10 de junho de 2026

Dosimetria? É preciso uma boa dose de vergonha na cara, por Fernando Castilho

A ideia de que reduzir a pena de Bolsonaro seria uma busca por “equilíbrio” entre extrema-esquerda e extrema-direita é roteiro de comédia.
Imagem: Instagram

Dosimetria? É preciso uma boa dose de vergonha na cara

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por Fernando Castilho

Primeiro de tudo: o Brasil não está em guerra civil. Não tem tanque na rua, não tem barricada em Copacabana, e ninguém está trocando tiro em frente ao Congresso (pelo menos, ainda). Então, essa conversa sobre “pacificação nacional” é desonestidade, uma desculpa esfarrapada para livrar a cara de quem tentou impor ao país uma ditadura.

É fundamental entender o que está realmente por trás da articulação política em torno da anistia de Jair Bolsonaro. Não é amor à democracia. Quando você vir Paulinho da Força, Aécio Neves e Michel Temer se apresentando como representantes do “centro”, tentando reduzir as penas dos condenados pela tentativa de golpe, saiba que você está diante de uma peça de teatro mal ensaiada. Nenhum deles representa o centro – a não ser que o centro agora seja um cemitério político onde figuras ressuscitadas pela direita voltam para tentar salvar o que sobrou do bolsonarismo. Dois deles já foram golpistas, todos têm fichas mais sujas que banheiro de rodoviária, e ainda assim querem posar de moderados. É quase comovente.

A ideia de que reduzir a pena de Bolsonaro seria uma busca por “equilíbrio” entre extrema-esquerda e extrema-direita é digna de um roteiro de comédia. Não estamos diante de dois lados da mesma moeda – estamos diante de um lado que quer manter a democracia e outro que tentou derrubá-la com um golpe de estado. E adivinha para qual lado a balança, que já nasceu viciada, pende?

A tentativa de anular a condenação por abolição violenta do Estado de Direito, mantendo só a tentativa de golpe, é uma armadilha política para o STF. Se os ministros caírem nessa, estarão basicamente dizendo: “Ah, não foi tão grave assim.” E pronto – a extrema direita ganha mais um argumento para dizer que o STF é um comitê de interesses. E da próxima vez que alguém tentar invadir o Congresso, vão dizer que o próprio STF faz julgamento político ao admitir que exagera nas penas.

Além de tudo, a proposta de redução de pena é uma piada jurídica. A pena máxima para esse tipo de crime é de 43 anos. Bolsonaro pegou 27 – menos que dois terços, e poderá cumprir boa parte em casa, de pantufas. Reduzir para 21 anos, como querem os três fantasmas da política, não é só juridicamente impossível – é um convite para o STF virar oficialmente um balcão de negócios. Se isso acontecer, melhor trocar a estátua “A Justiça” por um logo de partido.

Essas tentativas de salvar o chefe da quadrilha não têm respaldo popular, não têm base legal e não têm vergonha na cara. São uma afronta à Justiça e à democracia. Esses senhores não representam o povo — representam apenas os interesses de quem tentou derrubar a República e quer manter seus negócios escusos.

E o povo?

O povo, que não é bobo, saiu às ruas aos milhares. Esquerdistas, centristas, gente que só queria um país minimamente decente. E tudo isso por causa da famigerada PEC da Bandidagem. Sem ela, talvez ninguém tivesse se mexido. Mas os bolsonaristas, sempre geniais, acharam que embutir a anistia na PEC seria uma jogada de mestre. Resultado: se isolaram, perderam apoio, e agora estão vendo o projeto naufragar no Senado.

O fim deles está chegando – e nem foi preciso guerra civil.

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.

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Fernando Castilho

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.

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