O esvaziamento no discurso de Benjamin Netanyahu na Assembleia Geral da ONU, na sexta-feira (26), foi interpretado como um sinal claro de fragilidade política do primeiro-ministro israelense e de um isolamento crescente de Israel no cenário internacional.
Para a jornalista e pesquisadora Cilene Victor, do grupo HumanizaCom, da UMESP, o simbolismo desse gesto pode se converter em perdas políticas concretas.
“Esse esvaziamento tem valor simbólico num primeiro momento, mas pode se transformar em enfraquecimento político internacional e em um isolamento ainda maior. Israel tem o direito de existir, mas não pode negar o mesmo direito à Palestina em meio a esse genocídio”, afirma a jornalista, em entrevista à TV GGN [assista abaixo].
Ela lembra que o gesto de esvaziamento não aconteceu de forma isolada. O processo começou com o relatório divulgado em 16 de setembro pela Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre os Territórios Palestinos Ocupados, que concluiu que Israel cometeu genocídio contra palestinos em Gaza.
A guinada ficou ainda mais evidente em 22 de setembro, quando o presidente francês Emmanuel Macron anunciou, durante conferência na ONU em Nova York, o reconhecimento formal da Palestina. O gesto marcou uma ruptura simbólica no eixo ocidental, que por décadas manteve apoio quase automático a Israel.
Netanyahu, em resposta, endureceu o tom. Diante do esvaziamento de diversas delegações, negou que o Exército israelense esteja matando civis ou provocando fome em Gaza, e rejeitou a criação de um Estado palestino.
“A imprensa não teve como ignorar quando ele disse: ‘Eu ainda não acabei, Israel ainda não acabou o plano em Gaza’. Isso foi muito grave”, avalia Cilene.
A cobertura internacional e o peso do termo “genocídio”
Além do desgaste político, Cilene destaca a forma como a imprensa internacional tem narrado os acontecimentos em Gaza.
“Até este momento, a maioria dos veículos internacionais não assumiu a palavra genocídio, a não ser quando aparece entre aspas, atribuída a alguém. Por isso, quando o presidente Lula foi explícito na ONU e disse que se trata de genocídio, todos os jornais tiveram que registrar. Mas sempre com a ressalva de que era uma declaração do presidente do Brasil”, explica.
O jornalista Luis Nassif ponderou que, mesmo evitando a palavra, a imprensa já não consegue blindar Israel.
“Há quase uma contradição: não dizem genocídio, mas a cobertura é de condenação expressa. Isso mostra que a influência que o sionismo tinha sobre a mídia internacional se esvaiu, inclusive com revoltas internas de jornalistas, como vimos na Reuters”, afirmou.
Para Cilene, as redes sociais desempenharam um papel central nesse processo. “Foi o primeiro genocídio filmado e divulgado em tempo real, sem a intermediação dos grandes veículos. As imagens de crianças mortas, famintas, chorando, circularam pelas redes e tornaram impossível embromar a opinião pública. Isso criou uma base de consciência global que hoje não consegue mais defender Israel”.
A diferença em relação a outros massacres, como os de Ruanda e Srebrenica, explica a pesquisadora, está na existência de registros imediatos.
“Antes, o mundo dependia do relato posterior. Agora, temos o registro em tempo real, mesmo com mais de 270 jornalistas palestinos assassinados desde o início da ofensiva. Isso é inédito e muda o patamar da pressão sobre Israel”.
O número de mortos em Gaza chegou a 62 mil em agosto, segundo autoridades palestinas. De acordo com a ministra de Estado das Relações Exteriores da Autoridade Palestina, Varsen Aghabekian, 80% do território está em ruínas, enquanto Israel segue com sua política de genocídio, justificando o injustificável.
Assista ao programa completo abaixo:
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