24 de junho de 2026

Stablecoins podem sustentar a hegemonia do dólar?

Lei proposta por Trump promete impulsionar moedas digitais ligadas ao dólar, mas especialistas alertam para eventuais riscos
Foto de Traxer na Unsplash

A influência global do dólar continua em debate entre analistas e economistas, muito por conta do aumento da dívida pública dos Estados Unidos, a politização do Federal Reserve e o uso da moeda norte-americana como arma de política externa.

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Em meio a tal conjuntura, o governo de Donald Trump coloca nas stablecoins (criptomoedas atreladas ao valor do dólar) uma alternativa para manter sua hegemonia.

Em artigo publicado no Project Syndicate, o economista Barry Eichengreen afirma que a chamada Genius Act, sancionada pelo governo em julho, abre caminho para que empresas privadas emitam suas próprias versões digitais do dólar, com autorização do Tesouro e de órgãos reguladores.

Os defensores da proposta dizem que isso viabilizaria o desenvolvimento de uma rede de pagamentos mais eficiente, além de reforçar a presença do dólar no mercado internacional, uma vez que 99% das stablecoins existentes estão atreladas à moeda americana. Contudo, as suposições por trás dessa aposta são frágeis.

Incertezas

Segundo Eichengreen, o primeiro ponto a se avaliar é a falta de garantias de que as moedas digitais mantenham paridade estável com o dólar, nem de que governos estrangeiros permitirão seu uso livre dentro de suas fronteiras.

Países preocupados com fuga de capitais, evasão fiscal ou perda de controle monetário tendem a restringir tais transações. Um exemplo é a União Europeia, que já apontou a não conformidade da Tether — maior stablecoin do mercado — com o regulamento MiCA, voltado à proteção do consumidor e à integridade financeira.

A China, por sua vez, prepara o lançamento de stablecoins vinculadas ao yuan em Hong Kong, o que cria uma concorrência direta ao projeto americano.

Outro fator é a corrida mundial por moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs). Mais de 100 países desenvolvem seus próprios sistemas, com respaldo institucional e garantia de conversão em dinheiro oficial, algo que não acontece nos EUA por conta do lobby do cripto e da desconfiança com relação aos bancos centrais.

Eichengreen lembra que, ao se analisar o contexto histórico, o dinheiro estatal tende a prevalecer sobre iniciativas privadas. Assim, apostar em stablecoins como pilar da hegemonia do dólar, portanto, pode ser um equívoco — mais ideológico que econômico.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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