24 de junho de 2026

Luís Nassif: A morte de Herzog

A imagem de Herzog passou a mobilizar a luta de cada jornalista contra a ditadura. E Clarice tornou-se símbolo maior da resistência.
Clarice e Vladimir Herzog - Reprodução

Os dias que antecederam a morte de Vladimir Herzog foram pesados. Eu morava em um pequeno apartamento na região da Liberdade. Toda manhã acordava, passava em frente à banca de revista, temendo ler alguma notícia sobre a Operação Jacarta. Era o fantasma de todos os jornalistas, uma suposta operação, articulada pela repressão, destinada a eliminar, de uma vez, milhares de opositores do regime.

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Quando explodiu a notícia da morte do Herzog, fui correndo ao Sindicato dos Jornalistas. Estava apinhado de colegas, encolhidos nas cadeiras, como crianças, embaixo da coberta, assistindo a um filme de terror. Lembro-me da presença, até, de Luiz Fernando Levy, proprietário da Gazeta Mercantil e filho do deputado Herbert Levy. Audálio Dantas presidia o sindicato.

Seis dias depois, aconteceu  o culto ecumênico na Catedral da Sé. Ali, começamos a vencer o medo. Só quem esteve lá, naquelas circunstäncias, pode avaliar o peso da presença e do amparo de dom Paulo Evaristo Arns, acompanhado pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor presbiteriano James Wright 

Foram palavras inesquecíveis:

Dom Paulo Evaristo Arns (Arcebispo de São Paulo) – 
“A morte de um homem inocente não pode ser em vão.”
“Aqui estamos para afirmar que a vida é sagrada, e ninguém tem o direito de violá-la, nem mesmo o Estado.”

Rabino Henry Sobel (Congregação Israelita Paulista)
“Herzog morreu por afirmar sua fé na verdade.”
“Quando um homem é morto por dizer o que pensa, toda a humanidade sangra com ele.”

Pastor James Wright (Igreja Presbiteriana Unida)
“O silêncio diante da injustiça é cumplicidade.”
“Hoje, nesta casa de Deus, dizemos que a verdade não morre na tortura.”

Saímos de lado abraçados, sabendo que a ditadura estava registrando cada momento com fotógrafos empilhados nos prédios. 

A partir dali, a imagem de Vladimir Herzog passou a mobilizar a luta individual de cada jornalista contra a ditadura. A de sua esposa, Clarice Herzog, tornou-se símbolo maior da resistência. E as de seus verdugos, major Freddie Perdigão Pereira, o capitão Audir Santos Maciel e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, entraram definitivamente para a o lixo da história. Principal insuflador da repressão militar, o advogado Cláudio Marques tornou-se um símbolo de traição similar a Joaquim Silvério dos Reis, até desaparecer nas dobras do tempo.

Nada mais foi como antes. O episódio ajudou a diferenciar os que pareciam iguais. Principais apoiadores do golpe de 1964, os Mesquita acompanhavam pessoalmente ao DOPS seus jornalistas detidos, para garantir a sua segurança. Ao contrário, na Editora Abril, Roberto Civita fazia questão de levar os jornalistas suspeitos até a sala, onde recebia os policiais do DOI-CODI, e os deixava à própria sorte.

Poucos meses depois, morria nas dependências do DOI-CODI o operário Manoel Fiel Filho. Alguns anos depois, adquiri um apartamento para meus pais, na rua Abilio Soares, praticamente nas costas do DOI-CODI da rua Tutóia. O proprietário era um dentista, pai do economista Gesner de Oliveira. Depois de acertados os detalhes da venda, ele me levou à cozinha para servir um café e me disse, apontando a pia:

  • Meu cunhado é o general Ednardo. Quando anunciaram a morte de Fiel Filho ele chorou ali, dizendo ter sido vítima de uma armadilha para Geisel poder demiti-lo.

Anos depois, o fantasma da tragédia ainda assustava toda a classe. Na greve de 1979 fui detido e encaminhado ao DOI-CODI. Imediatamente rumaram para lá Dom Paulo, o senador Franco Montoro e outros políticos. Mas nada aconteceu. O comando da operação passara para o delegado Romeu Tuma, interessado em estabelecer relações para sobreviver aos ventos de redemocratização. 

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Tadeu Silva

    22 de outubro de 2025 4:55 pm

    Foi numa banca que vi na capa de um jornal a foto macabra do Herzog enforcado. Jovem, ainda não estava atualizado com a matança sistemática que a elite brasileira promove antes, durante e depois desse episódio. Falta uma indignação do mesmo porte (assim foi com o Rubens Paiva, etc.), para estancar essa sangria que agride a juventude pobre, preta, anônima. Bora protestar!

  2. Marconi Cavalcante

    22 de outubro de 2025 6:04 pm

    Para que não tenhamos mais tanto sofrimento de Clarices e Eunices e para que a tortura e o assassinato de quem defende liberdades fundamentais, como a defesa da democracia e da verdade, não ocorram mais no Brasil, acho muito importante a realização de cultos ecumênicos periódicos, como o do próximo dia 25 de outubro, organizado pelo Instituto Vladimir Herzog. Que as violências e as paradas militares dêem lugar a ritos de confraternização, conscientização e diálogo, reais símbolos do Brasil.

  3. Luiz Fernando Juncal Gomes

    23 de outubro de 2025 1:54 pm

    O peso da censura
    Quando Herzog morreu morava na longínqua Ponta Porã (MS), havia acabado de entrar no BB, exatos 12 dias. Só vim a saber do assassinato quando me transferi para São Paulo, em 1978, através da ainda incipiente e clandestina mídia alternativa.

  4. Joel Palma

    23 de outubro de 2025 6:05 pm

    Nassif esse é um texto fundamental para a compreensão da Questão da Terras Raras:
    https://lesakerfrancophone.fr/combien-de-temps-la-chine-peut-elle-jouer-la-carte-des-terres-rares

    “Para mostrar em detalhes os esforços absolutamente titânicos que seriam necessários para quebrar o domínio sobre apenas um dos elementos da lista de controle de exportação da China: o gálio. E lembre-se, ao ler o artigo, que este é apenas um dos 21 elementos químicos sob controle de exportação, e que os controles de exportação da China incluem não apenas elementos químicos, mas também produtos derivados (baterias de íons de lítio, materiais superduros, etc.).

    Depois de terminar este artigo, aposto que o pânico de Bessent parecerá quase pacífico para você.”

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