5 de junho de 2026

Dia do Professor: entre a valorização simbólica e os ataques concretos, por Rafael Felacio

A extrema-direita brasileira atua de forma agressiva e ruidosa, promovendo ataques diretos aos professores.
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Dia do Professor: entre a valorização simbólica e os ataques concretos

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por Rafael Matos Felacio

O Dia do Professor, celebrado no Brasil em 15 de outubro, é um uma data simbólica que realmente devemos sempre comemorar e deve ser de fato feriado nacional. Aliás, penso que poderia ser em dose dupla ou, quem sabe umas doses noturnas de alegrias (rsrsrs), para compensar as noites de correções de provas, estudos e organização das avaliações. Ora, não se forma um bom professor sem vivencias sociais (rsrs). É claro que sempre irei festejar e comemorar o dia que representa a profissão que escolhi e sigo buscando exercê-la da melhor forma que possa. Sempre buscando estudar cada vez mais e oferecer o melhor que posso para meus alunos e alunas. É claro que muitas vezes não é possível por vários fatores. Mas, sempre tentarei. 

De toda sorte, os dias dos professores deveria ser um momento de reconhecimento e valorização de uma das profissões mais essenciais para o desenvolvimento humano e social. No entanto, é categórico e imperativo afirmar o que se vê, especialmente nas últimas décadas. Mesmo diante de tanta luta dos professores – alguns avanços é claro, temos um cenário de desvalorização estrutural, agravado por políticas neoliberais, ora mais agressivas, ora menos agressivas, e por uma crescente hostilidade promovida por setores da extrema-direita, que têm transformado os professores em alvos de perseguição ideológica.

Esse cenário, desde o final dos anos 1980, com a ascensão das políticas neoliberais no Brasil e em outros países da América Latina, a educação passou a ser vista não mais como um direito social universal, mas como um serviço, sujeito às lógicas de mercado, eficiência e competitividade. Nesse contexto, a função do Estado como garantidor de direitos sociais, inclusive da educação pública de qualidade, foi progressivamente sendo desmontada, seja na Educação Básica ou no Ensino Superior. O discurso da responsabilização individual (culpa sempre do professor (a), típico do neoliberalismo, começou a colocar sobre os professores o peso do fracasso escolar e do desenvolvimento cientifico do país, ignorando as desigualdades estruturais que impedem o pleno acesso e permanência dos estudantes nas escolas e universidades. Os efeitos disso sobre a profissão são visíveis: salários baixos e congelados, muitas vezes abaixo do piso nacional. Sobrecarregamento de trabalho, com múltiplos vínculos e jornadas extenuantes. Falta de infraestrutura e condições básicas para o ensino. Crescente terceirização e precarização dos contratos. Substituição da formação crítica por uma ênfase em resultados mensuráveis. E pouco ou quase nada de concursos públicos.

Nesse sentido, se por um lado o neoliberalismo desmonta silenciosamente a estrutura da educação pública (grandes fundações e grupos empresariais disputando o orçamento da educação), por outro, a extrema-direita brasileira atua de forma agressiva e ruidosa, promovendo ataques diretos aos professores. Essa ofensiva se intensificou nos últimos anos, principalmente a partir da ascensão da extrema-direita que encabeçam movimentos como o “Escola Sem Partido”, que ganhou força nesse período, representam uma tentativa clara de criminalizar o pensamento crítico e de censurar conteúdos considerados “ideológicos” — geralmente ligados à diversidade, direitos humanos, questões de gênero, história crítica do Brasil e políticas sociais. Nessa lógica, o professor passou a ser tratado como “doutrinador”, “inimigo da família”, ou “militante ideológico”. Houve inúmeros casos de: filmagem ilegal de professores em sala de aula, incentivada por parlamentares da extrema-direita. Ameaças físicas e morais contra docentes que abordam temas progressistas. Tentativas de projetos de lei que cerceiam a liberdade de cátedra. Essa perseguição coloca em risco não apenas a integridade dos profissionais da educação, mas também os princípios democráticos do direito de ensinar e apreender. O espaço escolar e universitário deve ser plural, dialógico, um local de construção coletiva do conhecimento — e não de vigilância ideológica ou medo – direitos constitucionalmente garantidos.

Apesar desse cenário adverso, os professores seguem sendo protagonistas de resistência e de luta por um Brasil mais justo, soberano e democrático. Em diversas redes públicas e privadas, educadores se mobilizam por melhores condições de trabalho, organizam greves, pressionam governos e desenvolvem práticas pedagógicas que confrontam a lógica do silenciamento e da padronização. Movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade civil também têm cumprido um papel fundamental na defesa da educação pública, gratuita, laica e de qualidade socialmente referenciada.

Celebrar o Dia do Professor, portanto, não é apenas prestar uma homenagem simbólica, mas reconhecer a centralidade dessa profissão na luta por uma sociedade mais justa, crítica e democrática. É também denunciar as forças que buscam deslegitimar a educação como instrumento de transformação social — sejam elas econômicas, políticas ou ideológicas.

O professor e a professora não são inimigos da sociedade, como a extrema-direita propaga — é seu alicerce. Porém, enquanto o neoliberalismo rebaixa sua importância a um mero recurso técnico e a extrema-direita tenta silenciá-lo, é dever de todos os que acreditam na democracia defender a liberdade de ensinar, de pensar e de formar cidadãos conscientes.

Flores, chocolate, livros e jantares, sempre serão bem-vindos como reconhecimentos dos professores. Mas mais do que flores ou homenagens pontuais, o que os professores (as) brasileiros (as) precisam é de condições reais para ensinar, respeito à sua autonomia e proteção contra o autoritarismo e a censura, que lamentavelmente está ganhando foça nos últimos anos no Brasil. Ser professor (a) também é isso, lutar pela liberdade de ensinar e aprender. Parabéns a todos professores e todas professoras no nosso Brasil.

Rafael Matos Felacio – Professor do Ensino Superior e Educação Básica, formado em Geografia, mestre e doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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