Financeirização Parasitária do King Donald
por Fernando Nogueira da Costa
A crítica de André Lara Resende à “fada da dívida” de Kenneth Rogoff, publicada no jornal Valor (Eu&FdS, 31/10/25), é pertinente. Eu farei apenas uma ressalva e apresentarei mais deduções a partir de sua hipótese. Rogoff foi economista-chefe do FMI, é professor de Harvard e um requisitado palestrante internacional.
A dívida dos EUA está, atualmente, em mais de US$ 36,2 trilhões (R$ 196 trilhões), o equivalente a 120% do PIB norte-americano, segundo o Tesouro dos EUA. Cerca de US$ 29 trilhões (R$ 157 trilhões) correspondem a títulos da dívida vendidos no mercado de obrigações.
A maior parte está nos EUA, mas um terço da dívida pública está nas mãos de países estrangeiros, principalmente, Japão, Reino Unido e China. Os US$ 7 trilhões de dólares (R$ 39 trilhões) restantes pertencem a administrações federais dos EUA, como, por exemplo, os fundos destinados à previdência social ou às pensões dos funcionários federais, ou seja, não são detidos diretamente por Pessoas Físicas.
Quanto à “varinha de condão”, Rogoff imagina uma “fada” eliminar parte da dívida pública — digamos, de 120% para 60% do PIB — liberando espaço fiscal para novos gastos. Lara Resende observa essa operação ignorar a contabilidade de partidas dobradas: o passivo do Estado é o ativo do setor privado. “Apagar” metade da dívida significaria, necessariamente, extinguir a correspondente riqueza financeira dos detentores desses títulos.
Aí faço minha ressalva. Se, em vez de “apagá-la”, o Estado faz o possível na realidade – monetizar a dívida (QE, quantitative easing) –, ele transforma papéis de renda fixa em moeda ou reservas bancárias. No caso, realiza uma troca de ativos (formas de manutenção de riqueza), na carteira do setor privado, sem alterar o valor total do seu patrimônio financeiro.
O efeito imediato é os portadores de títulos de longo prazo e juros positivos passarem a deter moeda de pronta liquidez e rendimento zero. A reação dos detentores de riqueza seria a busca de ativos com valorização ou ganhos de capital.
Essa transformação da renda fixa anterior em renda variável se dá pela migração dos agentes para ativos alternativos de modo a ampliarem seu valor real: ações, imóveis, ouro, criptoativos etc. Não se trata de mera busca de reserva de valor, mas sim de recomposição da rentabilidade patrimonial, em um contexto de juros reais comprimidos.
A resultante é a inflação de ativos financeiros – e não a inflação corrente de bens e serviços. Esses ativos financeiros, em Pessoas Físicas, estão concentrados entre os mais ricos e menos propensos ao consumo por “efeito riqueza”. Este fenômeno sistêmico, efeito do QE não esperado por economistas ortodoxos, é chamado pelos heterodoxos de “inflação de preços de ativos”.
No entanto, o governo dos EUA, sob Trump reeleito, passou a estimular ativamente o setor de criptomoedas. Faz compras oficiais e facilitação regulatória. O circuito da “tulipomania” contemporânea com a financeirização política se completou.
O segundo reinado do King Donald converteu o Estado americano em promotor direto da especulação com cripto. Assumiu este “conflito de interesses” por meio de um conjunto coordenado de medidas institucionais, regulatórias e simbólicas.
Primeiro, ordenou uma reversão regulatória e captura das agências de supervisão com a substituição da liderança da SEC (Securities and Exchange Commission), Gary Gensler, um crítico dos criptoativos, forçando-o a renunciar “no dia da posse”, sendo substituído por Paul Atkins, conhecido defensor da desregulamentação financeira. Resultado: encerramento de processos e investigações contra grandes plataformas (Coinbase, Ripple, Circle). Detalhe: foram doadoras para sua campanha eleitoral.
O King Donald impôs uma diretriz política explícita ao Departamento de Justiça. Ordenou o DoJ “passar menos tempo investigando empresas de criptomoedas”, esvaziando a capacidade coercitiva do Estado sobre práticas de fraude, manipulação e lavagem.
Deu permissão para bancos tradicionais operarem no mercado cripto. Fez reversão de restrições prudenciais, impostas durante o governo Biden, ampliando a interpenetração entre sistema bancário e criptoativos. Isso aumentou a liquidez e legitimou o setor.
O estímulo institucional direto à demanda por criptoativos se deu pela criação de uma “reserva nacional em bitcoins” — decisão simbólica e de política monetária, equiparando o bitcoin a ativo estratégico do Tesouro americano. Esse gesto funcionou como um selo de legitimidade estatal para o ativo, antes considerado “antiamericano”. Representou a regressão da moeda nacional do século XX às moedas privadas dos “estados (unidades federativas) unidos”.
O King Donald também concedeu autorização para fundos de aposentadoria (401k) investirem em criptoativos. Essa nova ordem executiva permitiu parte das economias previdenciárias ser aplicada em criptomoedas — medida de impacto estrutural, pois cria demanda institucional e de longo prazo.
Estabeleceu um marco regulatório flexível, legalizando a emissão e circulação de moedas digitais lastreadas em dólar. Essa nova legislação sobre stablecoins integra o setor ao circuito de pagamentos e fortalece sua base monetária.
Tudo isso se deu pela integração entre interesses públicos e negócios privados, isto é, empreendimentos da própria família Trump. Esta providenciou a criação de tokens e memecoins ($TRUMP, WLFI, USD1) capazes de captarem centenas de milhões de dólares. Houve a estruturação da World Liberty Financial, empresa dos filhos de Trump com laços diretos com a Casa Branca. Atraiu a participação de fundos soberanos estrangeiros (Abu Dhabi, China, Emirados), nesses projetos, convertendo o espaço cripto em canal de financiamento político e diplomático.
O Super PAC Fairshake levantou US$ 260 milhões para candidatos pró-cripto, quase o dobro do apoio a democratas. O financiamento da campanha e da posse de Trump já tinha se dado com contribuições diretas em criptoativos.
Disso tudo, surgiu a legitimação simbólica e ideológica com autoproclamação do King Donald como “o primeiro presidente das criptomoedas”, em discurso oficial de apoio irrestrito ao setor. Foi um reenquadramento retórico oportunista: antes via as criptomoedas como ameaça “antiamericana” e depois elas passaram a símbolo de liberdade, inovação e soberania nacional.
Descaradamente, promove eventos públicos e marketing político em jantares exclusivos com detentores dos tokens $TRUMP, viagens internacionais dos filhos, capitalizando o setor em Hong Kong e Abu Dhabi, uso da Casa Branca como vitrine de prestígio especulativo.
Os efeitos macrofinanceiros e políticos da política de juros baixos e QE permanente do Fed, sob pressão política direta de Trump, são o reforço do ciclo: liquidez – busca de valorização – migração de capitais – inflação de ativos digitais.
O resultado é uma nova forma de “capitalismo de bolha”, inflado ativamente pelo Estado americano. A autoridade pública cria as condições para valorização patrimonial privada e captura pessoal dos ganhos. É vergonhoso para os EUA!
A liquidez criada pelo Estado (“desunido”), via QE e juros baixos, busca ativos de risco. O governo legitima e impulsiona novas formas de ativos digitais e a elite política-financeira captura ganhos extraordinários de valorização. Há evidente conflito direto de interesses no caso dos tokens ligados à família Trump.
Como o Fed está cedendo às pressões políticas e mantendo os juros artificialmente baixos, a bolha de ativos continua sendo inflada e irá até o ponto de reversão de expectativas, explosão e destruição patrimonial. O QE, antes com aparência de neutro, se revela agora uma redistribuição regressiva: socializa o risco sistêmico e privatiza o ganho.
Em síntese, a “fada da dívida” de Rogoff é o QE levado ao limite lógico. A monetização dos títulos preserva a riqueza nominal dos rentistas, mas desloca a busca de rendimento para ativos especulativos.
A “nova tulipomania” em ações, ouro, cripto, imóveis etc. é precisamente o sintoma de um capitalismo hiperfinanceirizado, no caso americano, com “financeirização parasitária”. Desse modo, a política monetária serve de alavanca para valorização patrimonial e captura privada de liquidez pública.
A fusão entre poder político e especulação do “King Donald das criptos” dramatiza a transmutação da soberania monetária em instrumento de enriquecimento pessoal. Expõe talvez o paradoxo final da financeirização neoliberal.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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