Gaza e a falência moral dos EUA e de Israel, por Aldo Fornazieri

A história pode ser escrita e reescrita, pode ser contada de várias maneiras, mas o seu juízo sempre tem um sentido universal.

IDF – Flickr

Gaza e a falência moral dos EUA e de Israel

por Aldo Fornazieri

Quando a tempestade de bombas cessar, quando o rugido de morte dos tanques e canhões se aquietar, quando os prédios deixarem de queimar e de ruir, sobrará uma coisa. Quando as valas comuns de mulheres e crianças não forem mais visíveis, quando não existir mais terror nos olhos das meninas e dos meninos, quando o choro e os lamentos não forem mais ouvidos, quando os gemidos de dor se apagarem, sobrará uma coisa. Quando os generais tiverem sua sede de sangue saciada, quando as análises do realismo político e militar se apagarem na palidez dos tempos, quando a falha justiça dos homens estiver morta, quando Biden, Netanyahu, seus ministros e estrategistas virarem pó, sobrará uma coisa.

Sobrará o implacável juízo da História. Claro, a história pode ser escrita e reescrita, pode ser contada de várias maneiras, mas o seu juízo sempre tem um sentido universal. E no sentido universal deste juízo sobressai a sentença moral, pois é a perspectiva da humanidade, de sua construção e de sua opção que estará em jogo. Esta sentença moral será profundamente condenatória às decisões e às ações dos Estados Unidos e de Israel acerca do que fizeram, estão fazendo e farão em Gaza de modo particular e com os palestinos em geral.

Se olharmos para as sentenças morais da história de todos os tempos, não resta duvida de que o tirano, o dominador, o explorador, o exterminador, o genocida será condenado. Os oprimidos, os explorados, os humilhados, os espezinhados, os massacrados serão louvados, porque são as vítimas. A compaixão humana sempre triunfa sobre a impiedade, embora as vítimas quase nunca triunfem sobre a crueldade dos tiranos criminosos.

A história condenará Estados Unidos e Israel e seus atuais governantes e renderá suas homenagens aos palestinos. Não ao Hamas, mas ao povo palestino. É o povo palestino que está sofrendo as piores aflições. O Deus de Moisés mandou que este voltasse para o Egito, libertasse os hebreus, pois eles estavam sofrendo terríveis aflições. Os palestinos de hoje são os hebreus antigos. Esperam um líder, um enviado de Deus, para que os liberte da tirania dos “faraós” de Tel Aviv e de Washington.

Ao voltar de Israel, onde foi dar apoio a Netanyahu para continuar a matança em Gaza, Biden pretendeu buscar legitimidade nos discursos fundacionais de John Winthrop. Trata-se de uma farsa: Os Estados Unidos não são mais uma cidade no alto da colina a espargir a luz da razão e da liberdade no mundo como uma lamparina. Despois da Segunda Guerra, os Estados Unidos começaram a pairar sobre o mundo como uma nuvem escura, ameaçadora da liberdade e da autodeterminação dos povos.

Agrediram o Vietnã, incendiaram inocentes, semearam fogo, mentiram para destruir o Iraque, invadiram o Afeganistão, derrubaram governos democráticos e apoiaram ditaduras. Nessas guerras todas, os Estados Unidos já foram sentenciados e condenados pela história. Além disso, foram derrotados e voltaram para casa com os ombros cobertos de vergonha. Não aprenderam essas lições da história e agora são o escudo da brutalidade praticada por Israel em Gaza.

Desde a criação do Estado de Israel, são o escudo para que Israel desobedeça as resoluções da ONU, viole as balizas originais das destinações de territórios. São o escudo para que os judeus ortodoxos roubem as terras dos palestinos, cometam massacres e deslocamentos desses deserdados da terra.

O conceito de “dois Estados” é uma mentira que vem sendo propagada há mais de 50 anos. Os judeus têm seu Estado e isto é correto. Mas por que, até hoje, os palestinos não têm o seu? Porque Israel e os Estados Unidos não querem.

Biden comparou o Hamas a Putin. Deveria ter comparado os Estados Unidos com a Rússia e Putin com Netanyahu. A guerra de Gaza não é uma guerra da barbárie contra a democracia. É uma guerra por terra e liberdade contra grileiros e opressores.

O secretário geral da ONU, António Guterres tem razão: o terrorismo do Hamas é injustificável, mas ele não vem do vácuo. A opressão imposta aos palestinos por Israel e os Estados Unidos é a causa dessa violência. Os palestinos, há mais de 50 anos, têm suas casas invadidas, suas terras roubadas, suas fontes tomadas. Não podem cultivar seus campos, colher os frutos de suas oliveiras, videiras e romãzeiras. Não podem ter paz, não podem sonhar com a paz, não podem criar seus filhos em paz, não podem sonhar com um futuro esperançoso. É neste terreno de sofrimentos e humilhações que germina o terrorismo.

É certo que as queixas do povo palestino não justificam a violência do Hamas. Mas também é certo que o terror do Hamas não justifica o terrorismo de Estado praticado por Israel contra a população civil de Gaza. Nem o discurso do extermino do Hamas pode encobrir o massacre dos palestinos. O holocausto ensejou a criação do Estado de Israel. Mas o holocausto não legitima a história de violência que o Estado de Israel desenvolve contra os palestinos. No fundo, Netanyahu e seus ministros radicais querem exterminar os palestinos. Já vocalizaram esta intenção várias vezes.

A destruição de hospitais, mesquitas, escolas, edifícios, bairros e cidades em Gaza precisa parar. Gaza já é um campo de concentração a céu aberto. Agora, os bombardeios impiedosos, estão transformando Gaza num grande cemitério a céu aberto. São milhões de pessoas sem comida, sem água, sem remédios.

Não podemos ficar indiferentes com o que está acontecendo em Gaza. Precisamos nos indignar e agir. Milhares de pessoas estão se manifestando pelo mundo em favor dos palestinos. O senso moral dessas pessoas e sua compaixão diante do sofrimento, dor e morte, mobilizam essas pessoas nas ruas. Querem o fim da matança e querem uma solução definitiva para a causa dos palestinos.

Só existem três medidas justas, neste momento, em relação à guerra em Gaza: a suspensão da matança, ajuda humanitária aos palestinos e a libertação dos reféns do Hamas. O resto vem depois. São medidas urgentes, desesperadas, capazes de impedir milhares de mortes. Mas Israel e os Estados Unidos não querem estas medidas. Sem escrúpulos morais, desprovidos de valores humanistas, a história os condenará.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

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Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

6 Comentários

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  1. O professor tem razão quanto ao julgamento dos Estados Unidos pela História, por qualquer pessoa que venha a se debruçar sobre os fatos em curso. Mas a meu ver engana-se quando diz que “Os judeus têm seu Estado e isto é correto.” O que algumas pessoas chamam de “Israel” não é e nunca foi um estado judeu, sempre foi e continua sendo – com evidências cada vez mais profundas – apenas uma base para os oligarcas imperialistas anglo-estadunidenses tentarem a colonização da região a que chamam de “Oriente Médio”. Será que o professor já se questionou sobre o fato de que tanto faz quem é o presidente da vez nos EUA que a política externa – e interna, até – daquele país muda apenas em cosmética, em narrativa? O dia em que não fizesse sentido a barbárie das invasões e conquistas haveria de chegar proporcionando civilidade aos povos, disso sempre se soube. E chegou. Não há mais sentido em tentar impor impérios já há algum tempo. O tempo das “Grandes Conquistas” está superado e morto pela aquisição da civilidade democrática. O tempo das concentrações de poder – como pretendem os oligarcas do dólar, pessoas que imperam sem serem votadas nos EUA, por exemplo – passou. Claro que esses oligarcas impõem barbárie às relações entre a gente comum justamente como forma de que a barbárie seja mantida. Mas talvez estejamos mais perto o que nunca do dia em que tal barbárie se volta contra justamente contra essa oligarquia, e vinda da pessoa comum. Num mundo conectado não há mais lugar para déspotas, esclarecidos ou não.

  2. Nos últimos cem anos, a única decisão correta da política externa americana, foi não se aliar a Hitler, mas flertaram com a idéia. Quanto aos judeus europeus, a reinvidicação para criação de um estado judeu era legítima mas este deveria ser no continente europeu, pois foi lá que eles sofreram a perseguição e quase aniquilamento. A transferência de RELIGIOSOS JUDEUS EUROPEUS alheios a palestina constitui uma das maiores aberrações históricas, pois foi com a usurpação das terras palestinas que o estado de Israel foi construido. Os judeus europeus foram perseguidos, trucidados e expropriados, mas os expertos europeus transferriram a pesada conta para os palestinos pagarem.

  3. Discordo. Não é possível falar em falência moral de um país que afunda na imoralidade desde que nasceu. Todas as políticas públicas adotadas pelo III Reich foram aplicadas primeiro nos EUA: esterilização de doentes mentais, confinamento e extermínio de contingentes populacionais indesejados, supressão de direitos por razões raciais. Dezenas de cidades históricas alemãs sem valor militar foram devastadas por bombas incendiárias “made in USA” durante a II Guerra Mundial. Duas cidades reduzidas a poeira contaminada por bombas atômicas no Japão. Nos anos 1950 a moral dos EUA foi sentida na Coreia, quando tropas norte-americano ajudaram os sul-coreanos a exterminar 350 mil nacionais que tinham parentes na Coreia do Norte. Nos anos 1960 foram sentidas no Vietnã, país em que a USAF despejou uma quantidade de bombas maior do que havia desejado na Alemanha. Há bem pouco tempo os gringos estavam exterminando civis no Iraque, Afeganistão e Paquistão. Os EUA não pode perder uma moral que nunca teve.

  4. Texto muito bonito, mas fantasioso e ingênuo. Quando a tempestade de bombas cessar, sobrarão oportunidades para as empresas americanas garantirem os contratos para reconstrução do que foi destruído. Quando as valas comuns de mulheres e crianças não forem mais visíveis, restará uma palavra a ser atrelada ao destino dos palestinos, aquela mesma que, até hoje, se aplica aos armênios:genocídio. E ninguém se lembrará deles, como não se lembram dos armênios. Pulo a parte dos generais e sua sede de sangue saciada; isso não existe. Assumirão alegremente a máscara de Adolf Eichmann, e dirão: eu apenas cumpria ordens. Quantos aos outros mencionados, sobrará o panegírico unânime dos que escreverão essa história, os vitoriosos, ou seja, eles mesmos.
    E quanto ao implacável juízo da História…ora, deem uma olhada no Panteão dos heróis da humanidade (da civilização cristã-ocidental, bem entendido), e lá encontrarão facínoras, assassinos em larga escala, escravistas, toda sorte de degenerado. Não vou citar nomes. Já fiz isso tantas vezes, aqui no GGN. Finalmente, a Sentença Moral. Sentenças são frequentemente compradas a peso de ouro, e a moral é talvez a mais não-universal das ideias humanas, ainda que se aplique (imponha, na verdade) em toda parte. Perguntem a Harry Truman o que ele achava de incinerar, em um segundo, homens, mulheres, velhos, crianças, animais, enfim, qualquer coisa viva que estivesse andando sobre a terra em Hiroshima e Nagasaki. Já sabem o que ele dirá. O tirano, o dominador, o explorador, o exterminador, o genocida, todos foram sentenciados pela Moral: mas ninguém os tirou do tal Panteão. Aos oprimidos, os explorados, os humilhados, os espezinhados, os massacrados, resta a crença – para aqueles que acreditam nas coisas do além – de que lá serão vindicados. Gostaria de acreditar nisso.
    A história condenará Estados Unidos e Israel e seus atuais governantes e renderá suas homenagens aos palestinos? Como fez com os armênios? Com as nações indígenas em toda a parte? A História do Mundo é a História do Livro de Josué: “Vai lá, passa a fio de espada tudo que estiver se movendo, homem, mulher, criança, animal, e tome posse”. Ou não?
    Os Estados Unidos nunca foram uma cidade no alto da colina a espargir a luz da razão e da liberdade no mundo como uma lamparina. Só o que eles espalham é a morte e a destruição. Vietnã, Iraque, Afeganistão, a lista é longuíssima. Sentenciados e condenados pela história, mas seguem fazendo a mesma coisa. Igualzinho ao que faz Israel, ignorando olimpicamente resolução após resolução da ONU. Sem que nada aconteça, nem a um, nem a outro.
    Um homem pode ser derrotado, não destruído, disse um dos meus heróis da juventude, Ernest Hemingway. Mas ele esqueceu de uma alternativa: o homem pode ser eliminado. A limpeza étnica, fria, distante, comandada por joysticks, se encarrega de eliminar o ser humano, o veículo do Espírito Humano, ou de sua consciência, expressão mais cara a mim. Ainda não é hora de cessar fogo contra o Hamas, diz o Biden. Claro; ainda restam alguns vivos. A gente para de atirar quando não houver ninguém mais rastejando. Ou quando os balanços da indústria bélica e da cadeia de produção da morte e da destruição exibirem números robustos; daí a gente para um pouquinho e começa a pensar na próxima rodada de lucros. Guerra dá lucro, guerra tem mercado. Antes, durante, e depois. Vamos a mais uma, então.

  5. O “piti” dos representantes de Israel ontem na ONU foi uma das coisas mais ridículas que já se viu naquele recinto, fazendo frente ao famigerado PowerPoint de Colin Powell contra as fictícias WMDs do Iraque. Houve tanta afetação na indignação que deu para sentir vergonha alheia desses “diplomatas” amadores e truculentos que mentem e distorcem sem nenhum pejo. Pareciam até Dudu Bananinha, o embaixapeiro, e Ernesto Araújo, o lunático, que felizmente estão agora bem distantes de nosso profissional e ponderado Itamaraty; já Israel com esse continuado governo de extrema-direita segue dando vexame e torrando a paciência do mundo.
    #StayGuterres

  6. Carta aos Missionários
    (Uns e Outros)

    Missionários de um mundo pagão
    Proliferando ódio e destruição
    Vêm dos quatro cantos da terra
    A morte, a discórdia a ganância e a guerra
    E a guerra

    Missionários e missões suicidas
    Crianças matando
    Crianças inimigas
    Generais de todas as nações
    Fardas bonitas condecorações
    Documentam na nossa história
    O seu rastro sujo de sangue e glória

    Vindo de todas as partes
    Indo pra lugar algum
    Assim caminha a raça humana
    Se devorando um a um
    Gritei para o horizonte
    Ele não me respondeu
    Então fechei os olhos, sua voz
    Assim me bateu

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