa no mercado mundial. Historicamente, os Estados Unidos foram o maior exportador mundial de soja. Em 2013, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos em embarques de soja pela primeira vez. Desde então, a participação do Brasil no comércio global de soja tem crescido de forma constante. Em 2024, exportou 75 milhões de toneladas de soja para a China, totalizando US$ 36,5 bilhões, enquanto os EUA exportaram 22 milhões de toneladas, no valor de US$ 12 bilhões. O Brasil viu sua soja valorizada e a demanda chinesa explodir. Nos últimos cinco anos, o Brasil tornou-se fortemente dependente da demanda de importação chinesa: 73% da soja exportada pelo Brasil foi para a China, contra uma média de 51% para os Estados Unidos. 

A soja tem papel significativo nos EUA, estando entre as maiores produções do mundo, com aproximadamente 87,1 milhões de acres plantados. A principal região produtora de soja é o Alto Centro-Oeste, com Illinois, Iowa e Minnesota sendo os principais estados produtores. Agricultores buscam inovação na produção de soja por meio da agricultura regenerativa e da biotecnologia, além do alto nível de mecanização. Em 2024, a produção total de soja dos Estados Unidos foi de aproximadamente 118 milhões de toneladas. Desse total, 70 milhões de toneladas foram direcionadas para a indústria de esmagamento, para transformar os grãos em óleo e farelo. Outras 44 milhões de toneladas foram exportadas, e 22 milhões de toneladas de soja deixaram os EUA para a China, patamar próximo de 52% do total exportado pelos americanos.

No Brasil, a soja tem um papel ainda mais estratégico. No início dos anos 1990 a soja já era a principal cultivo do país, ultrapassando o milho e a cana de açúcar. Houve uma expansão de quase 9 vezes na área plantada entre 1985 e 2023. Graças ao esforço coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de universidades e de agricultores pioneiros, a “tropicalização da soja” permitiu transformar milhões de hectares antes subutilizados em áreas produtivas. A produção de soja impulsionou a expansão da fronteira agrícola rumo ao Oeste do país, profissionalizou e incrementou o comércio internacional brasileiro, enriqueceu a dieta alimentar da população, acelerou a urbanização do país e estimulou a migração da população para o interior (anteriormente concentrada no Sul, Sudeste e litoral do Nordeste). A cadeia produtiva da soja passou a gerar empregos na agroindústria em todas as regiões brasileiras, contando hoje com fábricas de processamento de soja capazes de industrializar cerca de 70 milhões de toneladas, 59 unidades de refino e envase de óleos vegetais e 69 usinas de biodiesel em operação e construção capazes de produzir 16,3 bilhões de litros por ano. A cadeia produtiva da soja é uma cultura altamente mecanizada e pouca intensiva em trabalho, tem uma população ocupada de cerca de 2 milhões de pessoas, representa cerca de 28% do PIB do agronegócio brasileiro e 6% do PIB total do país. A exportação de grãos e derivados constitui uma das maiores fontes de divisas do país, sendo um dos pilares do superávit comercial brasileiro. A cadeia da soja também contribui diretamente para a arrecadação de Estados e municípios, para o dinamismo econômico de centenas de municípios do interior e para inverter o fluxo migratório rumo às megalópoles situadas no litoral.

Hoje, o Brasil lidera a produção global de soja, com 168 milhões de toneladas colhidas na safra 2024/25, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O cultivo ocupa cerca de 40 milhões de hectares e representa uma parcela significativa do valor bruto da produção agropecuária. Só o Mato Grosso produziu 50,6 milhões de toneladas – 30% da produção de soja do Brasil, quase metade da produção dos EUA.

A guerra comercial de Trump prejudicou as vendas norte-americanas de soja à China. Desde que o começo da guerra comercial, os chineses pararam de comprar soja dos EUA para ter como carta na manga para as negociações entre os países, ampliando compras do Brasil.  Em 10 de agosto, Trump pediu publicamente à China que “quadruplique rapidamente” suas compras de soja dos norte-americanos. Logo depois, a China sinalizou que pode aumentar as compras de soja americana para aliviar os custos comerciais. A correção no déficit comercial passa por maior concentração de compras agrícolas chinesas nos EUA e queda na demanda do Brasil. Seria uma nova versão do acordo “Fase 1”, como realizado em 2020, quando Estados Unidos e China assinaram um acordo comercial do qual Pequim se comprometeu a comprar volumes adicionais de produtos americanos, incluindo uma cota de US$ 40 bilhões anuais de soja por dois anos, totalizando US$ 80 bilhões. Neste cenário, a China se comprometeria a retomar e aumentar progressivamente as compras dos EUA, não como substituição, mas em claro detrimento da participação de mercado brasileira.

Um deslocamento massivo da demanda chinesa para os EUA criaria um excedente gigantesco de soja no Brasil. A lei da oferta e demanda faria os preços despencarem no mercado doméstico e internacional. Uma redução significativa no volume e no valor exportado para a China teria um impacto direto e negativo no superávit comercial, na entrada de dólares na economia e, consequentemente, na taxa de câmbio. Nenhum outro mercado, individualmente ou em conjunto, possui a capacidade de absorção e a constância de compras comparáveis à China no curto e médio prazo. Se, por um lado, consolidou o Brasil como potência agroexportadora e lhe proporcionou ganhos econômicos vultosos no curto prazo, por outro, aprofundou perigosamente sua dependência de um único cliente, a China, limitando sua margem de manobra geopolítica e aumentando sua vulnerabilidade sistêmica. Já a China passaria a ter dois grandes fornecedores em constante competição, podendo jogar um contra o outro para obter melhores preços e condições comerciais.

As políticas chinesas de autossuficiência e uma maior competição com os EUA não significam o fim das exportações brasileiras de soja. A China continuará sendo o maior importador mundial por décadas. No entanto, elas sinalizam o fim da era de crescimento fácil e garantido impulsionado por uma demanda chinesa insaciável. Paradoxalmente, a pressão chinesa por autossuficiência pode forçar o Brasil a corrigir falhas estratégicas históricas. Se não se adaptar, o Brasil enfrentará crises cíclicas de preços, perda de renda no campo e uma posição geopolítica enfraquecida, refém das políticas de seu principal cliente. Se encarar o desafio como um imperativo estratégico, o Brasil pode usar essa pressão para diversificar mais seus mercados, industrializar sua produção agropecuária e aumentar sua eficiência, construindo uma economia exportadora mais sofisticada, diversificada e menos vulnerável, agregando valor e avançando na industrialização da soja (produção de óleo, farelo de alta qualidade, biodiesel) e, crucialmente, na exportação de proteína animal processada. A soberania econômica e a autonomia estratégica do país dependem desta capacidade de se adaptar a um tabuleiro geopolítico cada vez mais volátil e imprevisível.

Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.

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