21 de maio de 2026

Xadrez do voto de Fux e o avanço do sionismo, por Luís Nassif

Imprensa estrangeira destacou que voto de Fux ofereceu argumentos que podem ser usados pela defesa de Bolsonaro em futuros recursos

A trajetória de Luiz Fux até seu controverso voto no julgamento de Jair Bolsonaro pode ser compreendida como uma confluência de fatores históricos, familiares, políticos e ideológicos. A seguir, organizo os principais elementos que ajudam a entender esse percurso:

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1. Raízes e formação comunitária

Luiz Fux é descendente de judeus romenos que vieram ao Brasil como refugiados da Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Mendel Wolf Fux, era advogado, e seu avô materno atuava como juiz arbitral na comunidade judaica de Niterói [1] [2]. Desde cedo, Fux esteve ligado à cultura judaica, estudando em colégios onde se cantava o hino de Israel e participando de cerimônias comunitárias.

Ele foi o primeiro judeu a ocupar uma cadeira no STF, fato celebrado por diversas instituições judaicas como a Hebraica, a FISESP e a CONIB [3] [4]. Em 2020, recebeu a Medalha Jerusalém de Ouro da Embaixada de Israel, por sua contribuição ao fortalecimento das relações Brasil-Israel [1].

2. A influência da família Zveiter

A ascensão de Fux ao STF teve apoio direto da família Zveiter, uma das mais influentes no Judiciário fluminense e também originária do grupo bessarabiano de Niterói. Luiz Zveiter, ex-presidente do TJ-RJ e figura central da política jurídica do estado, foi beneficiado por decisões de Fux em momentos-chave, como a suspensão de medidas do CNJ que barravam sua reeleição [5].

A relação entre Fux e os Zveiter é antiga e estratégica. Em 2020, um candidato apoiado por ambos venceu a eleição para a presidência do TJ-RJ [6], evidenciando a continuidade da aliança.

A indicação de Fux para o STF teve papel decisivo de Luiz Zveiter e de seus aliados políticos, Sérgio Cabral e esposa.

3. O voto no julgamento de Bolsonaro

No julgamento da tentativa de golpe de Estado, Fux divergiu dos demais ministros da Primeira Turma do STF, votando pela absolvição de Jair Bolsonaro e pela nulidade do processo, alegando incompetência da Turma e cerceamento de defesa [7] [8] [9].

Seu voto foi considerado um divisor de águas, com repercussão internacional. A imprensa estrangeira destacou que Fux “rompeu com os colegas” e ofereceu argumentos que podem ser usados pela defesa de Bolsonaro em futuros recursos [7].

Internamente, o voto causou perplexidade, pois Fux havia anteriormente votado pela aceitação da denúncia contra Bolsonaro. A mudança foi vista como incoerente e politicamente calculada, com potencial de fortalecer a narrativa bolsonarista [10].

4. A comunidade judaica e o bolsonarismo

Para entender Fux, o primeiro passo é analisar as relações da comunidade judaica com o bolsonarismo.

A relação entre Bolsonaro e setores da comunidade judaica brasileira é marcada por tensões e divisões:

  • Em 2017, a Conib criticou duramente a palestra de Bolsonaro na Hebraica-Rio, onde ele fez declarações racistas e armamentistas [11].
  • Em 2019, a posição de Bolsonaro sobre o nazismo como movimento de esquerda gerou um racha na comunidade judaica. O embaixador de Israel se recusou a participar de evento da Conib, que criticava o presidente [12].
  • Em 2024, a Conib e outras entidades repudiaram Lula por comparar a ação de Israel em Gaza ao Holocausto, acusando o presidente de antissemitismo [13].

Esses episódios mostram como a comunidade judaica brasileira se tornou um campo de disputa ideológica, com setores progressistas se opondo ao bolsonarismo, enquanto lideranças empresariais e sionistas se aproximaram de Bolsonaro.

A Conib (Confederação Israelita do Brasil) é a principal entidade de representação política da comunidade judaica brasileira. Fundada em 1948, no mesmo ano da criação do Estado de Israel, ela atua como ponte institucional entre os judeus brasileiros e os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário,

Gradativamente, porém, a Conib foi se afastando da neutralidade e passando a apoiar Bolsonaro. Seu presidente Cláudio Lottenberg contribuiu financeiramente para a campanha de Bolsonaro em 2022 e, antes disso, ofereceu-se por diversas vezes para ser seu Ministro da Saúde.

Sua atuação recente tem sido marcada por forte alinhamento com setores da direita brasileira e internacional, especialmente em temas ligados ao conflito Israel-Palestina.

A Conib tem exercido influência crescente na política brasileira por meio de:

  • Eventos com lideranças políticas: Em suas convenções anuais, reúne governadores, ministros, parlamentares e embaixadores. Em 2024, por exemplo, não convidou Lula nem Bolsonaro, mas exaltou nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Cláudio Castro como “futuros presidentes” [16] [17] [18].
  • Lobby legislativo e jurídico: Participa como amicus curiae em ações no STF, promove projetos de lei e articula com o Congresso em pautas como segurança, educação e combate ao antissemitismo [19].
  • Relações internacionais: Mantém vínculos com entidades como o Congresso Judaico Mundial e a Liga Antidifamação (ADL), além de estreitar laços com o governo de Israel [20].

Nos últimos anos, a Conib tem sido acusada de:

  • Perseguir vozes críticas ao governo de Israel, especialmente aquelas que denunciam o genocídio em Gaza. Críticas ao sionismo são frequentemente enquadradas como antissemitismo [21] [22].
  • Promover judicialização contra ativistas e intelectuais, como Breno Altman e José Genoino, por suas posições pró-Palestina [21].
  • Acusar o presidente Lula de antissemitismo, após ele comparar a ofensiva israelense em Gaza ao Holocausto. A Conib afirmou que Lula “promove o antissemitismo entre seus apoiadores” [23] [24].

Essas posturas têm gerado divisões internas na comunidade judaica brasileira, com coletivos como Judias e Judeus pela Democracia criticando o alinhamento político da entidade e sua tentativa de representar uma comunidade plural como homogênea [18].

A Conib também se insere em uma rede global de apoio ao Estado de Israel, alinhada com a política externa de governos como o de Benjamin Netanyahu e, anteriormente, Donald Trump. Essa rede tem se mobilizado para:

  • Defender a narrativa oficial israelense nos conflitos com o Hamas.
  • Combater o antissionismo como forma de antissemitismo, mesmo quando as críticas são dirigidas a políticas específicas do governo israelense [22] [25].

5. Interpretação política do voto

À luz dessas informações, o voto de Fux pode ser interpretado como:

  • Uma tentativa de preservar o espaço político do grupo Zveiter-Fux no Rio de Janeiro, especialmente com as eleições estaduais de 2026 se aproximando. Fux tem mais 3 anos como Ministro do STF e Luiz Zveiter mais 5 como desembargador do TJRJ. Para o grupo, as eleições no Rio são mais relevantes que as nacionais.
  • Um gesto de alinhamento com a direita sionista internacional, e com a ofensiva de Donald Trump, em um momento em que Lula se posiciona contra o genocídio em Gaza e sofre ataques de entidades sionistas.
  • Uma manobra estratégica para abrir caminho a recursos e enfraquecer a condenação de Bolsonaro, com impacto direto na disputa presidencial de 2026 [20] [21] [23].

Referências

[1] Supremo Tribunal Federal

[2] Fux é homenageado pela embaixada israelense – Consultor Jurídico

[3] Ministro Luiz Fux é homenageado pela comunidade judaica do Rio

[4] Ministro Luiz Fux é homenageado pela comunidade judaica de SP

[5] A lei Zveiter – O Bastidor

[6] Candidato de Fux e Zveiter vence eleição à Presidência do TJ do Rio

[7] Voto de Fux em julgamento de Bolsonaro repercute na imprensa …

[8] STF condena Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por … – O GLOBO

[9] STF retoma julgamento da trama golpista com voto de Fux: ‘Não … – G1

[10] O voto de Fux: o raio-x de um agente do imperialismo – Brasil 247

[11] Bolsonaro é criticado por Confederação Israelita após palestra em clube …

[12] Posição de Bolsonaro sobre nazismo racha comunidade judaica no Brasil

[13] Entidade judaica repudia Lula por comparar ação em Gaza ao nazismo

[14] Propósito – CONIB

[15] Confederação Israelita do Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre

[16] Conib desconsidera Bolsonaro e se aproxima de outros líderes de direita …

[17] Jantar da Conib reúne lideranças de direita não convida Bolsonaro e …

[18] Sem Lula, presidente da Conib diz em evento com Caiado e outros …

[19] Relatório de gestão – conib.org.br

[20] CONIB | Confederação Israelita do Brasil

[21] O que é a Conib e por que ela persegue quem luta a … – Jornal A Verdade

[22] Diante da omissão de Lula, comunidade judaica reage com eventos e apoio de governadores

[23] Conib acusa Lula de antissemitismo após fala sobre guerra em Gaza

[24] Conib acusa Lula de “promover antissemitismo”

[25] Relatório dos EUA sobre direitos humanos critica o aumento do …

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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17 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    12 de setembro de 2025 7:28 am

    A Ministra Carmem Lúcia chamou, com razão, o Fux de casuísta. Toma, Babacone!

  2. Fernando Beca

    12 de setembro de 2025 8:22 am

    Excelente artigo Nassif.
    Só faço uma única sugestão,onde voce escreveu : “Um gesto de alinhamento com a direita sionista internacional, e com a ofensiva de Donald Trump, em um momento em que Lula se posiciona contra o genocídio em Gaza e sofre ataques de entidades judaicas.” Sugiro colocar entidades sionistas e não entidades judaicas. Os sionistas são suficientemente matreiros e podem associar indevidamente ao antisemitismo.

    1. Rui Ribeiro

      13 de setembro de 2025 5:55 am

      Profético: confira abaixo o comentario daa 10:54 am, de 12 de setembro do correnteano, de autoria de Bernardo Ejzenberg, em que este afirma que o Nassiff discriminou o Fux pela religião, não por ser carioca, não por ser juiz de carreira, mas por ser judeu- e a isso se chama antisemitismo.

      Na mosca

    2. Luis Nassif

      4 de outubro de 2025 12:05 pm

      Tem razão

  3. Ricardo Pereira

    12 de setembro de 2025 8:31 am

    Bom dia Nassif. Eu me atentei pra este fato e comentei ontem no Mundo é um moinho com o Lenio sobre esta influencia do alinhamento Fux-sionismo e do alinhamento da extrema direita entre Trump-Netanyahu-Bolsonaro. Sua analise corrobora minha impressao.

  4. Rui Ribeiro

    12 de setembro de 2025 10:25 am

    Se o Fux aceitou a delação do Cid, se uma delação premiada só é aceita se for, em tese, verdadeira, e se na delação há acusações presumidamente verdadeiras contra Bolsonaro, como o Fux pode ter absolvido o Bolsonaro?

  5. Bernardo Ejzenberg

    12 de setembro de 2025 10:54 am

    Discriminou o ministro pela religião, não por ser carioca, não por ser juiz de carreira, mas por ser judeu- e a isso se chama antisemitismo

    1. Rui Ribeiro

      12 de setembro de 2025 5:30 pm

      Todo ateu é anti-semita, pois todo ateu critica as religiões, inclusive o judaísmo. Faz bastante sentido

      1. Cezar Roberto Bitencourt

        13 de setembro de 2025 2:53 pm

        O

    2. Rui Ribeiro

      13 de setembro de 2025 9:44 am

      “As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, portanto, de sua energia prática, consiste em saber partir decididamente da superação positiva da religião. A crítica da religião derruba a idéia do homem como essência suprema para si próprio. Por conseguinte, com o imperativo categórico mudam todas as relações em que o homem é um ser humilhado, subjugado, abandonado e desprezível, relações que nada poderia ilustrar melhor do que aquela exclamação de um francês ao tomar conhecimento da existência de um projeto de criação do imposto sobre cães: Pobres cães! Querem tratá-los como se fossem pessoas!” – Karl Marx, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel

      Ser radical é atacar os problemas pela raiz. Para o homem, a raiz é o próprio homem. A teoria alemã é radical por partir, decididamente, da superação positiva da religião, pois esta derruba a idéia do homem como essência suprema para si próprio

    3. AMBAR

      14 de setembro de 2025 3:42 pm

      Bernardo, uma coisa é você ser discriminado, outra coisa é se sentir discriminado. Sendo pois, uma coisa pessoal, você toma as dores porque quer, ainda que não tenha havido a ofensa.Já imaginou se todo o crente neopentec fosse mover uma ação contra quem o chama de crente bitolado? O católico fervoroso de carola?
      Maneire suas suscetibilidade para não sofrer tanto.

    4. Andréa

      24 de outubro de 2025 11:16 pm

      Não. Sionismo não é antissemitismo e as críticas são legais e legítimas.

  6. Lênin and The Ulianovs

    12 de setembro de 2025 11:15 am

    O único argumento válido contra o processo, e agora a sentença, é a presença de Alexandre de Moraes como juiz na apuração e no julgamento.

    Mas, do ponto de vista da ética do voto de Fux, esse argumento se dilui no fato de que ele não alegou esse vício nos processos de outros réus que ele julgou e condenou.

    No entanto, essa circunstância de Moraes, a meu ver, é grave.

    O juiz inquisidor só é permitido, pelo regimento do STF, em situações bem restritas.

  7. Rui Ribeiro

    13 de setembro de 2025 12:07 am

    Turbas ordenadas ou iniciativas frequentes configuram golpe. No 8 de janeiro ocorreu o contrário: turmas desordenadas e iniciativas esparssssssas

  8. Jorge Mendes

    13 de setembro de 2025 8:52 am

    Me parece algo muito mais simples, uma republiqueta latino americana, um judiciário que é corrupto em todas suas instancias e tem preco, um simples VOTO COMPRADO.

  9. Santos, José

    13 de setembro de 2025 9:37 pm

    Artigo perfeito. E não se confunda o povo judeu (que tem pensamento variado) com Israel.

  10. evandro

    14 de setembro de 2025 7:29 pm

    Esqueceu de mencionar o caso da filha, que, graças a uma ajudinha do papai (e amigos), hoje é desembargadora

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