
Tenório e Hermeto, por Gabriel Improta
Tenório e Hermeto – um texto sobre grandes artistas e música brasileira, escrito por um músico, no calor dos acontecimentos recentes que marcam o país.
O aparecimento do corpo do grande pianista Tenório Junior, assassinado pela ditadura militar argentina, coincidiu com o falecimento do extraordinário músico Hermeto Paschoal – dois gênios da música brasileira que despontaram nos anos 1960 a partir do sucesso internacional do samba moderno, ou da bossa nova.
Outra importante coincidência é a identificação do corpo de Tenório na mesma semana em que militares brasileiros são condenados pela primeira vez na história por uma tentativa de golpe, similar ao que vitimou Tenório em 1976, em Buenos Aires.
Gostaria de situar esses dois desaparecimentos, meio século distantes, em uma malha de relações no interior da Música Popular Brasileira, evidenciando a posição do músico brasileiro na grande rede das práticas e indústrias culturais nesse período. Tentei fazer isto nesse breve texto, escrito hoje, domingo, 14/09/26, no calor dos acontecimentos, apontando alguma direções que me parecem importantes.
1. Se há algo que une a música de Tenório e Hermeto, além do pianismo pleno, do domínio da improvisação e da composição, do momento histórico em que floresceram e da força popular de sua música brasileira é a fidelidade intransigente a um conceito elevado de arte e de música – radical mesmo – e do qual nunca abriram mão. De resto, são também bastante diversos.
A partir de meados dos anos 1960, com a ascensão da MPB, junto à televisão e ao golpe militar, as poucas grandes gravadoras então hegemônicas excluíram do mercado nacional toda a forma de música que não fosse baseada na voz e na palavra, alegando falsamente que músicas sem letras não teriam apelo popular – uma falácia que naturalizamos, hoje, no Brasil.
Nessa nova fase da indústria cultural crescente no Brasil do pós guerra, tornou-se bom senso abraçar de vez toda a sorte de comercialismos pop em nome da “alegria”, da “juventude”, indo sempre no sentido do aumento das vendas – e que se tornou o discurso dominante desde então, nos meio culturais brasileiros. “Se não podemos vence-los, juntemo-nos a eles”, parece ter sido a máxima que se impôs aos músicos brasileiros desde então.
Mas Tenório e Hermeto jamais pensaram assim. Sua atividade era de resistência, contra o comercialismo fácil, pelo ideal elevado de música que mantiveram por toda a vida. Do ponto de vista ideológico, viveram intensamente a oposição entre arte elevada e comercio como fim em si.
Obviamente, Caetano Veloso e os tropicalistas, que deram aquele abraço na música pop internacional, foram os seus antagonistas do ponto de vista das ideias sobre música, arte e comercio. (Do meu ponto de vista, sempre me senti ideologicamente mais próximo dos tropicalistas, posição comum em um músico de minha geração, buscando conjunção entre arte e comércio. Hoje, mais velho, meu otimismo tropicalista com a indústria cultural decresce e minha admiração por músicos como Tenório e Hermeto aumenta. Tento dar por superada a dicotomia arte x comercio, mas nem sempre tenho êxito diante da crueza da indústria cultural de hoje, intensificada com relação ao que foi e assustadora com seus algoritmos que recomendam a política da extrema direita na base do entretenimento. Pesadíssima, perto do que foi nos anos 60 e 70 do século passado).
2. Para evidenciar essa mentalidade radical de ambos, seu amor profundo à arte e à música, que é extensível a muitos músicos dessa rede do samba moderno, trago à cena o guitarrista Frederico de Oliveira, o Fredera, que escreveu um importante livro para a música brasileira, pouco lembrado: “O crime contra Tenório”.
É um livro saboroso, cheio de histórias engraçadas, mas também de rancor pelo lugar secundário relegado na esfera pública a músicos como Tenório e Hermeto.O guitarrista narra o dissenso de forma quase cômica. Com a palavra Fredera, expondo o embate entre as mentalidades do grande pianista Tenório Jr. e do Tropicalista Caetano Veloso:
“Nessa época, eu estava ligado também ao Gil, tocando com ele, e sempre estava com o Caetano também. (…) Nesse meio tempo o Caetano me consultou a respeito de o Tenório dirigir musicalmente um trabalho para ele: a idéia era reunir um violino, uma tuba (chamado de saxtrompa contrabaixo, aquele instrumentão meio obceno da banda marcial) e a voz de Caetano; no piano e nos arranjos, Tenório Jr. (…)
Então eu me entusiasmei muito com a ideia do Caetano e toquei o Tenório a respeito. E depois os dois se entenderam pra lá. Passado algum tempo, o Caetano me fala da decepção dele com o Tenório, que marcou dia e hora para começar o trabalho e simplesmente não pintou. (…)
Entendi. O que passou é que Tenório “não se viu” naquele trabalho. Ele era fiel a sua origem musical, respeitava seus princípios às últimas consequências, era intransigente na defesa de suas convicções musicais (…). Não será que Tenório estava magoado demais com tudo para poder usar de uma liberdade musical na qual ele certamente não acreditava? Não será que ele se sentiu incomodado porque convocado para uma tarefa musical que depois ele verificou ser esdrúxula para ele? (…)” (P. 134)
3. Caetano veloso também abordou o episódio em texto de forma mais sintética, conforme podemos ler em “O mundo não é chato”:
“Ion Muniz (saxofonista) me disse outro dia que Tenório Júnior não veio cumprir o seu trabalho que havíamos combinado porque a formação que eu sugeria era absurda (piano, tuba, violino, percussões, eu e violão), que eu precisava estudar a historia da música.” (p.99)
As palavras certeiras do poeta baiano não deixam dúvida do que está em jogo aqui: Veloso esperava que Tenório cumprisse com o “seu trabalho”, em uma relação profissional regular dentro da indústria cultural da época, previamente acertada, à qual o pianista preferiu não ir. Por quê? Para Tenório o que estava em jogo não era o “trabalho” ao qual teria que se submeter, mas a “liberdade musical” e artística que, segundo Fredera, Tenório não pensava que pudesse exercer dentro dessa relação assimétrica industrial, ainda que Caetano seja um grande artista. Mas a sua inserção em novos esquemas que surgiam na indústria cultural da época lhe pareceram talvez por demais “comerciais”.
É preciso lembrar que o período de ascensão da MPB, junto à televisão e ao rock’n’roll, inauguram uma nova fase muito mais “pesada” da indústria cultural internacional. Essa fase marca também, tanto nos EUA como no Brasil, o fim de um período (a era de ouro do rádio) pleno de grandes orquestras de dança com muitos músicos e arranjos primorosos. No pós guerra, estas foram substituídas por quartetos de rock, a exemplo dos Beatles, que atraiam público “jovem” mais numeroso e fiel do que nunca.
Se os tropicalistas disseram “sim ao sim”, músicos excepcionais como Tenório e Hermeto resistiram até o fim a essa nova ordem avalassadora da indústria da música. Quixotescos? Talvez. Mas sempre grandiosos e fieis à arte.
4. Outro episódio envolvendo Veloso, dessa vez com Hermeto, evidencia esse dissenso. (Como vocês já devem ter percebido, utilizo pop star baiano aqui como “ponto de fuga” conceitual no texto, afim de dar “profundidade” ao pensamento dos músicos que nos interessam aqui).
No filme “Coração vagabundo”, Caetano é confrontado frente as câmeras com a crítica de Hermeto por ele haver dito que “a música de maior qualidade” no mundo seria “a norte-americana seguida da cubana”. Hermeto respondeu publicamente que “Os Estados Unidos já eram. Não dá pra ouvir uma bobagem dessa de um cara que nem o Caetano, que como poeta é bom, mas como músico é um musiquinho”. A excelente tréplica de Caetano, que não caberia aqui, está no filme citado…
O que se destaca primeiro no embate é a oposição entre o nacionalismo de Hermeto e o cosmopolitismo de Veloso. Mas não nos deixemos enganar, Caetano também é um nacionalista. Mas que abraça a música proveniente da indústria cultural norte-americana com gosto. A mesma música “comercial” que é vista por Hermeto como uma forma de dominação (imperialista) a ser rechaçada pela narrativa da grandeza da música brasileira.
Conclusão. É desnecessário dizer quem venceu essa disputa entre “apocalípticos e integrados” da indústria cultural brasileira. Basta sabermos como Tenório morreu e viveu, em contraposição ao sucesso do grupo do tropicalismo, que elegeu até um Ministro da Cultura no país. Um texto muito interessante sobre a fuga em massa para o exterior dos músicos que viveram a derrocada dessa corrente do samba moderno, dessa música brasileira que prometia grandezas com o sucesso internacional da bossa nova, mas que redundou numa grande “diáspora” de instrumentistas em fins dos anos 1960, é o de Ruy Castro, em “Chega de Saudade”.
Desses músicos, criados no caldeirão cultural da música brasileira que antecedeu a era da hegemonia TV e da MPB, muitos artistas do som, como Hermeto Paschoal, Airto Moreira e Flora Purim, Sergio Mendes, João Donato, Raul de Souza e Tom Jobim, saíram do Brasil e construíram sólidas carreiras no exterior. Outros ficaram no país, como Tenório Jr, e, diante da falta de trabalho mais ativo criativamente, foram transformados em músicos “acompanhantes” de artistas cantores de MPB, em ascensão rumo ao estrelato.
A história de Hermeto Paschoal e Tenório Junior se insere nesse contexto que procurei sugerir aqui nesse breve textão, escrito no calor dos significativos e emocionantes fatos desta semana atípica para o Brasil.
PS: Chama a atenção a brancura das capas dos primeiros álbuns de ambos (1962, 1970). A pureza da arte/alma desses artistas está nas capas, com artes originais em preto e branco.
PS2: Toda a minha solidariedade às famílias dos músicos, especialmente a de Tenório, em sua busca nobre e necessária por esclarecer as condições e motivos de sua morte absurda.
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