do Vermelho
Após 27 dias de bloqueios, protestos continuam no Equador
por Cezar Xavier
Dois dias depois do anúncio de um acordo entre o governo do Equador e líderes indígenas da província de Imbabura, as estradas da região permanecem bloqueadas com montes de terra e grupos de manifestantes. Segundo o Sistema Integrado de Segurança (ECU 911), 12 vias continuam interditadas — especialmente na rodovia Panamericana E-35, principal eixo de ligação do norte do país — após 27 dias de paralisação nacional.
As manifestações, convocadas pela Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), começaram como um protesto contra o fim do subsídio ao diesel, decretado pelo presidente Daniel Noboa, mas logo se ampliaram. As novas pautas incluem a redução do IVA de 15% para 12%, a rejeição ao referendo e consulta popular previstos para 16 de novembro e a libertação de manifestantes presos nos primeiros dias da greve.
O governo de Noboa busca uma consulta popular para convocar uma Assembleia Constituinte e elaborar uma nova Constituição adequada às necessidades do seu governo neoliberal.

Assembleia indígena mantém mobilização em Imbabura
Em Otavalo, epicentro dos protestos, líderes locais realizaram nesta sexta-feira (17) uma grande assembleia comunitária para discutir os próximos passos do movimento. Os participantes decidiram não aceitar a trégua parcial firmada entre alguns representantes e o governo, mantendo os bloqueios como forma de pressão.
“Que a paralisação continue. É um apelo ao diálogo e à unidade dos povos”, declarou Santiago Castro, dirigente indígena de Otavalo, durante o encontro, que contou com a presença da prefeita Anabel Hermosa, mediadora entre as comunidades e o Executivo.
Mobilizações se espalham por várias províncias
As manifestações se estenderam para outras regiões. Em Sucumbíos, comunidades indígenas marcharam pelas ruas de Lago Agrio exigindo a libertação de Gregorio, um membro da etnia kichwa preso durante os protestos. Antes da marcha, os participantes realizaram uma cerimônia ancestral, simbolizando a defesa da “vida e do território”.
Em Cuenca, estudantes da Universidade bloquearam a Avenida Loja, e na província de Loja, o Povo Kichwa Saraguro manteve bloqueios na estrada que liga a cidade a Cuenca. A governadora Alexandra Jara chegou a comparecer ao local, mas os manifestantes exigiram o comparecimento do próprio presidente Noboa.
“Estamos aqui pelas necessidades do nosso povo”, disse um representante da Federação Interprovincial de Indígenas Saraguros.
Noboa reafirma “medidas duras” e diz que governo é “forte”
Enquanto as tensões persistiam, o presidente Daniel Noboa participou de um evento em Los Ríos, onde entregou títulos de propriedade e créditos agrícolas. Em seu discurso, Noboa defendeu as medidas econômicas, afirmando que o corte dos subsídios é “necessário” para estabilizar as contas públicas.
“Tivemos que fazer o que cinco governos anteriores não conseguiram”, afirmou, referindo-se ao fim do subsídio ao diesel. Segundo ele, o país resistiu a “ataques do crime organizado e da oposição”, mas o Executivo “segue firme”. As lideranças indígenas também criticam a criminalização do movimento pelo governo.
Desde janeiro de 2024, com o chamado “conflito armado interno” que o governo de Daniel Noboa declarou por meio do decreto 111, o país embarcou em um caminho sinuoso. A direção adotada combina uma política de militarização da segurança com o autoritarismo crescente que resultou em graves violações dos direitos humanos e no aumento da desigualdade.
Em 2019, o governo de Lenin Moreno e, em 2022, o governo de Guillermo Lasso já tentaram eliminar o subsídio do diesel; no entanto, em ambas as ocasiões, fortes protestos forçaram os dois governos a recuar com a medida.
Noboa executou uma política de controle do protesto com decretos de estado de emergência em sete províncias, a militarização das ruas, o bloqueio de contas bancárias de organizações e de líderes sociais, indígenas, ambientais e de direitos humanos, e a judicialização do protesto com o uso de crimes como “terrorismo”.
Prisões e acusações de terrorismo
O governo também enfrenta críticas por sua resposta policial. Doze manifestantes presos em Otavalo — acusados de incendiar um quartel policial — continuam detidos sob acusação de terrorismo. A Conaie denuncia abuso judicial e afirma que infiltrados foram responsáveis pelos ataques.
Na sexta-feira (17), uma audiência de apelação foi realizada em Quito, mas não houve decisão imediata.
O dilema político e econômico de Noboa
As novas mobilizações colocam o presidente Daniel Noboa diante de um dos maiores testes de seu governo. Desde que anunciou o fim dos subsídios ao diesel, medida que encarece o transporte e afeta diretamente os preços dos alimentos, Noboa enfrenta pressões simultâneas: de um lado, o FMI e o empresariado, que defendem o ajuste fiscal; de outro, o movimento indígena e os setores populares, que denunciam o impacto social da política econômica.
O retorno das paralisações indígenas, dois anos após a trégua que encerrou os protestos de 2022, reabre uma ferida histórica na política equatoriana. Desde os anos 1990, as comunidades indígenas têm sido o principal contrapeso de rua aos governos neoliberais, sendo decisivas para a queda de presidentes como Jamil Mahuad (2000) e Lucio Gutiérrez (2005).
“O governo subestimou a capacidade de mobilização da Conaie e acreditou que o acordo seria suficiente para conter a insatisfação”, avalia o sociólogo equatoriano Fernando Guerrero, ouvido pela Primicias.ec.
Além das tensões políticas, o impasse ameaça paralisar a economia de províncias-chave e desgastar a imagem internacional de Noboa, que vinha tentando se projetar como líder reformista e pró-mercado.
Um impasse que expõe o abismo social do país
O prolongamento dos bloqueios mostra que, apesar dos esforços de diálogo, o Equador continua dividido entre o discurso de modernização econômica e a realidade de pobreza rural.
Enquanto Noboa busca credibilidade junto a investidores e organismos internacionais, grande parte da população — sobretudo indígena e camponesa — segue excluída das promessas de crescimento.
A persistência das mobilizações em Imbabura e outras províncias indica que a crise vai além da questão do diesel: trata-se de uma disputa sobre o modelo de Estado, a quem ele serve e quem paga o preço dos ajustes.
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