25 de junho de 2026

“Não foi retomada de território. Foi extermínio”, diz Sérgio Ramalho sobre massacre no Rio

“Se o Estado quisesse retomar território, teria ficado lá, retirado os corpos e feito perícia. O que vimos foi extermínio”, diz jornalista
O jornalista e autor de Decaídos em entrevista à TV GGN.

▸Operação policial no Rio de Janeiro é criticada por jornalista como ação de extermínio, marcada pela ausência de controle do governo estadual.

▸Autoridades do Rio justificam operação como combate ao crime, mas jornalista aponta contradições e destaca impacto social na Zona Norte.

▸Jornalista alerta para a naturalização da violência como solução e aponta falhas históricas do Estado, resultando em populações reféns do crime.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A operação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão e em outras favelas do Rio de Janeiro não pode ser apresentada como retomada de território, mas como uma ação de extermínio, marcada pela ausência de controle do governo do estado e pela repetição de uma política de segurança falida.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A visão é do jornalista Sérgio Ramalho, autor de Decaído e coautor de Oficiais do Crime, que analisou em entrevista à TV GGN a Operação Contenção, conduzida sob a gestão do governador Cláudio Castro desde a última terça-feira, e que vitimou 121 pessoas. 

“O que ocorreu não foi uma demonstração de presença do Estado, mas o desfecho de décadas de políticas públicas fracassadas. O Estado vai, mata, deixa corpos no alto do morro e sai. Não há perícia, não há investigação. Isso não é retomada, é execução”, disse o jornalista durante o programa TVGGN 20 Horas [confira abaixo].

Em relação aos argumentos do governador Cláudio Castro para justificar a operação, Ramalho relembra que a promessa de pacificação feita nos anos 2000 com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nunca se concretizou, e que o projeto foi desmontado por sucessivos governos. Desde então, o cenário ficou propício para o fortalecimento de organizações criminosas, e agravado pela conivência e corrupção nas próprias forças de segurança. 

“Interceptações mostraram relações promíscuas entre agentes do Estado e o crime organizado. E quando o governo sucateia o programa, os grupos armados voltam com força. O resultado é o que estamos vendo agora: o Estado entra com 2.500 homens, mata e vai embora”, compara Ramalho. 

Para Ramalho, há contradições na operação, que mirou apenas no Comando Vermelho e poupou outros grupos criminosos. “Se era para enfraquecer o crime, por que não bater nos dois lados? , questiona.

O jornalista destaca ainda a dimensão social da tragédia, na Zona Norte da capital fluminense. “Não estamos falando só da comunidade, mas de toda uma massa trabalhadora que precisa circular, estudar, criar filhos. Essas pessoas vivem sob cerco permanente. Minha irmã mora ali perto. Tive que pedir para ela não voltar para casa e ficar na minha, porque ninguém conseguia se deslocar”.

O discurso da violência como solução

Outro cenário preocupante, explica Ramalho, é que parte da sociedade acabou se acostumando com o discurso da violência como solução. “Existe uma catarse coletiva, uma crença de que o único jeito é matar. É o resultado de anos de ausência do Estado e de frustração social acumulada”, analisa.

Para o jornalista, a atual crise de segurança pública é resultado de ao menos cinco décadas sem política consistente. “Não estamos falando de um erro recente, mas de 50 anos de improviso, omissão e conivência. A consequência é essa: populações reféns do crime de um lado e, do outro, uma sociedade que aplaude execuções como se fossem justiça”. 

Ele acrescenta que, nesse vazio do Estado, líderes criminosos consolidam poder misturando violência e discurso religioso. “Peixão, ligado ao TCP, se autodenomina ‘Araão’ e chama a Vila Cruzeiro de ‘terra prometida’. É essa lógica delirante que governa parte dos territórios abandonados pelo Estado. Se o Estado quer se fazer presente, precisa ficar. Precisa investigar, periciar, cuidar das vidas que ficaram. Do contrário, não é presença, é só mais uma operação de extermínio”.

Assista à entrevista completa pelos links abaixo, no canal do YouTube da TV GGN:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Rui Ribeiro

    2 de novembro de 2025 2:14 pm

    De acordo com a materia ora comentada, “outro cenário preocupante, explica Ramalho, é que parte da sociedade acabou se acostumando com o discurso da violência como solução. “Existe uma catarse coletiva, uma crença de que o único jeito é matar. É o resultado de anos de ausência do Estado e de frustração social acumulada”.

    Isso é feito de propósito pela elite sanguessuga pois ela cria o problema a fim de vender a ‘$olução’

    “Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que seja este quem exija medidas que se deseja fazer com que aceitem. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja quem demande leis de segurança e políticas de cerceamento da liberdade.

    Ou também: criar uma crise econômica para fazer com que aceitem como males necessários o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos”.

Recomendados para você

Recomendados