10 de junho de 2026

7 de outubro na geopolítica palestina, por Francisco Ladeira

Não é mais possível ocultar a realidade local: um genocídio. Aliás, um crime contra a humanidade que não começou em 7 de outubro de 2023
Durante e após a guerra árabe-israelense de 1948, estima-se que cerca de 700 mil palestinos tenham fugido ou sido forçados a deixar suas casas. Foto: Eldan David/Pressebüro der Regierung Israels/picture alliance /dpa

7 de outubro na geopolítica palestina: sentidos e consequências

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por Francisco Fernandes Ladeira

Há exatos dois anos, no dia 7 de outubro, o Hamas protagonizou a histórica “Operação Dilúvio de Al-Aqsa”. Pela primeira vez, grupos da resistência palestina romperam o cerco colonial à Faixa de Gaza e conduziram ofensivas dentro do território israelense. Do ponto de vista palestino, este acontecimento simbolizou, ainda que temporariamente, uma retomada simbólica das terras das quais seus antepassados foram expulsos pelos invasores sionistas.

A reação de Israel, por outro lado, foi extremamente desproporcional, caracterizada pela prática de punição coletiva, fazendo toda a população civil de Gaza sofrer as consequências do que Tel Aviv classificou como “ataque terrorista”. O saldo dessa investida são, até o momento, quase 70 mim óbitos – embora estimativas da Revista Lancet apontem para até quatro vezes mais. Não por acaso, uma Comissão de Inquérito independente da ONU afirmou haver “evidências claras” de que as ações de Israel em Gaza configuram o crime de genocídio, ou seja, intenção de eliminar o povo palestino.

Conforme se espera de toda análise geopolítica, para compreender um foco de tensão, é necessário, inicialmente, conhecer o seu processo de constituição. Essa etapa é fundamental porque, ao resgatar sua história, recuperam-se as razões de sua existência, as transformações pelas quais passou ao longo do tempo, os sujeitos envolvidos e os efeitos por ele produzidos, intencionais ou não. Desse modo, ao estabelecer conexões históricas, pode-se definir com mais clareza o caminho percorrido e os porquês de determinado foco de tensão.

No caso da geopolítica palestina, essa compreensão requer a descrição das principais características do movimento sionista, responsável por grandes ondas de migração judaica da Europa para a Palestina na virada do século XIX para o XX, o que deu início aos primeiros antagonismos entre a população autóctone e os recém-chegados europeus.

Ao contrário do que apregoavam seus ideólogos, o sionismo não consistia em um movimento de libertação nacional do povo judeu, mas sim em um projeto colonial, cujo objetivo era substituir o povo autóctone da Palestina por uma população europeia de cultura judaica. Portanto, os palestinos, sob jugo colonial e amparados pelo princípio de autodeterminação dos povos, têm o direito de se rebelar contra a invasão sionista, independentemente dos meios utilizados. Nesse sentido, a Operação Dilúvio de Al-Aqsa não foi uma “ação terrorista” – como tentam impor os discursos da mídia ocidental –, mas uma reação dos colonizados contra os colonizadores.

Não por acaso, logo após o 7 de outubro, mesmo setores progressistas, por desconhecerem a história palestina, compraram essa versão midiática, condenando o povo palestino e se solidarizando com os opressores sionistas. Na época, um conhecido nome da esquerda brasileira, candidato a prefeito de uma grande metrópole, ao ser questionado sobre a (certeira) comparação feita por Lula entre Israel e o nazismo, respondeu de maneira enfática: “Não sou candidato a prefeito em Tel Aviv”.

Por outro lado, a significativa repercussão da Operação Dilúvio de Al-Aqsa, somada à reação desproporcional de Israel, levou a questão palestina definitivamente para o topo do debate público global. Diferentemente de outros contextos informacionais, as notícias que chegam do Oriente Médio não partem exclusivamente dos grupos de comunicação hegemônicos, mas também da imprensa progressista e, sobretudo, dos próprios moradores de Gaza.

Desse modo, não é mais possível ocultar a realidade local: um genocídio. Aliás, um crime contra a humanidade que não começou em 7 de outubro de 2023; remete, pelo menos, ao final da década de 1940, quando Israel, para assegurar uma maioria demográfica por ocasião de sua independência, promoveu a expulsão de mais de 700 mil palestinos de suas terras – evento conhecido como Nakba (“tragédia” ou “catástrofe”, em árabe). E isso sem mencionar os inúmeros massacres promovidos contra vilas palestinas.

Se compreender a historicidade da geopolítica palestina nos impede de ser reféns do enquadramento midiático pró-Israel, também nos conduz, por outro lado, a uma postura cética em relação ao “plano de paz” proposto por Donald Trump. Em primeiro lugar, qualquer iniciativa da Casa Branca não representará uma concessão ao povo palestino. Em segundo, os israelenses jamais cogitaram dividir a Palestina com seus habitantes originários.

Os sionistas só aceitaram a sugestão de partilha da Palestina feita pela ONU em 1947 porque enxergaram na resolução uma oportunidade inicial para dominar toda a região. Em 1967, esse projeto expansionista foi concretizado. Para os sionistas revisionistas, no entanto, o objetivo é ainda mais ambicioso: reconstituir a (suposta) Grande Israel – do Rio Tigre ao Nilo.

Como todo Estado inerentemente belicista, Israel compreende apenas a linguagem da força. Seus ímpetos expansionistas não cessarão por vontade própria. Assim como o nazismo – seu análogo histórico –, que só foi detido pelo poderio militar, o projeto sionista, no horizonte previsível, infelizmente não parece destinado ao mesmo fim.

Em contrapartida, o povo palestino permanece como um símbolo máximo de resistência. O grito “Palestina livre!” transcende a mera retórica: pela sua dimensão universal, se consagrou como a causa que unifica todos os povos oprimidos do planeta.

***

Francisco Fernandes Ladeira é professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Emó Editora)

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