5 de junho de 2026

A fala virou escrita, a escrita virou voz — o fármaco digital, por Lucio Massafferri Salles

Do mito de Theuth ao fármaco digital: Platão, Derrida e dilemas da memória com os big data. Entre remédio e veneno, tentamos dosar a medida.
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A fala virou escrita, a escrita virou voz — o fármaco digital

por Lucio Massafferri Salles

Lá se vão mais de dois mil anos desde que Platão escreveu o drama Fedro, onde aparece o mito do deus egípcio Theuth, inventor da escrita.

Conta-se que Theuth ofereceu sua criação como remédio para a memória humana, apresentando-a ao rei egípcio. O rei, desconfiado, retrucou: a escrita não fortaleceria a memória, mas o esquecimento.

Quem passasse a escrever deixaria de exercitar a lembrança viva, sobretudo das coisas mais importantes. O “fármaco para a memória” — anunciado como remédio — soava, afinal, como veneno.

Is your smartphone ruining your memory? A special report on the rise of ‘digital amnesia’
Séculos depois, Derrida retomou esse mito em A Farmácia de Platão. A questão era outra: Platão tratava a escrita como suplemento, sempre inferior à fala. Derrida desmontou essa hierarquia.

Nem a fala é pura, nem a escrita é simples cópia. Uma atravessa a outra, e nesse cruzamento aparecem tanto o remédio quanto o veneno.

Quem foram os sofistas? – o poder da linguagem na antiga democracia grega

E cá estamos, século XXI adentro. Nossa fala virando escrita, frenética, nos toques apressados no celular: mensagens, posts, figurinhas e emojis que tentam — quase sempre em vão — dar o tom certo de voz.

E a escrita virando voz: lives lidas em roteiro, transcrições que sobem para virar podcast, dublagens automáticas, inteligências artificiais falando no lugar de quem escreve.

A própria voz, quando aparece, já não é escutada em seu tempo. Vejam no Zap e em algumas plataformas, tudo é acelerado em 1,5x ou 2x. Na ágora digital, quase não há escuta: apenas uma disputa para falar mais, expor mais, gritar mais. A tal “liberdade de expressão” virou ruído sem atenção.

Tudo rápido demais, a ponto de enlouquecer qualquer um.
How to avoid losing your memory in the digital age

Se para Platão a escrita ameaçava a memória viva, hoje a dependência é outra. Sem backups na nuvem ou nos dispositivos, corremos o risco de “perder tudo”. Quem nunca levou o susto de bater a mão nos bolsos e perguntar: “cadê meu telefone??”

Os big data registram rastros quase infinitos de cada um de nós, como um garimpo que perfila. Nós, humanos, seguimos amparados por esse seguro invisível.

O conceito de memória se desloca: já não é exercício da mente, mas capacidade de gravação e armazenamento técnico.

A digitalização já transformou a própria ideia de memória: não é só lembrar, mas delegar às máquinas o trabalho de armazenar traços do que somos (Trigo).

Assim caminha a humanidade.
La escritura electrónica

Pois então, o fármaco digital é isso: não só uma bengala para a memória, mas uma prótese para a vida. Entre o remédio da conexão e o veneno da dependência, vamos tentando dosar a medida.
A questão é se ainda sabemos quando parar.

Lucio Massafferri Salles é psicólogo/psicanalista, filósofo, jornalista e professor da rede pública de ensino/RJ. Doutor e mestre em filosofia pela UFRJ, especialista em psicanálise pela USU, realizou o seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. Autor de A arquitetura do caos: guerra híbrida, operações psicológicas e manipulação digital. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

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Lucio Massafferri Salles

Lucio Massafferri Salles é professor do Departamento de Psicologia da UCAM, professor da Rede Pública Estadual do Rio de Janeiro, graduado e Licenciado em Filosofia pela UFRJ e em psicologia pelo CEUCEL. É especialista em Psicanálise pelo CEPCOP-USU, mestre em Filosofia pela UFRJ e doutor em Filosofia pela UFRJ. Concluiu estágio de pós-doutorado em Filosofia pela UERJ.

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