11 de junho de 2026

Netanyahu e a Política do Medo, por Maria Luiza Falcão

A segurança transformou-se em justificativa para o autoritarismo, e a defesa nacional, em escudo para a impunidade.
World Economic Forum - Creative Commons - Flickr

Netanyahu e a Política do Medo: Como a Guerra Salvou um Primeiro-Ministro à Beira do Colapso

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Maria Luiza Falcão Silva

Antes da Guerra: o líder em queda livre

Pouco tempo antes da nova escalada militar contra os palestinos de Gaza, Benjamin Netanyahu era um homem politicamente acabado. Sua popularidade desabava, as ruas de Tel Aviv e Jerusalém se enchiam de manifestantes contra a reforma judicial e o governo se fragmentava entre facções ultranacionalistas e setores religiosos radicais. O premier israelense — o mais longevo da história do país — parecia caminhar para um fim melancólico, corroído por acusações de corrupção, ineficiência administrativa e pelo cansaço de uma população exaurida após anos de polarização.

Pesquisas de opinião apontavam um Likud  (em hebraico, “União”), principal partido de direita de Israel — conservador, nacionalista e pró-mercado, fundado em 1973 por Menachem Begin (líder do antigo movimento sionista revisionista) e Ariel Sharon — enfraquecido e uma sociedade dividida. Entre os judeus seculares — que formam o núcleo urbano e mais liberal do eleitorado — apenas um em cada cinco declarava apoio ao primeiro-ministro. Havia mesmo rumores de uma renúncia forçada ou de novas eleições, nas quais Netanyahu dificilmente resistiria. O “Bibi” de outrora, símbolo de estabilidade e segurança, tornara-se sinônimo de crise.

Esse era o cenário: um governante acuado, um governo contestado, um país exausto. E então, como tantas vezes na história, a guerra chegou — e mudou tudo.

O Efeito de Guerra: sobrevivência política à custa da tragédia

A deflagração de uma nova ofensiva militar contra o Hamas e o Hezbollah, seguida pelos ataques ao Irã, criou o ambiente perfeito para a reconfiguração do poder em Israel. O que antes era uma disputa doméstica em torno da corrupção e da erosão democrática transformou-se em uma cruzada pela sobrevivência nacional.

O chamado “efeito de chefe em guerra” — fenômeno conhecido pela ciência política — opera quase como um reflexo coletivo: quando o país se sente ameaçado, o povo se volta para o líder que promete força e segurança. Netanyahu soube explorar essa pulsão com maestria. Apresentou-se como o único capaz de defender Israel diante de inimigos “existenciais”, silenciou parte da oposição sob o peso da retórica patriótica e monopolizou as decisões estratégicas com um discurso de “não há alternativa”.

A guerra, em suma, devolveu a ele o controle da narrativa. As imagens de tanques e bombardeios substituíram as manchetes sobre seus processos judiciais. As críticas internas — inclusive de setores liberais judeus e da diáspora — foram temporariamente abafadas por uma avalanche de apelos à unidade. O medo se tornou capital político.

Pesquisas recentes mostram que o Likud recuperou assentos no Parlamento e que mais de 80% dos israelenses apoiaram os ataques contra o Irã em junho de 2025. A mesma sociedade que há pouco tempo clamava por sua saída, agora o vê como “comandante supremo” em tempos de ameaça. É um padrão conhecido: o líder em guerra ganha fôlego — mesmo que seja ele próprio quem tenha contribuído para o conflito.

O Futuro Incerto: quando o medo deixa de unir

Mas todo “efeito de guerra” tem prazo de validade. Quando as bombas cessam, a realidade volta. E Israel enfrenta um abismo: milhares de mortos na guerra, um isolamento internacional crescente e um rastro de destruição moral. O mesmo Netanyahu que sobrevive politicamente, arrisca-se a ser lembrado como o homem que sacrificou a paz e a democracia em nome da própria sobrevivência.

A guerra o salvou, sim — mas ao custo de aprofundar a divisão entre israelenses e palestinos, e entre Israel e o resto do mundo. Para muitos judeus progressistas, inclusive dentro e fora do país, o preço é alto demais: a segurança transformou-se em justificativa para o autoritarismo, e a defesa nacional, em escudo para a impunidade.

O Cessar-Fogo no Egito: o narcisismo no palco e a ausência calculada

A assinatura do cessar-fogo, ocorrida hoje no Cairo sob os olhos de mais de vinte chefes de Estado e de governo — entre eles Emmanuel Macron, e os primeiros-ministros da Itália, do Reino Unido e da Alemanha — revelou o novo teatro da geopolítica. No centro, Donald Trump discursava com seu habitual tom messiânico, reivindicando para si o mérito pelo fim da guerra. À sua direita, o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi; à esquerda, o emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani — dois aliados históricos dos Estados Unidos, agora convertidos em fiadores de uma paz precária.

O simbolismo é eloquente. O Egito, guardião tradicional da mediação no Oriente Médio, busca preservar sua relevância diplomática. Já o Catar, que abriga a maior base militar norte-americana na região, tornou-se peça-chave apenas depois que foi alvo direto de um ataque. Só então Trump — pressionado pelo Pentágono e pela opinião pública — decidiu se empenhar pessoalmente no acordo. O gesto revela menos um compromisso com a paz do que uma tentativa de apagar a percepção de que sua política de “máximo confronto” havia fracassado.

Mas o dado mais eloquente da cerimônia foi a ausência de Israel. Netanyahu recusou o convite alegando que o encontro coincidia com um feriado judaico — uma justificativa protocolar para uma escolha essencialmente política. Ao não comparecer, o premier evita partilhar os créditos da paz e preserva a imagem de “comandante em guerra”. Ele não quer ser visto assinando acordos, mas conduzindo batalhas. A sua legitimidade depende do conflito; a paz, para ele, é ameaça.

A história não é generosa com líderes que confundem poder com destino. Netanyahu e Trump compartilham uma mesma crença: a de que a política é uma guerra sem fim, onde o ego substitui a empatia e o cálculo apaga a compaixão. Hoje, no Egito, sob aplausos diplomáticos e câmeras do mundo todo, um celebra a “paz” e o outro se refugia na “tradição”. Nenhum parece disposto a renunciar àquilo que os mantém vivos: o espetáculo do medo.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).Mariana Nascimento – Analista Ambiental licenciada do Ministério do Meio Ambiente e faz mestrado em Assuntos Internacionais, com ênfase em Mudanças Climáticas e Energia, na Universidade de Nova Iorque.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados