
A trajetória de Luiz Fux até seu controverso voto no julgamento de Jair Bolsonaro pode ser compreendida como uma confluência de fatores históricos, familiares, políticos e ideológicos. A seguir, organizo os principais elementos que ajudam a entender esse percurso:
1. Raízes e formação comunitária
Luiz Fux é descendente de judeus romenos que vieram ao Brasil como refugiados da Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Mendel Wolf Fux, era advogado, e seu avô materno atuava como juiz arbitral na comunidade judaica de Niterói [1] [2]. Desde cedo, Fux esteve ligado à cultura judaica, estudando em colégios onde se cantava o hino de Israel e participando de cerimônias comunitárias.
Ele foi o primeiro judeu a ocupar uma cadeira no STF, fato celebrado por diversas instituições judaicas como a Hebraica, a FISESP e a CONIB [3] [4]. Em 2020, recebeu a Medalha Jerusalém de Ouro da Embaixada de Israel, por sua contribuição ao fortalecimento das relações Brasil-Israel [1].
2. A influência da família Zveiter
A ascensão de Fux ao STF teve apoio direto da família Zveiter, uma das mais influentes no Judiciário fluminense e também originária do grupo bessarabiano de Niterói. Luiz Zveiter, ex-presidente do TJ-RJ e figura central da política jurídica do estado, foi beneficiado por decisões de Fux em momentos-chave, como a suspensão de medidas do CNJ que barravam sua reeleição [5].
A relação entre Fux e os Zveiter é antiga e estratégica. Em 2020, um candidato apoiado por ambos venceu a eleição para a presidência do TJ-RJ [6], evidenciando a continuidade da aliança.
A indicação de Fux para o STF teve papel decisivo de Luiz Zveiter e de seus aliados políticos, Sérgio Cabral e esposa.
3. O voto no julgamento de Bolsonaro
No julgamento da tentativa de golpe de Estado, Fux divergiu dos demais ministros da Primeira Turma do STF, votando pela absolvição de Jair Bolsonaro e pela nulidade do processo, alegando incompetência da Turma e cerceamento de defesa [7] [8] [9].
Seu voto foi considerado um divisor de águas, com repercussão internacional. A imprensa estrangeira destacou que Fux “rompeu com os colegas” e ofereceu argumentos que podem ser usados pela defesa de Bolsonaro em futuros recursos [7].
Internamente, o voto causou perplexidade, pois Fux havia anteriormente votado pela aceitação da denúncia contra Bolsonaro. A mudança foi vista como incoerente e politicamente calculada, com potencial de fortalecer a narrativa bolsonarista [10].
4. A comunidade judaica e o bolsonarismo
Para entender Fux, o primeiro passo é analisar as relações da comunidade judaica com o bolsonarismo.
A relação entre Bolsonaro e setores da comunidade judaica brasileira é marcada por tensões e divisões:
- Em 2017, a Conib criticou duramente a palestra de Bolsonaro na Hebraica-Rio, onde ele fez declarações racistas e armamentistas [11].
- Em 2019, a posição de Bolsonaro sobre o nazismo como movimento de esquerda gerou um racha na comunidade judaica. O embaixador de Israel se recusou a participar de evento da Conib, que criticava o presidente [12].
- Em 2024, a Conib e outras entidades repudiaram Lula por comparar a ação de Israel em Gaza ao Holocausto, acusando o presidente de antissemitismo [13].
Esses episódios mostram como a comunidade judaica brasileira se tornou um campo de disputa ideológica, com setores progressistas se opondo ao bolsonarismo, enquanto lideranças empresariais e sionistas se aproximaram de Bolsonaro.
A Conib (Confederação Israelita do Brasil) é a principal entidade de representação política da comunidade judaica brasileira. Fundada em 1948, no mesmo ano da criação do Estado de Israel, ela atua como ponte institucional entre os judeus brasileiros e os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário,
Gradativamente, porém, a Conib foi se afastando da neutralidade e passando a apoiar Bolsonaro. Seu presidente Cláudio Lottenberg contribuiu financeiramente para a campanha de Bolsonaro em 2022 e, antes disso, ofereceu-se por diversas vezes para ser seu Ministro da Saúde.
Sua atuação recente tem sido marcada por forte alinhamento com setores da direita brasileira e internacional, especialmente em temas ligados ao conflito Israel-Palestina.
A Conib tem exercido influência crescente na política brasileira por meio de:
- Eventos com lideranças políticas: Em suas convenções anuais, reúne governadores, ministros, parlamentares e embaixadores. Em 2024, por exemplo, não convidou Lula nem Bolsonaro, mas exaltou nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Cláudio Castro como “futuros presidentes” [16] [17] [18].
- Lobby legislativo e jurídico: Participa como amicus curiae em ações no STF, promove projetos de lei e articula com o Congresso em pautas como segurança, educação e combate ao antissemitismo [19].
- Relações internacionais: Mantém vínculos com entidades como o Congresso Judaico Mundial e a Liga Antidifamação (ADL), além de estreitar laços com o governo de Israel [20].
Nos últimos anos, a Conib tem sido acusada de:
- Perseguir vozes críticas ao governo de Israel, especialmente aquelas que denunciam o genocídio em Gaza. Críticas ao sionismo são frequentemente enquadradas como antissemitismo [21] [22].
- Promover judicialização contra ativistas e intelectuais, como Breno Altman e José Genoino, por suas posições pró-Palestina [21].
- Acusar o presidente Lula de antissemitismo, após ele comparar a ofensiva israelense em Gaza ao Holocausto. A Conib afirmou que Lula “promove o antissemitismo entre seus apoiadores” [23] [24].
Essas posturas têm gerado divisões internas na comunidade judaica brasileira, com coletivos como Judias e Judeus pela Democracia criticando o alinhamento político da entidade e sua tentativa de representar uma comunidade plural como homogênea [18].
A Conib também se insere em uma rede global de apoio ao Estado de Israel, alinhada com a política externa de governos como o de Benjamin Netanyahu e, anteriormente, Donald Trump. Essa rede tem se mobilizado para:
- Defender a narrativa oficial israelense nos conflitos com o Hamas.
- Combater o antissionismo como forma de antissemitismo, mesmo quando as críticas são dirigidas a políticas específicas do governo israelense [22] [25].
5. Interpretação política do voto
À luz dessas informações, o voto de Fux pode ser interpretado como:
- Uma tentativa de preservar o espaço político do grupo Zveiter-Fux no Rio de Janeiro, especialmente com as eleições estaduais de 2026 se aproximando. Fux tem mais 3 anos como Ministro do STF e Luiz Zveiter mais 5 como desembargador do TJRJ. Para o grupo, as eleições no Rio são mais relevantes que as nacionais.
- Um gesto de alinhamento com a direita sionista internacional, e com a ofensiva de Donald Trump, em um momento em que Lula se posiciona contra o genocídio em Gaza e sofre ataques de entidades sionistas.
- Uma manobra estratégica para abrir caminho a recursos e enfraquecer a condenação de Bolsonaro, com impacto direto na disputa presidencial de 2026 [20] [21] [23].
Referências
[2] Fux é homenageado pela embaixada israelense – Consultor Jurídico
[3] Ministro Luiz Fux é homenageado pela comunidade judaica do Rio
[4] Ministro Luiz Fux é homenageado pela comunidade judaica de SP
[5] A lei Zveiter – O Bastidor
[6] Candidato de Fux e Zveiter vence eleição à Presidência do TJ do Rio
[7] Voto de Fux em julgamento de Bolsonaro repercute na imprensa …
[8] STF condena Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por … – O GLOBO
[9] STF retoma julgamento da trama golpista com voto de Fux: ‘Não … – G1
[10] O voto de Fux: o raio-x de um agente do imperialismo – Brasil 247
[11] Bolsonaro é criticado por Confederação Israelita após palestra em clube …
[12] Posição de Bolsonaro sobre nazismo racha comunidade judaica no Brasil
[13] Entidade judaica repudia Lula por comparar ação em Gaza ao nazismo
[14] Propósito – CONIB
[15] Confederação Israelita do Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre
[16] Conib desconsidera Bolsonaro e se aproxima de outros líderes de direita …
[17] Jantar da Conib reúne lideranças de direita não convida Bolsonaro e …
[18] Sem Lula, presidente da Conib diz em evento com Caiado e outros …
[19] Relatório de gestão – conib.org.br
[20] CONIB | Confederação Israelita do Brasil
[21] O que é a Conib e por que ela persegue quem luta a … – Jornal A Verdade
[22] Diante da omissão de Lula, comunidade judaica reage com eventos e apoio de governadores
[23] Conib acusa Lula de antissemitismo após fala sobre guerra em Gaza
[24] Conib acusa Lula de “promover antissemitismo”
[25] Relatório dos EUA sobre direitos humanos critica o aumento do …
Leia também:
Rui Ribeiro
12 de setembro de 2025 7:28 amA Ministra Carmem Lúcia chamou, com razão, o Fux de casuísta. Toma, Babacone!
Fernando Beca
12 de setembro de 2025 8:22 amExcelente artigo Nassif.
Só faço uma única sugestão,onde voce escreveu : “Um gesto de alinhamento com a direita sionista internacional, e com a ofensiva de Donald Trump, em um momento em que Lula se posiciona contra o genocídio em Gaza e sofre ataques de entidades judaicas.” Sugiro colocar entidades sionistas e não entidades judaicas. Os sionistas são suficientemente matreiros e podem associar indevidamente ao antisemitismo.
Rui Ribeiro
13 de setembro de 2025 5:55 amProfético: confira abaixo o comentario daa 10:54 am, de 12 de setembro do correnteano, de autoria de Bernardo Ejzenberg, em que este afirma que o Nassiff discriminou o Fux pela religião, não por ser carioca, não por ser juiz de carreira, mas por ser judeu- e a isso se chama antisemitismo.
Na mosca
Luis Nassif
4 de outubro de 2025 12:05 pmTem razão
Ricardo Pereira
12 de setembro de 2025 8:31 amBom dia Nassif. Eu me atentei pra este fato e comentei ontem no Mundo é um moinho com o Lenio sobre esta influencia do alinhamento Fux-sionismo e do alinhamento da extrema direita entre Trump-Netanyahu-Bolsonaro. Sua analise corrobora minha impressao.
Rui Ribeiro
12 de setembro de 2025 10:25 amSe o Fux aceitou a delação do Cid, se uma delação premiada só é aceita se for, em tese, verdadeira, e se na delação há acusações presumidamente verdadeiras contra Bolsonaro, como o Fux pode ter absolvido o Bolsonaro?
Bernardo Ejzenberg
12 de setembro de 2025 10:54 amDiscriminou o ministro pela religião, não por ser carioca, não por ser juiz de carreira, mas por ser judeu- e a isso se chama antisemitismo
Rui Ribeiro
12 de setembro de 2025 5:30 pmTodo ateu é anti-semita, pois todo ateu critica as religiões, inclusive o judaísmo. Faz bastante sentido
Cezar Roberto Bitencourt
13 de setembro de 2025 2:53 pmO
Rui Ribeiro
13 de setembro de 2025 9:44 am“As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, portanto, de sua energia prática, consiste em saber partir decididamente da superação positiva da religião. A crítica da religião derruba a idéia do homem como essência suprema para si próprio. Por conseguinte, com o imperativo categórico mudam todas as relações em que o homem é um ser humilhado, subjugado, abandonado e desprezível, relações que nada poderia ilustrar melhor do que aquela exclamação de um francês ao tomar conhecimento da existência de um projeto de criação do imposto sobre cães: Pobres cães! Querem tratá-los como se fossem pessoas!” – Karl Marx, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
Ser radical é atacar os problemas pela raiz. Para o homem, a raiz é o próprio homem. A teoria alemã é radical por partir, decididamente, da superação positiva da religião, pois esta derruba a idéia do homem como essência suprema para si próprio
AMBAR
14 de setembro de 2025 3:42 pmBernardo, uma coisa é você ser discriminado, outra coisa é se sentir discriminado. Sendo pois, uma coisa pessoal, você toma as dores porque quer, ainda que não tenha havido a ofensa.Já imaginou se todo o crente neopentec fosse mover uma ação contra quem o chama de crente bitolado? O católico fervoroso de carola?
Maneire suas suscetibilidade para não sofrer tanto.
Andréa
24 de outubro de 2025 11:16 pmNão. Sionismo não é antissemitismo e as críticas são legais e legítimas.
Lênin and The Ulianovs
12 de setembro de 2025 11:15 amO único argumento válido contra o processo, e agora a sentença, é a presença de Alexandre de Moraes como juiz na apuração e no julgamento.
Mas, do ponto de vista da ética do voto de Fux, esse argumento se dilui no fato de que ele não alegou esse vício nos processos de outros réus que ele julgou e condenou.
No entanto, essa circunstância de Moraes, a meu ver, é grave.
O juiz inquisidor só é permitido, pelo regimento do STF, em situações bem restritas.
Rui Ribeiro
13 de setembro de 2025 12:07 amTurbas ordenadas ou iniciativas frequentes configuram golpe. No 8 de janeiro ocorreu o contrário: turmas desordenadas e iniciativas esparssssssas
Jorge Mendes
13 de setembro de 2025 8:52 amMe parece algo muito mais simples, uma republiqueta latino americana, um judiciário que é corrupto em todas suas instancias e tem preco, um simples VOTO COMPRADO.
Santos, José
13 de setembro de 2025 9:37 pmArtigo perfeito. E não se confunda o povo judeu (que tem pensamento variado) com Israel.
evandro
14 de setembro de 2025 7:29 pmEsqueceu de mencionar o caso da filha, que, graças a uma ajudinha do papai (e amigos), hoje é desembargadora