10 de junho de 2026

O STF e os guardas da porta do presídio, por Luís Nassif

Se CNJ e CNMP não enfrentarem os desafios no horizonte, desaparecerá o último bastião institucional: a hierarquia no Judiciário

Até o impeachment o Supremo Tribunal Federal (STF) conseguiu reescrever a Constituição, instituindo um parlamentarismo capenga: o presidente poderia ser impichado, sem crime de responsabilidade, e não teria o recurso do parlamentarismo, de poder dissolver o parlamento e convocar novas eleições.

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Quando ficou claro a conspiração de Bolsonaro, mudou de posição e se transformou em âncora da democracia – com Alexandre de Moraes na linha de frente.

Agora, para preservar a credibilidade, são necessárias duas medidas:

1. Não aceitar mais o jabá das viagens internacionais. É humilhante para o país ver a mais relevante de suas instituições aceitando viagens internacionais, para encontros fechados com grandes lobistas.

2. Definir mais claramente o conceito de segurança nacional.

Ao se colocar contra o Ato Institucional número 5, Pedro Aleixo dizia que sua preocupação era o guarda na porta do presídio. Ao investir contra as Fakenews, Alexandre de Moraes permitiu os guardas de porta de presídio, na forma de promotores e juízes sem limites.

Uma das grandes ameaças à democracia continua sendo a apropriação do poder político pelo Judiciário. O próprio avanço do PCC nas prefeituras está se fazendo ao largo da fiscalização que deveria ser feita pelos promotores estaduais.

A prisão do jornalista

Nos últimos dias, houve um episódio que deixou claro o efeito “guarda de presídio” na Justiça. No caso, a atuação do promotor Flávio Falcão e da juiza Andréa Callado da Cruz, ambas da justiça de Pernambuco.

Andréa – com um histórico de abusos registrado pela imprensa local – ordenou a prisão do jornalista Ricardo Antunes, por denúncias feitas contra o promotor Flávio Falcão. Antunes é jornalista polêmico. Mas o episódio em si transcende os seus personagens e entra no campo dos abusos.

O início da pendenga foi no final do ano de 2021. A legislação da ilha de Fernando de Noronha determina que, para requerer a concessão de lote próprio, o Termo de Permissão de Uso para Imóvel  (TPU), o morador precisa ser residente permanente há pelo menos 10 anos. O decreto foi assinado pelo administrador da ilha atendendo às recomendações do Ministério Público, representado pelo promotor Flávio Roberto Falcão.

Pouco mais de 4 meses após a assinatura do decreto, o promotor Flávio requereu uma TPU, em nome do Ministério Público de Pernambuco. A instituição já tinha um lote na ilha, mas sem construção por falta de recursos orçamentários. Flávio solicitava um segundo para ele e sua família, a ser construído com recursos próprios. 

O MP não atua de forma permanente no Distrito, por isso cada procurador tem um espaço no Fórum para atuação provisória, pois o padrão é uma visita por mês com duração de 7 dias.

Além disso, cada promotor tem mandato de dois anos para os trabalhos na ilha e Flávio já estava no final do segundo ano.

Com a denúncia, o promotor desistiu do terreno. “De qualquer modo, devido a tão somente o desconforto gerado para esta sociedade que foi levada a uma interpretação distorcida, vez que tudo foi feito absolutamente com base na lei, informo que em respeito aos senhores solicitei ao digno administrador (Guilherme Cavalcanti) desse Distrito que desconsidere a minha solicitação” (https://tinyl.io/AhZk)

O promotor já tinha um histórico virulento em relação à imprensa. A blogueira e procuradora do Município de Recife, Noelia Brito, teve seu salário penhorado, a pedido do promotor, numa ação de danos morais. O motivo foi uma nota de Noelia sobre  um depoimento de um amigo de Flávio Falcão à Polícia Federal, em que um ex-Secretário de Jaboatão, amigo do promotor, revelava que havia sido alertado por ele das investigações da PF. 

Considere-se que Fernando de Noronha está sendo totalmente descaracterizada, com o comércio de terras que atropelou as normas internas da ilha.

Primeiro, a juíza Andrea da Cruz ordenou a retirada imediata de todos os artigos que mencionavam o promotor. Depois, seguiu-se uma ação de calúnia e difamação. Na semana passada, deveria haver uma oitiva, para instruir o processo. A juíza ordenou, então, a prisão e a condução coercitiva do jornalista. Como estava na Espanha, livrou-se da prisão. Mas não conseguiu um habeas corpus do desembargador de plantão – que se declarou “impedido”, sem dar as razões -, nem de seu substituto.

Pode ser coincidência, mas Antunes foi responsável pela notícia de que o presidente do Tribunal de Justiça pretendia criar uma calçada da fama – tema que foi alvo de galhofa no Brasil inteiro.

Agora, a juiza ordenou que o portal fosse retirado do ar.

Um histórico de abusos

Em 2014, a subseccional OAB de Vitória do Santo Antão entrou com uma representação contra a juíza junto ao CNJ, acusando-a de manipulação na distribuição das ações no fórum.

Segundo o noticiário da OAB:

De acordo com o presidente da OAB de Vitória de Santo Antão, Washington Luís Macêdo de Amorim, a distribuição de processos entre as duas varas instaladas na cidade deveria ser feita por meio de sorteio e não da forma impositiva que a juíza Andréa Calado da Cruz vem determinando, sem amparo legal. No caso concreto noticiado pela OAB, a serventuária da justiça se negou a realizar a distribuição dirigida para a juíza, com base em orientação do Juiz Diretor do Foro, mas foi coagida moralmente pela magistrada a proceder de forma irregular.

Ela foi acusada também de favorecer um casal americano em um processo de adoção irregular (https://tinyl.io/AhaF)

Em 15 de janeiro de 2014, o Diário de Pernambuco divulgou alguns episódios demonstrando a virulência da juíza.

  • Teria concedido a guarda provisória de uma criança de um ano a um casal, formado por um piloto norte-americano e uma esteticista carioca, sem respeitar a fila de espera do Cadastro Nacional de Adoção
  • Foi acusada de abuso de poder ao mandar prender a mãe de um adolescente que estava apreendido e conseguiria a liberdade em 31 de julho de 2013
  • Teria permitido a presença de policiais militares de sua escolta em audiências que corriam em segredo de Justiça
  • Foi acusada de ordenar que funcionários da Vara da Infância e Juventude de Olinda fizessem uma cota para cobrir um valor em dinheiro que havia sumido da sala, sob pena de avaliar negativamente o desempenho dos funcionários
  • Teria entregue uma vassoura a uma funcionária da mesma vara para que ela limpasse a secretaria do Fórum de Vitória de Santo Antão, onde a  magistrada também presta serviços.

É mais um desafio para o Conselho Nacional de Justiça e para o Conselho Nacional do Ministério Público. Está sendo criado um monstro nas entranhas dos dois poderes. Se não for enfrentado rapidamente, desaparecerá o último bastião institucional do país: a hierarquia no poder Judiciário.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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10 Comentários
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  1. Marcus

    30 de abril de 2024 7:16 am

    Penso que um magistrado que age de maneira contrária às leis, está traindo a nação e a Constituição. Devem ser tratados como traidores e assim devem ser julgados.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    30 de abril de 2024 7:35 am

    O problema é sempre o mesmo, Nassif: pequenos abusos tolerados pelo CNJ sempre resultam em grandes abusos praticados de maneira sistemática pelos juízes.
    Eu já protocolei dezenas de representações no CNJ por causa de pequenos abusos praticados por juízes. Todos foram arquivados de uma maneira ou de outra com base em desculpas esfarrapadas e o corregedor, famoso por fundar no cangote da Lava Jato, me representou na OAB/DF porque eu disse num recurso que a vagabundagem do juiz que arquivou um Mandado de Segurança em que ele mesmo era a autoridade coatora ao invez de mandar distribui-lo como deveria ter feito. Num outro caso recente o CNJ arquivou representação feita contra uma juíza assessora do Corregedor do TJSP e do mesmo. Ela mentiu sobre um fato para poder opinar pelo arquivamento de minha representação na corregedoria do TJSP e o caso foi arquivado aqui. O CNJ preferiu ignorar a MENTIRA que consta do parecer como se o ato administrativo (o parecer) não precisasse corresponder à verdade do que estava ocorrendo. Tudo isso aconteceu porque um juiz precisava ser protegido. Não estranha o comportamento abusivo e potencialmente criminoso dessa juíza que mandou prender o jornalista por praticar jornalismo revogando a liberdade de imprensa prescrita na constituição. Todos os pequenos abusos que ela cometeu no passado foram perdoados, então ela se sente tranquila para fazer o que bem entende como se a legalidade não existisse ou emanasse da pessoa dela. Semana passada fui intimado da decisão de um juiz que revogou um ato abusivo no processo. Ele ameaçou arquivar o caso antes do meu cliente receber o saldo que está sendo executado e eu tive que ameaçar responsabiliza-lo pessoalmente pelo dano material e moral que ele causaria ao cidadão jurisdicionado. Mas eu não sou tolo, se ele cumprisse a ameaça e eu realmente entrasse com o processo a solução do novo caso seria a indenização do meu cliente pelo Estado sem qualquer prejuízo patrimônial para o juiz que causou o dano. A irresponsabilidade dos juízes pelos atos abusivos, ilegais e criminosos que eles praticam é lamentável, um risco para a democracia (como ficou bem claro no caso da Lava Jato). Esse é o ponto aqui. Eu sou advogado desde 1990 e confesso já estou começando a ficar cansado dessa merda toda. Talvez seja melhor plantar banana em Eldorado ou quem sabe cobrar comissão para lavar dinheiro para as quadrilhas de juízes que recebem propinas.

  3. JOTAAAPONTOOOMARCELOOO

    30 de abril de 2024 8:58 am

    Nassifâo me vêm a mente o símbolo da “Justissa”na minha ignorância é uma balança dando a entender q é equilibrada,aí entra o ego das pessoas e desequilibra td acredito q é o mesmo tipo se sentimento e ação q fazia os donos de escravos se sentirem os todos poderosos em cima dos seres humanos negros,np jornalismo tb acontece isso as PESSOAS ES TÃO SEM ÉTICA E MORAL e depois ainda denunciam e cobram os outros tá uma putaria mesmo(desculpe a palavra)Obs.:Excelentíssimo 78 vá viver em outro País e será tratado como rei COMO SEMPRE FOI TRATADO LÁ FORA deixe o caos dominar aqui Obs2.:Observação sem ética e moral nenhuma !!!

    1. fabricio coyote

      30 de abril de 2024 12:01 pm

      globo usa censura

      http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2012/08/11/dias-toffoli-ministro-do-stf-me-agride-com-palavroes-baixarias-459803.asp

      se não não pode barganhar

  4. Arthemisia

    30 de abril de 2024 9:34 am

    O caso da adoção é verídico, assim como assédio moral permanente de servidores. O TJPE protege a juíza de tudo.

  5. fabricio coyote

    30 de abril de 2024 11:45 am

    O CNJ é uma excrescência pensada por gilmar mendes, que o incorporou via emenda constitucional somente para ser mais um penduricalho para ministros do supremo, pois ganham gratificação por exercício na função. Se esse país fosse sério, a própria Carta Política já dava o antídoto contras os malefícios de maus funcionários públicos. Um dos proponentes do ministério público, sepulveda pertence, disse certa vez que criara um monstro, em alusão ao ministério público que tem função não somente persecutória, mas como fiscal da lei. A globo percebeu que se cavalgasse o ego de juízes e promotores, conseguiria fazer o que quisesse com essa assertiva da Constituição do art. 5º XXXVI – a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. A partir desse dispositivo, mesmo uma injustiça torna-se direito. Imagine o que não se passou até hoje? Para se ter uma ideia de como a justiça é a mesma de sempre, Millôr Fernandes, Filósofo que dizia da nossa imprensa: “A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime”. Extrai-se de texto de Millôr http://memorialdademocracia.com.br/publico/image/7924

    […] Num país em que “grupos de governo” decidem, arbitrária e definitivamente, por cada setor que dominam, num país em que o judiciário brinca de justiça pois não se pode acreditar numa justiça sem o mínimo dos direitos que é o habeas corpus, num país em que publicações como <>, <>, <>, <> continuam a ser editados pela ignorância, pelo tédio, e até pelo ódio pessoal dos censores […]

    Ou seja, o discurso de ódio é fruto dessa imprensa que avacalha sempre o Povo e Políticos sérios. E a nossa justiça que tem por condão negar habeas corpus, remédio constitucional com o qual negociam, não pode dar certo.

    1. fabricio coyote

      30 de abril de 2024 3:22 pm

      *onde consta , , , refere-se, respectivamente, a Tribuna de Imprensa, Veja, Opinião, O São Paulo

    2. fabricio coyote

      30 de abril de 2024 3:23 pm

      onde consta <>, <>, <>, <>, refere-se, respectivamente a ribuna de Imprensa, Veja, Opinião, O São Paulo

  6. Cidadão sem cidadania

    1 de maio de 2024 11:41 pm

    O guarda hoje é literal

    O senhor Aleixo foi profético, disse, o problema de uma lei dessa nao é o senhor, nem os que o senhor governa o país, o problema é o guarda da esquina.
    Hoje essa frase é literal o guarda da esquina está em todos os lugares literalmente , precisamos falar sobre o guarda municipal que está agindo como uma polícia militar e nao sendo policia, Lula deixou solta Dilma fez a lei do guarda sem nenhuma necessidade ja tínhamos policia civil e militar e nao precisamos de outra polícia, ou Lula coloca o guarda municipal conforme a lei ou ou seja cuida do patrimônio ou sera mais uma força armada a serviço do autoritarismo, hoje onde se vai o guardas estão soltos, hoje reclamar num hospital nao pode mais pq tem autoridade batendo no peito que a lei protege eles afinal sao funcionários públicos, nao é só juiz ou promotor, hoje nao se pode mais sentar numa praça a noite que ja vem um guarda municipal querendo dar geral, Lula está deixando criar um monstro , o STJ ja falou que guarda municipal nao é policia mas nao está valendo nada.
    Hoje se liga pra policia e estranhamente vem um guarda municipal, ou Lula colocar esse gênio dentro da garrafa ou será tarde,a associação de guardas fez pressão e Dilma fez o estatuto dos guardas, só no Brasil uma associação faz pressão querendo virar polícia.

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