Os Estados Unidos estão abandonando os princípios do livre mercado e caminhando para um modelo de “capitalismo de compadrio” sob a administração de Donald Trump, alerta o economista Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade Columbia.
Em artigo publicado no Project Syndicate, Stiglitz argumenta que o governo republicano deixou de defender a concorrência baseada em regras transparentes e passou a favorecer relações diretas entre o poder político e grandes empresas, em um sistema que, segundo ele, se aproxima dos modelos observados em países como Rússia, China e Arábia Saudita.
Para o economista, o diferencial histórico do capitalismo norte-americano foi a existência de instituições fortes, capazes de limitar a interferência política nos negócios privados e garantir igualdade de condições entre empresas.
Embora defenda políticas industriais e regulação estatal em determinadas áreas, Stiglitz sustenta que essas intervenções devem seguir regras claras, impessoais e sujeitas à fiscalização pública. Segundo ele, o governo Trump estaria adotando uma lógica oposta.
Pressão sobre empresas de tecnologia
Um dos principais alvos da crítica é a relação da Casa Branca com empresas de inteligência artificial. Stiglitz menciona reportagens segundo as quais autoridades norte-americanas discutem mecanismos para que empresas do setor, como Anthropic e OpenAI, cedam participações acionárias ao governo.
Na avaliação do economista, esse tipo de arranjo lembra práticas observadas em regimes autoritários, nos quais empresários são pressionados a fazer concessões ao poder político para manter seus negócios.
O Nobel também questiona uma ordem executiva assinada por Trump para o setor de inteligência artificial: embora o documento estabeleça alguns parâmetros regulatórios, Stiglitz avalia que seu conteúdo foi moldado pelos interesses das grandes empresas de tecnologia.
Ele destaca um trecho que impede a criação de sistemas obrigatórios de licenciamento ou autorização prévia para o desenvolvimento e lançamento de novos modelos de IA.
Na visão do economista, a medida favorece as grandes empresas do setor e limita a capacidade futura de supervisão governamental.
Instituições sob pressão
Ao longo do artigo, Stiglitz argumenta que a principal consequência desse modelo não é apenas econômica, mas também política –quando empresas passam a depender da proximidade com governantes para prosperar, o resultado é o enfraquecimento da democracia e o fortalecimento de estruturas oligárquicas, nas quais grupos economicamente poderosos exercem influência desproporcional sobre as decisões públicas.
Diante desse cenário, Stiglitz sustenta que políticas industriais e regulações podem ser instrumentos legítimos para estimular setores estratégicos e corrigir falhas de mercado, especialmente em áreas como inteligência artificial, mas que essas intervenções devem ocorrer dentro de marcos legais transparentes, supervisionados por instituições independentes e submetidos ao escrutínio público.
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