Quase meio século após o desaparecimento de Francisco Tenório Cerqueira Júnior, pianista de 34 anos sequestrado em Buenos Aires durante a ditadura militar argentina, o governo brasileiro agradeceu oficialmente pela identificação de seus restos mortais. A notícia traz alívio, mas também expõe a permanência de lacunas sobre o que aconteceu naquela noite de março de 1976, quando o músico saiu do hotel para comprar cigarros e nunca mais voltou.
“O sequestraram achando que era outra pessoa. Tentando obter alguma informação durante a tortura, mataram-no”, afirmou o procurador federal argentino Miguel Ángel Osorio, ao reconstituir as circunstâncias da morte.
Em setembro de 2013, Osorio foi ouvido pelo Jornal GGN, em um minidocumentário produzido por Nacho Lemus, Julia Nassif e Lilian Milena [confira pelo link abaixo]. Ele destacou que não havia qualquer indício de perseguição política direta ao músico brasileiro.
“Não temos nenhum indício de que o sequestraram por sua militância política. Ele não falava como um brasileiro, então pode ter ficado ao lado de algum sobrevivente e não reconheceram: ‘aqui tem um brasileiro detido’. Não temos nenhum elemento que diga que o Brasil tinha interesse nesse sequestro”.
O procurador também situou a violência no contexto de uma Buenos Aires tomada por grupos paramilitares que atuavam livremente às vésperas do golpe contra Isabelita Perón. O caso se insere no contexto da Operação Condor, a rede de cooperação entre ditaduras do Cone Sul que perseguiu, sequestrou e assassinou opositores políticos de forma brutal.
“No momento em que pegam Tenório, um pouco antes do golpe de Estado, os grupos parapoliciais estavam atuando com total liberdade. Eles deixavam a zona totalmente livre. O que poderia acontecer? Que alguém tentasse resistir, tentasse colaborar com o detido, que se produzisse um tiroteio. Então, não podiam correr o risco de enfrentar o Exército ou a Polícia Federal. É mais fácil que tenha sido pego por uma patrulha na rua, porque essa área correspondia a esse grupo parapolicial”.
A filha do pianista, Elisa Cerqueira, também relatou ao GGN o choque da família diante do desaparecimento. “O que a gente sabe é que ele saiu do hotel no fim da noite para comprar cigarro, mas não voltou. O que aconteceu com ele foi pouco antes da derrubada da presidenta Isabelita. Foi um momento muito crucial. O Vinícius [de Moraes] ficou um mês em Buenos Aires tentando descobrir o que tinha acontecido”.
Entre as lembranças, ela ressalta a dimensão artística do pai e a efervescência cultural de sua casa no Rio. “No nosso apartamento tinha um estúdio dentro de casa, então havia muita movimentação de música. Ele tocou com muitos artistas no Brasil e fora. Era um artista brilhante, muito inteligente.”
Ela lembra que, mesmo sem envolvimento político, seu pai acabou marcado pela aparência e pelo estigma da época. “Provavelmente, e obviamente, ele tinha um posicionamento político de esquerda porque era a pessoa que ele era, mas não tinha nenhuma atividade política. Meu pai era um artista, não era militante, não tinha ligação com grupos. Mas era cabeludo, barbudo, o estereótipo do subversivo”.
A busca por respostas se estendeu por gerações e envolveu até o avô de Elisa, que era delegado da Polícia Federal. “Meu avô, pai do meu pai, era delegado da Polícia Federal no Brasil e foi para a Argentina tentar ajudar. Ficamos muito tempo sem saber, sempre com a expectativa de que ele pudesse aparecer novamente. Como acontece nesses casos, havia sempre quem dizia ter visto Tenório”.
No último sábado (13), a família do pianista brasileiro Tenório Cerqueira Júnior divulgou nota expressando alívio pela confirmação de sua morte, mas também cobrando respostas sobre o que realmente aconteceu. “Quem matou Tenório? Por quê? Por que matar um homem sem nenhum envolvimento político, que só vivia para a música? Durante anos ouvimos versões, histórias que agora se revelam falsas”, questiona a família.
Relembre o documentário do GGN:
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