
Desnacionalização, Desindustrialização e Globalização da Economia Brasileira
por Fernando Nogueira da Costa
O Brasil com a taxa de juro disparatada pelo Banco Central costuma atrair fluxos especulativos de curto prazo. Bancos e fundos estrangeiros se aproveitam do diferencial de juros – carry trade: tomar onde o dinheiro está barato para aplicar onde se encontra caro – e da estabilidade cambial momentânea para obter ganhos financeiros rápidos.
Esse “capital motel” (entra-e-sai), e mesmo o capital estrangeiro aqui instalado, é essencialmente volátil. No fim de cada exercício fiscal, as matrizes determinam a “limpeza dos balanços”, isto é, a redução de exposição a ativos considerados arriscados, sobretudo de países sem grau de investimento.
Se a tendência é a moeda nacional se depreciar, o dólar ficará mais caro e as empresas transnacionais perderão na remessa de lucros e juros para o exterior, se comparado a fazer isso quando o real está valorizado diante o dólar.
Em 2024, essa retirada foi particularmente intensa. O resultado foi duplo: o dólar foi sendo apreciado até ultrapassar R$ 6,30, em fuga diante desse pavor, houve uma saída líquida recorde de US$ 26,4 bilhões, o maior valor mensal desde 1982. O Banco Central foi compelido a intervir de forma maciça, usando as reservas cambiais para vender US$ 21,5 bilhões no mercado à vista, em uma operação de defesa cambial sem precedentes, desde a crise de 1999.
Esse movimento revelou o recorrente déficit no balanço de transações correntes da economia brasileira. Apesar de deter volumosas reservas internacionais, permanece subordinada à necessidade de grande superávit comercial e ao comportamento de fluxos financeiros globais de curtíssimo prazo. Desse modo, o equilíbrio do balanço de pagamentos é obtido com mais Investimento Direto no País e progressivo agravamento de sua desnacionalização.
A depreciação cambial tende a repercutir em inflação importada, especialmente em um país cuja estrutura produtiva se tornou crescentemente dependente de bens intermediários e de capital importados. O encarecimento das importações, em um contexto de desindustrialização e desnacionalização, converte-se em fator adicional de instabilidade inflacionária. Isto (e eventual inflação de alimentos por crise climática) é algo politicamente sensível em uma sociedade com forte memória inflacionária.
Na Era do Neoliberalismo, a resposta dominante das autoridades monetárias e fiscais — priorizar o combate à inflação em detrimento do crescimento da renda e da superação da pobreza absoluta — expressa não apenas uma escolha técnica, mas sobretudo uma opção ideológica. Desde os anos 1990, sob a imposição do FMI do chamado Consenso de Washington, consolidou-se nas mentes dos economistas com monopólio de publicação na “grande” imprensa brasileira uma visão ortodoxa segundo a qual a estabilidade de preços e o equilíbrio fiscal seriam condições necessárias e suficientes para o desenvolvimento.
Essa ideologia anti-desenvolvimentista — elevada ao paroxismo nos anos 1989-2002 e 2016-2022 — contaminou inclusive o empresariado industrial. Seduzido por promessas de eficiência e modernização, aderiu à agenda liberal contra o Estado, mesmo quando ela minava sua própria base produtiva.
Como citou Pedro Cafardo (Valor, 14/10/25), sob o título “A indústria fez gols contra por três décadas”, em sua tese de doutoramento, Haroldo da Silva acusou o discurso das “reformas, reformas, infinitas reformas”, das privatizações, da austeridade fiscal permanente e da flexibilização trabalhista. “Acabou funcionando como um instrumento sociológico de dominação ideológica, mascarando a transferência contínua de poder e renda do setor produtivo para o setor financeiro”.
Pessoalmente, sou crítico dessa dicotomia entre “setor produtivo” e “setor financeiro”, porque o sistema financeiro abrange todas as Pessoas Jurídicas, destacadamente empresas ditas equivocadamente “não-financeiras”, além das Pessoas Físicas como clientes. Em uma abordagem estruturalista contemporânea, temos de fazê-la de modo sistêmico a partir de uma visão holista, isto é, do todo.
Da indignação de muitos colegas desenvolvimentistas nasce a crítica recorrente (e simplória) de o produtivismo ter migrado ao rentismo. Ora, todos os agentes econômicos necessariamente participam do sistema de pagamentos digitais, de acumulação de reservas financeiras com progressivo enriquecimento com juros compostos e de alavancagem com a finalidade obter maiores lucros operacionais acima das despesas financeiras. Gera inclusive maior número de ocupações.
Deveriam evitar de afirmar, levianamente, “a consequência histórica foi a consolidação de um modelo de acumulação rentista, no qual a rentabilidade financeira supera amplamente a produtiva”. Fato: historicamente, a Petrobras e a Vale são empresas com lucros superiores aos dos bancos, individualmente, devido à exportação de commodities e ao valor de mercado de cada empresa.
Acusam, de maneira generalista, sem qualificar de qual porte das “empresas não-financeiras” estão falando, “o empresariado nacional [industriais restantes?], em vez de investir em inovação e capacidade produtiva, passou a depender de ativos financeiros e ganhos patrimoniais”. Essa transformação teria reduzido o potencial de crescimento autônomo e reforçado a dependência do país em relação à disponibilidade da liquidez internacional.
Na verdade, falta uma pesquisa profunda do grau de desnacionalização da indústria instalada no Brasil. A olhos vistos, na indústria brasileira, ele é alto e crescente, com forte dependência de empresas estrangeiras, especialmente em setores de alta tecnologia, e com baixo conteúdo nacional em alguns produtos industriais de exportação. Destaque-se a exceção da Embraer.
A desindustrialização brasileira se manifesta na perda de participação da indústria no PIB com a substituição de empregos e valor adicionado na indústria nacional pelos obtidos em serviços urbanos de baixa qualificação e produtividade. A economia brasileira se desindustrializou, de forma prematura, perdendo indústrias de média complexidade, antes de atingir o patamar tecnológico das indústrias de ponta. Isso é diferente do processo observado em países desenvolvidos, onde a desindustrialização é acompanhada de um aumento da participação de indústrias de alta tecnologia.
A indústria brasileira, na Era Neoliberal, deixou de ter proteção tecnológica e política industrial consistente. De acordo com o ciclo de alta alavancagem, seguido de desalavancagem financeira e acumulação de reservas para o ciclo de retomada, todos os agentes econômicos estão imersos na lógica financeira de avaliação da maximização do valor para a alocação do capital dos acionistas e de rendimentos com juros compostos para todos os investidores Pessoas Físicas.
No entanto, é mais fácil evitar essa análise da complexidade sistêmica e acusar (“apontar o dedo para os outros”) sua elite dirigente: “ela se tornou ideologicamente prisioneira do neoliberalismo global”. O resultado seria uma economia com baixa complexidade produtiva, alta vulnerabilidade cambial e desigualdade estrutural crescente — um círculo vicioso no qual a política monetária, em vez de ser estabilizadora, atua como vetor de regressão estrutural.
Todas essas acusações são “meias-verdades”, portanto, mentiras diante certos fatos. É alta a complexidade produtiva brasileira, cuja renda se situa entre os dez maiores PIBs do mundo, emergente de múltiplos componentes interativos: agronegócio, indústria extrativa e as demais (transformação, energia, construção), serviços diversificados.
Com suas reservas cambiais disponíveis, não tem “alta vulnerabilidade cambial”. Tampouco a desigualdade estrutural está crescente em termos do Índice de Gini na medição de fluxos de renda (pobreza absoluta), mas sim, por definição do sistema capitalista, a desigualdade de estoques de riqueza (pobreza relativa).
O diagnóstico mais fácil, perante o episódio no fim de 2024, dada a expectativa internacional do efeito da posse do Imperador Donald — fuga recorde de capitais, dólar em alta, intervenção do Banco Central do Brasil —, é “não ser um evento isolado, mas sim o sintoma de uma estrutura dependente e financeirizada”.
Muitos desenvolvimentistas acusam: “a ideologia liberal, travestida de neutralidade técnica, naturalizou a prioridade ao rentismo e marginalizou a política de desenvolvimento. Em última instância, essa hegemonia cultural e intelectual se tornou o principal motor sociológico da desindustrialização brasileira”. Temos de dar um passo além dessa crítica recorrente e renovar a abordagem estruturalista com a sistêmica, capaz de contemplar toda a complexidade brasileira diante dessa irreversibilidade histórica. Será possível a reindustrialização? Nem nos EUA…
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
20 de outubro de 2025 11:47 amA evanjeguização do STF por Lula é muito pior, porque garante a perpetuação do neoliberalismo enfiado goela abaixo dos brasileiros pelos pastores que derrubaram Dilma e elegeram seu Jair. Lula traiu seus eleitores não evangélicos. Ele pagará a conta na próxima eleição. O meu voto Lula já perdeu e eu ajudarei a tirar muitos outros dele.