
Rei morto, rei posto
por Fernando Castilho
Com a condenação de Jair Bolsonaro, O Estadão e O Globo correram para sentenciar o óbito político do ex-presidente. Em um alívio quase teatral, o Estadão bradou em editorial: “Bolsonaro, um cadáver insepulto”, e O Globo, em perfeita sincronia, publicou o seu na mesma toada. A Folha, em uma patética demonstração de lealdade, destoou ao espernear que a pena foi dura demais, defendendo a prisão domiciliar do condenado na clássica linha do “o brasileiro é muito bonzinho”. Já o Estadão voltou à carga, com a mesma “elegância” de sempre, sentenciando: “Bolsonaro não vale uma missa”.
Poderíamos ser ingênuos e pensar que, agora que está demonstrado que o ex-presidente é um criminoso de fato, esses dois “jornalões” finalmente decidiram expressar o que seus proprietários pensam. Mas a história não é assim tão simples.
Durante a pandemia, mesmo sendo atacada por Bolsonaro, a grande imprensa o poupou de qualquer responsabilização séria. Sim, noticiou os números de internados e mortos. Mostrou todas as suas falas irresponsáveis, cruéis e desrespeitosas. Não escondeu os ataques feitos a ela mesma. Mas ficou por aí.
“Ah, mas o que você queria a mais?”, perguntariam alguns.
Vamos propor um exercício de imaginação: troquem o nome de Bolsonaro por Lula. O que aconteceria caso ele dissesse que já mandou cancelar a compra de vacinas? Caso ofendesse inúmeras vezes as jornalistas que tentavam entrevistá-lo? Caso receitasse cloroquina ao povo brasileiro? E, por fim, caso imitasse pessoas morrendo asfixiadas? Imaginem o que o Bonner falaria no Jornal Nacional.
A Rede Globo fez um único e forte editorial contra Jair Bolsonaro, e todos viram a resposta do ex-presidente, que inclusive ameaçou caçar a concessão da emissora. Depois disso, as críticas se tornaram meros sussurros.
Foi dessa forma que chegamos às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais. Os “jornalões” levavam o pleito em banho-maria. Não queriam Lula presidente, mas contavam com algumas possibilidades dentro da terceira via. Bolsonaro era mantido como uma carta na manga, para o caso de ter que enfrentar Lula no segundo turno.
E o segundo turno veio. E com ele o rio de dinheiro gasto pelo então presidente para tentar se reeleger. Além disso, Bolsonaro intensificara seu discurso de ódio e já pregava, ainda que de maneira não tão explícita, um golpe, ao questionar as urnas eletrônicas e ao dizer que não aceitaria outro resultado que não fosse sua vitória. A grande imprensa ficou com medo. E o motivo se explica.
Durante a ditadura, mesmo tendo apoiado o regime, os “jornalões” foram silenciados e passaram a publicar receitas de bolo em suas capas censuradas. Eles temiam voltar àqueles tempos. Além disso, todos esses conglomerados jornalísticos não vendem mais apenas jornais, mas atuam também no mercado financeiro e em outros negócios. Qual a segurança que uma ditadura traria para eles?
Lula venceu e, logo em seguida, os canhões foram apontados para ele. Não importa se o projeto é bom ou ruim, será atacado. Não importa se o discurso foi bom ou ruim, será atacado. A ideia passou a ser minar o governo para que ele chegasse fraco a 2026, enquanto procuravam mais uma terceira via que não existia. Portanto, foi preciso tentar fabricar uma.
O produto da fabricação foi Tarcísio de Freitas. Uma vez criado o produto, precisavam de um rótulo. E ele veio: “Tarcísio, um bolsonarista moderado”. Mas, e Jair Bolsonaro? Não, ele não seria esquecido. Caso Tarcísio não quisesse se candidatar à presidência e caso não aparecesse outro nome competitivo perante Lula, os “jornalões” teriam que tentar enquadrar o capitão para que ele se comportasse direitinho dessa vez. Mas havia a inelegibilidade. E havia a acusação de tentativa de golpe. O que fazer?
Tarcísio arrancou o rótulo e colocou outro no lugar: “Tarcísio, extremista de direita, genérico de Bolsonaro”. Novamente apareceu o fantasma da ditadura. A insegurança jurídica que viria com Tarcísio, a partir de sua fala quando afirmou que não acreditava na justiça brasileira; a insegurança econômica; a insegurança social; um país que poderia passar por uma conflagração. Os “jornalões” sentiram medo e passaram a dar ferroadas em Tarcísio para ver se ele se emendava. Mas até agora ele continua a se portar como “enfant terrible”.
E veio, por fim, a condenação de Bolsonaro por 27 anos. É certo que ele poderá progredir da pena em seis anos, mas está fora da política, a menos que consiga uma totalmente improvável anistia. E se ela fosse conseguida no Congresso, seria derrubada no Supremo. Novamente, insegurança jurídica, risco para o país. Perigo para os conglomerados de mídia.
É por isso que agora o cachorro morto está sendo chutado enquanto procuram desesperadamente uma terceira via capaz de fazer frente a Lula, que se fortalece a cada dia graças às ameaças do filho de Jair Bolsonaro, que está nos Estados Unidos traindo o Brasil e ressuscitando o sentimento de soberania nacional do povo brasileiro.
E graças a Donald Trump.
Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.
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