A jurista e pesquisadora Luciana Bauer participou, na última quarta-feira (16), de uma live exclusiva com assinantes e apoiadores do GGN, a fim de falar sobre o livro “A Democracia Indiferente” e sobre como o capitalismo alimenta as crises climáticas e democráticas, resultando uma ameaça efetiva ao futuro da humanidade.
O livro reflete sobre os impactos das grandes corporações tecnológicas e da crise climática na democracia contemporânea. A obra nasceu de um recorte de sua tese de doutorado de Luciana, defendida na Universidade do Vale do Itajaí (Univali) em parceria com a Universidade de Delaware, nos Estados Unidos.
Durante conversa com membros do canal GGN, Bauer relatou que a ideia do livro surgiu quando precisou retirar de sua tese um extenso capítulo sobre democracia. “Eu tinha feito a norma climática, a norma de direito intergeracional climático na democracia. Só que essa parte da democracia estava enorme. E daí os meus professores retiraram. Ah não, já está enorme a parte da norma climática, vamos tirar toda essa parte da democracia. E eu fiquei pensando: ‘Ah não, não vou perder isso não’”, contou.
O resultado, segundo ela, é uma reflexão sobre “como a democracia está se moldando às big Techs” e sua relação com “a crise climática, que é a crise do nosso tempo”.
A autora, que foi juíza por grande parte da carreira, afirma que o ponto central da obra é a ética intergeracional — a responsabilidade das sociedades atuais para com as futuras gerações. “O IDH das próximas sete gerações vai ser o mesmo nosso? O que eles vão viver? A gente não questiona isso. (4:38) E é algo que tem na nossa própria Constituição. Está escrito ali que a Constituição são direitos para as futuras gerações também”, observou.
Luciana também criticou o que chama de “democracia indiferente”, marcada pela naturalização da desigualdade e da destruição ambiental. “Então, essa indiferença é construída pelos algoritmos. Tanto ver as coisas horrorosas da guerra, do genocídio, a gente se torna indiferente ao genocídio. Não é super conveniente para quem é sionista, que as pessoas se tornem indiferentes. Então, essa nova gama de bilionários, também de tecnofeudalistas, eles estão todos construindo bunkers”, disse.
Crise climática
Ao tratar da crise ambiental, a autora classificou o atual modelo econômico como um “capitalismo de extinção”, que sacrifica vidas humanas e não humanas para se manter. “Essa nova gama de bilionários, também de tecnofeudalistas, eles estão todos construindo bunkers. A nova onda é construir bunker”, ressaltou a autora. “Porque eu vou falar uma coisa bem chocante para vocês: estamos em uma crise climática que vai matar muita gente”, afirmou.
Bauer citou dados da FAO sobre o impacto das emissões de carbono na produção de alimentos e alertou para o risco de fome em larga escala. “O alimento não vai mais fazer a proteína e o carbono e o açúcar. Porque com tanto carbono, o milho cresce tão rápido que ele não tem tempo de fazer a proteína e o açúcar”, destacou.
Neocolonialismo climático
A jurista também criticou o mercado de créditos de carbono, apontando-o como uma forma de “lavagem verde” usada por empresas para manter práticas poluentes. Segundo ela, o mecanismo reproduz um “neocolonialismo climático”, no qual países ricos continuam explorando recursos naturais de regiões mais pobres sob o discurso da sustentabilidade.
Outro eixo da obra é a análise da privacidade digital e da influência das Big Techs sobre a opinião pública. Bauer considera que o avanço das tecnologias de inteligência artificial e o domínio de dados pessoais colocam em risco a própria democracia. “Desde 11 de setembro, das torres gêmeas, aqui nos Estados Unidos, o governo americano tem acesso a qualquer das plataformas. Então eu posso acessar qualquer coisa do Ícaro, mesmo que até a empresa seja europeia”, alertou.
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