
O jornal Valor Econômico publicou recentemente uma nota otimista: “Otimismo com o Brasil chega à mesa do JP Morgan”. O cenário parecia promissor — os indicadores de desemprego atingiam o menor nível da série histórica e a massa salarial crescia. Mas o otimismo do JP Morgan não se devia apenas ao bom desempenho da economia. Havia outros fatores em jogo.
Com menos desemprego, aumenta o risco de pressão sobre o consumo e, consequentemente, sobre os preços. Para o mercado e para o Banco Central (BC), essa “boa notícia” pode ser interpretada como uma ameaça inflacionária. O resultado? A manutenção de juros elevados.
O otimismo do JP Morgan, portanto, está ancorado na expectativa de que o Brasil manterá juros altos, mesmo com a inflação em queda. Isso eleva a taxa de juros real (juros nominais descontados da inflação), tornando o país mais atrativo para investidores estrangeiros. Em outras palavras, o Brasil passa a pagar mais carry trade do que outros países emergentes.
O que é Carry Trade?
Carry trade é uma operação financeira em que o investidor toma dinheiro emprestado em países com juros baixos e aplica em países com juros altos, lucrando com a diferença. É uma estratégia que favorece o capital especulativo de curto prazo, que entra, lucra e sai, deixando pouco ou nenhum legado produtivo.
As Metas dos Bancos Centrais
Cada Banco Central trabalha com metas específicas. No caso brasileiro, a única meta é a inflação, atualmente fixada em 3% ao ano. A única evolução recente foi a adoção de uma meta contínua, monitorada mês a mês, em vez de anual. O Conselho Monetário Nacional só pode alterar essa meta com pelo menos 36 meses de antecedência, para garantir previsibilidade.
Outros bancos centrais seguem uma lógica semelhante. O Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra também têm como única meta a estabilidade de preços. Nessa abordagem, crescimento econômico e emprego só são considerados na medida em que afetam a inflação. Se o desemprego cai e isso pressiona os preços, a resposta pode ser elevar os juros — mesmo que isso prejudique o mercado de trabalho.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (FED) tem uma abordagem mais equilibrada. Sua missão constitucional inclui a estabilidade de preços e o pleno emprego. Recentemente, o candidato de Donald Trump ao comando do FED propôs uma terceira meta: perseguir a redução das taxas de juros de médio prazo, que afetam diretamente o custo do crédito para consumidores e empresas. Embora ainda debatida em círculos acadêmicos, essa proposta pode provocar mudanças profundas na atuação dos bancos centrais.
Diagnósticos Equivocados
A lógica de que o aumento da Selic reduz o consumo é, muitas vezes, apenas retórica. A teoria diz que juros mais altos encarecem o crédito, diminuem a demanda e, assim, controlam a inflação. Mas na prática, o impacto é mínimo.
Considere o exemplo de um bem financiado em 12 parcelas de R$ 1.000,00. As taxas de juros mensais no crédito ao consumidor variam entre 6% e 10%, o que equivale a 101,2% e 213,8% ao ano, respectivamente. Se o BC aumenta a Selic em um ponto percentual, e esse aumento é integralmente repassado ao consumidor, as taxas anuais sobem para 102,2% e 214,8%. Isso representa um acréscimo irrisório na prestação mensal: de R$ 119,22 para R$ 119,50 no financiamento mais barato, e de R$ 146,72 para R$ 146,93 no mais caro.
Enquanto isso, cada ponto percentual adicional na Selic, mantido por 12 meses, representa um aumento de R$ 35 a R$ 50 bilhões na despesa com juros da dívida pública. Ou seja, o impacto sobre o consumidor é mínimo, mas o custo para o Tesouro é gigantesco.
O Efeito Real sobre a Inflação
O aumento da Selic atrai capital estrangeiro, valoriza o real e reduz o preço dos produtos comercializáveis — aqueles cotados em dólar. Mas essa valorização cambial também prejudica a competitividade da indústria nacional, ao encarecer a produção local frente aos importados.
Se o objetivo fosse realmente controlar o custo do crédito, bastaria adotar uma nova medida que considerasse o custo efetivo do financiamento e o prazo médio das operações — fatores que influenciam diretamente o valor das prestações. Essa é a proposta do economista Luiz Melchert.
Outras ferramentas também poderiam ser utilizadas, como a taxa de redesconto (linha de liquidez para bancos com juros definidos pelo BC) ou o recolhimento compulsório (percentual dos depósitos que os bancos devem manter no BC). Mas essas alternativas raramente são exploradas.
A Armadilha do Capital Volátil
Essa dinâmica coloca o país em uma posição vulnerável, dependente do fluxo de capital especulativo. Qualquer sinal de crescimento é interpretado como risco inflacionário, o que leva o BC e o Tesouro a elevar os juros e apreciar o câmbio — um movimento que desestimula a produção nacional.
Os bancos centrais acabam reféns dessa lógica, subordinados à dança do capital financeiro, que entra, lucra e sai, mantendo as autoridades monetárias como reféns.
Talvez, com a proposta do enviado de Trump ao FED, surja uma oportunidade de romper com esses dogmas e abrir espaço para que bancos centrais periféricos possam inovar — não apenas com soluções tecnológicas como o Pix, mas também com políticas que tornem o crédito mais acessível e sustentável.
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José Carlos
17 de setembro de 2025 7:31 amA Taxa Selic, nesses patamares, serve apenas para transferir a renda da população para os mais ricos, pois esse juros são pagos com o dinheiro dos impostos. Que é retirado do bolso dos contribuintes. Tornando-o mais pobres, pois o dinheiro escoa para os mais ricos.
E essas revistas que vocês mencionam, a editora foi comprada pelos banqueiros, entre todas mídias do país para manipular a opinião pública e enganar a todos. Tudo gira em torno de roubar toda população e enganá-los.
Rui Ribeiro
17 de setembro de 2025 8:07 amO Brasil é uma cópia mal feita das patifarias dos EUA. Mas o que lá existe de bom não é copiado. A inflação está se elevando nos EUA mas mesmo assim eles vão baixar a taxa de juros. Aqui, não tem conversa. A taxa de juros tá em 15%, tem deflação e mesmo assim a taxa de juros vai continuar na estratosfera. O que vale na matriz, não funciona na filial.
“Em artigo publicado no Project Syndicate, os economistas Mark Blyth e Nicolò Fraccaroli citam pesquisas mostrando que a relação entre juros altos e queda da inflação é mais fraca e lenta do que se supunha”.
https://jornalggn.com.br/economia/cortes-agressivos-de-juros-podem-piorar-economia-dos-eua/
JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
17 de setembro de 2025 8:12 amA explicação para tal comportamento é que não existe banco central independente,eles são controlados pelo sistema financeiro, que é o caso do Brasil, ou são controlados pelo estado, que o caso da China. No entanto, imagino que pode existir alguns países com controle compartilhado.
Fábio de Oliveira Ribeiro
17 de setembro de 2025 8:14 amPois é Nassif, felizes eram aqueles que viveram no mundo Antigo. Eles não precisavam conviver com dissonâncias cognitivas econômicas vomitadas diariamente por jornalistas, blogueiros, influencers, bots de internet e autoridades do Banco Central. As vidas deles eram simples. Se faltasse pão e vinho eles saqueavam a cidade vizinha ou tocavam fogo própria cidade após saquear as mansões dos aristocratas e/ou oligárcas.
Entre nós, os aristocratas e oligarcas tocam fogo em tudo, no país e na racionalidade econômica, para obter lucros consistentes e permanentes sem fazer qualquer esforço. Se a economia estiver bem, os juros devem ser altos porque há perigo de inflação. Se a economia estiver mal, os juros devem ser altos para atrair investimentos estrangeiros. O que está faltando é a população prejudicada pelos juros altos começar a se rebelar à moda antiga.
Francisco Santos
17 de setembro de 2025 9:39 amSe o negocio esta ruim subam- se os juros, se está bom subam-se os jutos, se está mais ou menos, subam-se os juros
O BC parece um deserto no meio de uma floresta, cortando a floresta e aumentando o deserto ao menor sinal de mudanças, quase nunca replantando uma árvore
Mas vai chegar um dia que não vai mais ter floresta pra cortar
Rui Ribeiro
17 de setembro de 2025 9:40 amAntes de Marx explicava-se o lucro do patrão não pela exploração do trabalho do operário, já que o operário recebia seu salário do patrão. Explicava-se o lucro do capitalista se originava no consumo. Marx demonstrou brilhantemente, a partir dos estudos de Ricardo, que o lucro se origina na produção e apenas se realiza na circulação das mercadorias e na prestação dos serviços.
Porque é interessante para a burguesia convencer a classe operária de que sua imensa riqueza vem do consumo e não da exploração dos trabalhadores? Ora, porque isso elimina a causa da revolta operária, pois a riqueza dos patrões não se originam do trabalho dos operários, mas do consumo.
Agora estão a sustentar que a riqueza dos donos das big-techs não se origina de trabalho dos seus trabalhadores mas da atenção de quem utiliza os serviços das big techs.
Então os lucros das big techs vêm da produção ou do consumo?
A mais-valia do dono da escola particular vem do trabalho dos professores ou da atenção dos alunos ao conteúdo exposto pelos professores? O dinheiro recebido por uma escola particular, paga pelo pai de um aluno da tal escola, é valor-atenção?
E se o aluno não dá atenção à aula, não aprende nada, não se dedica, o lucro vem da atenção do aluno mesmo ele sendo desatencioso?
De acordo com Marx, a schoolmaster is a productive labourer when, in addition to belabouring the heads of his scholars, he works like a horse to enrich the school proprietor. That the latter has laid out his capital in a teaching factory, instead of in a sausage factory, does not alter the relation.
Os lucros dos donos das big-techs não vêm da atenção dos usuários dos seus serviços, vêm do trabalho de quem produz seus conteúdos. Por exemplo, a inteligência artificial não cria nada, ela apenas sintetiza o que os humanos criam. Assim, quando a Ia nos dá uma resposta, por exemplo, ela vai na rede, pesquisa tudo que já foi escrito e feito sobre aquele assunto, o resume e nos dá a resposta. Logo, não é a atenção dos usuários dos serviços das big techs que dá origem à imensa riqueza de seus donos mas a produção intelectual de todas as gerações passadas e presentes que garante o imenso lucro dos donos das big techs.
Rui Ribeiro
19 de setembro de 2025 7:17 amGoogle é processado por uso indevido de conteúdo em respostas de IA
18 de setembro de 2025, 12h41
Antonio Uchoa Neto
17 de setembro de 2025 2:05 pm“Carry trade é uma operação financeira em que o investidor toma dinheiro emprestado em países com juros baixos e aplica em países com juros altos, lucrando com a diferença. É uma estratégia que favorece o capital especulativo de curto prazo, que entra, lucra e sai, deixando pouco ou nenhum legado produtivo.”
Mais claro que isso, impossível. O nosso sistema de juros e câmbio é projetado para que os investidores estrangeiros ganhem, aqui, o que não podem ganhar lá.
É simples, é canalha, mas é assim.
marcio gaúcho
17 de setembro de 2025 2:30 pmO freio na economia real é a taxa de juros elevada. Quem tem dinheiro, mantém aplicado nas mais diversas modalidades oferecidas pelos bancos. O Brasil não pode ter demanda, porque causaria inflação. Na lógica, bastaria que a indústria e serviços disponibilizassem mais produção de bens para atender à demanda. Mas não é assim que o capital financeiro quer e decide que o Brasil está proibido de crescer. Pobre país com o seu destino, fadado ao insucesso permanente, devido às forças ocultas do mercado financeiro e à geopolítica global.
Joel Palma
17 de setembro de 2025 6:09 pmCulpa do Ciro Gomes que indicou o presidente do Banco Central e boa parte dos diretores atuais…
Stalingrado
18 de setembro de 2025 7:31 amGalipolo, o Sumo Sacerdote do Deus Mercado, continua sacrificando o povo Brasileiro.
Alex
18 de setembro de 2025 9:06 amNa verdade, taxas razoáveis a longo prazo também fazem parte das metas do BC norte-americano:
“maximum employment, stable prices, and moderate long-term interest rates.” AI