Um levantamento realizado por Carlos Henrique de Brito Cruz, ex-diretor científico da FAPESP e hoje vice-presidente sênior para Redes de Pesquisa na Elsevier, revela uma mudança profunda na distribuição mundial da produção científica nas últimas três décadas. Se em 1994, 87% dos artigos publicados tinham autores vinculados a países de renda alta, em 2024 esse cenário se inverteu: 60% dos trabalhos passaram a ser assinados por pesquisadores de países de renda média e baixa, entre eles Brasil, China, Índia, Rússia e Irã.
A mudança é explicada, sobretudo, pelo avanço da China, que ultrapassou os Estados Unidos em número de autores já em 2015, mas também por investimentos consistentes em ciência e tecnologia feitos por outras economias emergentes. Esses países compreenderam que não há desenvolvimento econômico e social sustentável sem capacidade própria de pesquisa, inovação e formação de quadros.
“Se excluirmos a China desta análise e também os Estados Unidos, os 28 países de renda baixa e média com mais autores ficam à frente [em número de autores] dos 27 países da União Europeia mais o Reino Unido”, comenta Cruz.
Mas a ciência nacional, no entanto, aparece em posição incômoda nesse novo mapa. Se em 1980 tinha 31 autores por milhão de habitantes, contra 1,4 da China, hoje está atrás: em 2024, o Brasil chegou a 932 autores por milhão, enquanto a China saltou para 1.710 e o Irã para 1.231. Desde 2012, a taxa de crescimento da produção científica brasileira perdeu força, caindo para 4% ao ano, ritmo inferior ao dos emergentes e pouco acima dos países ricos, que já têm sistemas consolidados.
“O Brasil vem perdendo velocidade de crescimento desde 2012, deveríamos nos preocupar com isso, que eu tenho chamado de ‘síndrome do Rei Lear’. Na obra de Shakespeare, o Bobo da Corte diz ao rei: ‘Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio’. O Brasil precisa de mais pesquisadores para evitar ficar velho demais antes de ficar sábio”, alerta.
Objetivos da ONU
O estudo também mostra que países emergentes lideram na produção de conhecimento voltado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Em 2024, 59% dos artigos sobre a Agenda 2030 tinham autores de países de renda média e baixa, com taxa de crescimento anual mais que o dobro da registrada em países ricos. No Brasil, cerca de um terço dos estudos financiados por CNPq, Capes e FAPESP está relacionado a algum dos 17 ODS.
Apesar disso, persistem lacunas. Os países emergentes ainda têm menor participação em colaborações internacionais (25,2% contra 37,4% dos países ricos) e pouca integração entre universidade e setor empresarial. No Brasil, apenas 3% das publicações acadêmicas têm coautores em empresas.
O que está em jogo
A conclusão de Brito Cruz é clara: a nova geografia da ciência exige mudança na governança global da pesquisa e fortalecimento das agências de fomento em países emergentes. Também aponta para a necessidade de mais cooperação Sul-Sul, reduzindo a dependência em relação ao eixo Estados Unidos–Europa.
Para o Brasil, o desafio é maior. A estagnação do crescimento científico, resultado de cortes no financiamento e instabilidade nas políticas de Estado, pode comprometer sua capacidade de transformar conhecimento em desenvolvimento econômico e social. Sem investimento contínuo e visão estratégica, o país corre o risco de perder o bonde da história científica global justamente no momento em que os emergentes começam a ocupar o espaço antes monopolizado pelas nações ricas.
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