
No palco do teatro do BNDES, com todos os lugares tomados pela emoção, a representante das Mães da Praça de Maio fala com voz firme. Lembra de todos os abusos cometidos pelo mal maior, os Estados Unidos e os golpes militares que estimuloux, os massacres, a tortura na Argentina, no Brasil, no Chile, os embargos na Venezuela e em Cuba e, agora, o endosso ao genocídio de Gaza.
Vai tecendo um fio lógico até chegar ao homenageado do encontro, o pianista Tenório Jr., assassinado pela ditadura argentina em 1976, a propósito de nada. Saiu do hotel para comprar uma aspirina. Buenos Aires estava em plena efervescência, nas vésperas do golpe sangrento que vitimou milhares de argentinos. Sabe-se lá porque foi morto. Por que era barbudo? Por que era brasileiro?
Agora, no palco do BNDES um evento saúda a descoberta do seu paradeiro, graças a uma impressão digital colhida no momento em que foi detido, ou que seu corpo foi levado a uma delegacia. Foi um caso raro. Em geral, despachavam-se os corpos sem nenhuma identificação.
Isso permitiu à Comissão de Mortos e Desaparecidos da Argentina entrar em contato com sua congênere brasileira, e comunicar a descoberta do seu paradeiro.
Na platéia, os filhos sobreviventes e seus netos assistiam o evento. O caçula dos filhos jamais conheceu o pai, que foi assassinado antes de ele nascer. Mas o fantasma de um cadáver insepulto pairou sobre toda a família, sobre a viúva, que criou sozinha os cinco filhos.
Coube a dois netos, adolescentes, lerem com voz embargada o que significava o reencontro com sua história, com sua identidade. No palco, nas cadeiras reservadas aos personagens principais, o perito argentino, responsável pela identificação, não escondia sua emoção.
Na primeira fila, o rosto de Vera Paiva, incansável batalhadora, filha de Rubens Paiva, era a expressão máxima da emoção que atingia todos os presentes.

Na abertura do encontro, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, recordou a luta que ambos – ele e Vera -, ainda estudantes da USP, travaram contra a ditadura, especialmente após o desaparecimento do estudante Alexandre Vanucchi Leme, morto pela repressão.
Em cima dessas lembranças, da fala das Mães da Praça de Maio – as mulheres argentinas que se organizaram para recuperar os filhos dos mortos pelas ditaduras, distribuídos a famílias de seus opressores – percebia-se como a vida foi banalizada, como os direitos foram suspensos.
Depois dos discursos, o momento mágico do encontro, quando velhos guerreiros, Caetano, Gil e Joyce – como Charles Laughton em Testemunha de Acusação, saíram do descanso, pegaram suas armas, os violões, e voltaram à luta pela democracia.
Vivemos um momento raro, de redescoberta do Brasil, de renascimento da luta pelos direitos. Que essa emoção sobreviva a 2026 e se possa pensar, a partir dali, da reconstrução de um país, destruído por vinte anos de um pacto suicida, que levou à Lava Jato, que contaminou toda a imprensa, que envenenou a opinião pública, abatendo em pleno vôo uma Nação que parecia ter-se reencontrado com sua história.
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