4 de junho de 2026

O Fechamento da Passagem de Karama, por Rasem Bisharat

A passagem transformou-se em um instrumento de pressão política direcionado diretamente contra a Autoridade Palestina
Reprodução GettyImages

O Fechamento da Passagem de Karama: Entre o Castigo Coletivo e os Cálculos Políticos

por Rasem Bisharat

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou o fechamento da Passagem de Karama/Ponte Rei Hussein (Ponte Allenby) — a única travessia terrestre que conecta a Cisjordânia ao mundo exterior através da Jordânia — a partir de 24 de setembro de 2025 e até novo aviso. Netanyahu afirmou que o fechamento constitui “uma resposta inicial para impedir o retorno dos ministros da Autoridade Palestina”, acrescentando que sua posição completa será anunciada após seu retorno dos Estados Unidos.

Assim, a passagem transformou-se em um instrumento de pressão política direcionado diretamente contra a Autoridade Palestina, em um momento de intensa atividade diplomática palestina e crescente reconhecimento internacional do Estado da Palestina. O fechamento restringe severamente a liberdade de movimento de milhões de palestinos, dificulta os esforços internacionais de sua liderança e transforma essa infraestrutura vital em um instrumento de punição coletiva contra o povo palestino.

A decisão demonstra claramente como Israel utiliza infraestruturas essenciais como ferramentas de pressão política, colocando a liberdade de movimento e os direitos fundamentais dos palestinos em confronto direto com os cálculos políticos israelenses e agravando as tensões tanto no plano humanitário quanto no diplomático.

Palestinos Entre um Novo Cerco e o Sofrimento Diário

O fechamento da Passagem de Karama não é apenas uma decisão política; ele impactou rapidamente a vida cotidiana dos palestinos de maneira profunda. De repente, milhões de habitantes da Cisjordânia encontraram-se sem qualquer ponto de saída externo, presos em uma geografia limitada que lhes nega a liberdade de viajar ou se mover. Essa paralisia da mobilidade significa que pacientes ficam privados de acesso a hospitais no exterior dos quais dependem para tratamento, e milhares de estudantes não conseguem atravessar para a Jordânia nem continuar seus estudos no exterior.

As repercussões econômicas também são significativas. A suspensão do transporte de cargas e do comércio através da passagem ameaça desencadear uma crise que pode levar à escassez de bens essenciais e ao aumento de preços, sobrecarregando ainda mais a população. No plano social, o fechamento paralisou um elo familiar vital: famílias inteiras acostumadas a viajar entre a Cisjordânia e a Jordânia agora enfrentam um muro de isolamento, aprofundando a sensação de cerco e separação.

A Autoridade Palestina Sob Crescente Pressão

As repercussões vão além da vida individual, colocando a Autoridade Palestina no centro da tempestade e causando-lhe perdas financeiras diretas devido à suspensão das receitas provenientes das taxas de viagem, uma fonte crucial de renda. Isso agrava a grave crise financeira que a Autoridade enfrenta há anos como resultado das políticas israelenses.

As implicações diplomáticas são ainda mais complexas. Ministros e funcionários palestinos agora enfrentam grandes dificuldades para sair ou retornar à Cisjordânia, o que paralisa efetivamente sua mobilidade política e diplomática. Mais criticamente, o fechamento tornou-se uma ferramenta de chantagem política, com Israel utilizando a passagem para pressionar a liderança palestina e dificultar suas atividades no cenário internacional, em um momento em que o reconhecimento do Estado da Palestina ganha impulso globalmente.

O Fechamento e o Direito Internacional

O fechamento da Passagem de Karama deixou de ser uma simples medida administrativa ou mesmo de segurança; tornou-se um teste para as obrigações de Israel sob o direito internacional. A Quarta Convenção de Genebra de 1949 proíbe explicitamente o castigo coletivo e obriga a potência ocupante a garantir a liberdade de movimento e o acesso a cuidados de saúde para os civis. Os desenvolvimentos atuais estão em clara contradição com essas obrigações, pois os palestinos são privados de seus direitos mais básicos.

O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 garante a todos o direito à liberdade de movimento e de viagem — um direito completamente minado pelo fechamento da única passagem disponível aos palestinos. Os direitos econômicos e sociais, principalmente o direito à saúde e à educação, também são diretamente violados: pacientes ficam sem tratamento e estudantes são impedidos de frequentar suas universidades. Assim, o fechamento constitui uma violação flagrante do direito internacional e dos tratados de direitos humanos.

Uma Oportunidade Diplomática para a Autoridade Palestina

Em meio a esse cenário sombrio, a declaração de Netanyahu abre uma porta que pode ter implicações estratégicas para a Autoridade Palestina. Sua admissão pública de que o fechamento foi imposto como “uma resposta inicial para impedir o retorno dos ministros da Autoridade Palestina” constitui uma prova contundente de que a medida é punitiva e política, sem relação com questões de segurança. Tal declaração pode ser transformada em uma poderosa ferramenta de pressão diplomática no cenário internacional.

Nos fóruns internacionais, a Autoridade Palestina poderia apresentar queixas formais ao Conselho de Segurança da ONU, à Assembleia Geral e à Corte Internacional de Justiça, citando o reconhecimento explícito de Israel do uso de passagens fronteiriças como meio de castigo coletivo, em violação ao Artigo 33 da Quarta Convenção de Genebra. O caso também pode ser levado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e aos Relatores Especiais pertinentes, especialmente o Relator Especial sobre direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, uma vez que a declaração de Netanyahu constitui prova oficial da intenção política declarada por trás da violação dos direitos fundamentais dos palestinos.

Conclusão

O fechamento da Passagem de Karama/Ponte Rei Hussein deixou de ser uma simples medida de segurança rotineira e passou a revelar a profundidade da crise entre Israel e a Autoridade Palestina, bem como o custo humanitário e político imposto ao povo palestino. As declarações de Netanyahu confirmam que a decisão não se baseia apenas em motivos de segurança, mas trata-se de um ato punitivo político destinado a isolar os palestinos e pressionar sua liderança.

O fechamento impõe um cerco humanitário a pacientes, estudantes e famílias, intensifica a pressão sobre a Autoridade Palestina tanto no plano interno quanto internacional, e está em clara contradição com o direito internacional e os tratados de direitos humanos. No entanto, essa própria violação também representa uma oportunidade de internacionalizar a questão e conquistar um apoio global mais amplo.

A questão central permanece: os palestinos conseguirão aproveitar este momento para expor a política israelense de castigo coletivo e pressionar a comunidade internacional a intervir, ou o fechamento continuará sendo uma ferramenta israelense de pressão usada para redefinir os limites da liberdade e da vida cotidiana dos palestinos?

Dr. Rasem Bisharat – Doutor em Estudos do Oeste Asiático e especialista em assuntos latino-americanos

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados