
Nobels Fredspris
por Felipe Bueno
Raciocinemos, pois. María Corina Machado é anunciada como vencedora de 2025 do Prêmio Nobel da Paz. Sua vitória, ao contrário da pleiteada por Donald Trump – com respaldo de Bibi Netanyahu – faz sentido de acordo com a hermenêutica da alma do criador da dinamite segundo os responsáveis pela fundação que leva seu nome. Coragem e integridade foram palavras que lemos e ouvimos nas últimas horas para justificar o resultado.
Certamente não faltou coragem a María Corina: lutou pelos seus ideais num cenário claramente anti-democrático e hostil à sua própria existência. Mas o mundo não é tão simples de se entender – muito menos a Venezuela e ainda menos os seres humanos. Quando pensamos que a grande referência dos venezuelanos em busca do retorno à normalidade tem uma visão de mundo que permite demonstrar publicamente seus afetos por Marco Rubio e Donald Trump, fica a sensação de que, no fim das contas, democracia e liberdade são duas subjetividades – as minhas são as únicas que importam.
Muitas pessoas e instituições têm sido agraciadas com o Nobel da Paz. O alcance prático e midiático de seus feitos é variado, mas a realpolitik é um elemento constante. O Nobel não é espaço para sonhadores. “Martin Luther King já recebeu o prêmio”, você pode me dizer a essa altura; “Henry Kissinger também”, eu responderia.
Pessoalmente espero que a notícia do prêmio e sua repercussão façam com que María Corina saia do silêncio e da obscuridade. Por causa dos inevitáveis filtros de dentro e de fora da Venezuela que distorcem a realidade, devemos admitir que sabemos sobre ela e sobre seu pensamento muito menos do que devemos e desejamos. Qual seria seu projeto para a Venezuela pós-Maduro? Supondo que o Nobel tem significado para todo o planeta, perguntemos também quais seriam suas recomendações para encerrar os inúmeros conflitos espalhados pela Terra. Parafraseando os próprios dizeres da Fundação, que trabalho ela fez ou pode fazer pela fraternidade entre as nações?
A vitória de María Corina, mais que de um nome, é de uma visão de mundo sobre outra. Talvez nenhuma das duas, nem a vencedora nem a derrotada, sejam soluções para a crise que estamos vivendo.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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