21 de maio de 2026

Desnacionalização, Desindustrialização e Globalização da Economia Brasileira, por Fernando Nogueira da Costa

Empresariado industrial foi seduzido por promessas de eficiência e modernização, e aderiu à agenda liberal contra o Estado.
Reprodução

Desnacionalização, Desindustrialização e Globalização da Economia Brasileira

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por Fernando Nogueira da Costa

O Brasil com a taxa de juro disparatada pelo Banco Central costuma atrair fluxos especulativos de curto prazo. Bancos e fundos estrangeiros se aproveitam do diferencial de juros – carry trade: tomar onde o dinheiro está barato para aplicar onde se encontra caro – e da estabilidade cambial momentânea para obter ganhos financeiros rápidos.

Esse “capital motel” (entra-e-sai), e mesmo o capital estrangeiro aqui instalado, é essencialmente volátil. No fim de cada exercício fiscal, as matrizes determinam a “limpeza dos balanços”, isto é, a redução de exposição a ativos considerados arriscados, sobretudo de países sem grau de investimento.

Se a tendência é a moeda nacional se depreciar, o dólar ficará mais caro e as empresas transnacionais perderão na remessa de lucros e juros para o exterior, se comparado a fazer isso quando o real está valorizado diante o dólar.

Em 2024, essa retirada foi particularmente intensa. O resultado foi duplo: o dólar foi sendo apreciado até ultrapassar R$ 6,30, em fuga diante desse pavor, houve uma saída líquida recorde de US$ 26,4 bilhões, o maior valor mensal desde 1982. O Banco Central foi compelido a intervir de forma maciça, usando as reservas cambiais para vender US$ 21,5 bilhões no mercado à vista, em uma operação de defesa cambial sem precedentes, desde a crise de 1999.

Esse movimento revelou o recorrente déficit no balanço de transações correntes da economia brasileira. Apesar de deter volumosas reservas internacionais, permanece subordinada à necessidade de grande superávit comercial e ao comportamento de fluxos financeiros globais de curtíssimo prazo. Desse modo, o equilíbrio do balanço de pagamentos é obtido com mais Investimento Direto no País e progressivo agravamento de sua desnacionalização.

A depreciação cambial tende a repercutir em inflação importada, especialmente em um país cuja estrutura produtiva se tornou crescentemente dependente de bens intermediários e de capital importados. O encarecimento das importações, em um contexto de desindustrialização e desnacionalização, converte-se em fator adicional de instabilidade inflacionária. Isto (e eventual inflação de alimentos por crise climática) é algo politicamente sensível em uma sociedade com forte memória inflacionária.

Na Era do Neoliberalismo, a resposta dominante das autoridades monetárias e fiscais — priorizar o combate à inflação em detrimento do crescimento da renda e da superação da pobreza absoluta — expressa não apenas uma escolha técnica, mas sobretudo uma opção ideológica. Desde os anos 1990, sob a imposição do FMI do chamado Consenso de Washington, consolidou-se nas mentes dos economistas com monopólio de publicação na “grande” imprensa brasileira uma visão ortodoxa segundo a qual a estabilidade de preços e o equilíbrio fiscal seriam condições necessárias e suficientes para o desenvolvimento.

Essa ideologia anti-desenvolvimentista — elevada ao paroxismo nos anos 1989-2002 e 2016-2022 — contaminou inclusive o empresariado industrial. Seduzido por promessas de eficiência e modernização, aderiu à agenda liberal contra o Estado, mesmo quando ela minava sua própria base produtiva.

Como citou Pedro Cafardo (Valor, 14/10/25), sob o título “A indústria fez gols contra por três décadas”, em sua tese de doutoramento, Haroldo da Silva acusou o discurso das “reformas, reformas, infinitas reformas”, das privatizações, da austeridade fiscal permanente e da flexibilização trabalhista. “Acabou funcionando como um instrumento sociológico de dominação ideológica, mascarando a transferência contínua de poder e renda do setor produtivo para o setor financeiro”.

Pessoalmente, sou crítico dessa dicotomia entre “setor produtivo” e “setor financeiro”, porque o sistema financeiro abrange todas as Pessoas Jurídicas, destacadamente empresas ditas equivocadamente “não-financeiras”, além das Pessoas Físicas como clientes. Em uma abordagem estruturalista contemporânea, temos de fazê-la de modo sistêmico a partir de uma visão holista, isto é, do todo.

Da indignação de muitos colegas desenvolvimentistas nasce a crítica recorrente (e simplória) de o produtivismo ter migrado ao rentismo. Ora, todos os agentes econômicos necessariamente participam do sistema de pagamentos digitais, de acumulação de reservas financeiras com progressivo enriquecimento com juros compostos e de alavancagem com a finalidade obter maiores lucros operacionais acima das despesas financeiras. Gera inclusive maior número de ocupações.

Deveriam evitar de afirmar, levianamente, “a consequência histórica foi a consolidação de um modelo de acumulação rentista, no qual a rentabilidade financeira supera amplamente a produtiva”. Fato: historicamente, a Petrobras e a Vale são empresas com lucros superiores aos dos bancos, individualmente, devido à exportação de commodities e ao valor de mercado de cada empresa.

Acusam, de maneira generalista, sem qualificar de qual porte das “empresas não-financeiras” estão falando, “o empresariado nacional [industriais restantes?], em vez de investir em inovação e capacidade produtiva, passou a depender de ativos financeiros e ganhos patrimoniais”. Essa transformação teria reduzido o potencial de crescimento autônomo e reforçado a dependência do país em relação à disponibilidade da liquidez internacional.

Na verdade, falta uma pesquisa profunda do grau de desnacionalização da indústria instalada no Brasil. A olhos vistos, na indústria brasileira, ele é alto e crescente, com forte dependência de empresas estrangeiras, especialmente em setores de alta tecnologia, e com baixo conteúdo nacional em alguns produtos industriais de exportação. Destaque-se a exceção da Embraer.

A desindustrialização brasileira se manifesta na perda de participação da indústria no PIB com a substituição de empregos e valor adicionado na indústria nacional pelos obtidos em serviços urbanos de baixa qualificação e produtividade. A economia brasileira se desindustrializou, de forma prematura, perdendo indústrias de média complexidade, antes de atingir o patamar tecnológico das indústrias de ponta. Isso é diferente do processo observado em países desenvolvidos, onde a desindustrialização é acompanhada de um aumento da participação de indústrias de alta tecnologia.

A indústria brasileira, na Era Neoliberal, deixou de ter proteção tecnológica e política industrial consistente. De acordo com o ciclo de alta alavancagem, seguido de desalavancagem financeira e acumulação de reservas para o ciclo de retomada, todos os agentes econômicos estão  imersos na lógica financeira de avaliação da maximização do valor para a alocação do capital dos acionistas e de rendimentos com juros compostos para todos os investidores Pessoas Físicas.

No entanto, é mais fácil evitar essa análise da complexidade sistêmica e acusar (“apontar o dedo para os outros”) sua elite dirigente: “ela se tornou ideologicamente prisioneira do neoliberalismo global”. O resultado seria uma economia com baixa complexidade produtiva, alta vulnerabilidade cambial e desigualdade estrutural crescente — um círculo vicioso no qual a política monetária, em vez de ser estabilizadora, atua como vetor de regressão estrutural.

Todas essas acusações são “meias-verdades”, portanto, mentiras diante certos fatos. É alta a complexidade produtiva brasileira, cuja renda se situa entre os dez maiores PIBs do mundo, emergente de múltiplos componentes interativos: agronegócio, indústria extrativa e as demais (transformação, energia, construção), serviços diversificados.

Com suas reservas cambiais disponíveis, não tem “alta vulnerabilidade cambial”. Tampouco a desigualdade estrutural está crescente em termos do Índice de Gini na medição de fluxos de renda (pobreza absoluta), mas sim, por definição do sistema capitalista, a desigualdade de estoques de riqueza (pobreza relativa).

O diagnóstico mais fácil, perante o episódio no fim de 2024, dada a expectativa internacional do efeito da posse do Imperador Donald — fuga recorde de capitais, dólar em alta, intervenção do Banco Central do Brasil —, é “não ser um evento isolado, mas sim o sintoma de uma estrutura dependente e financeirizada”.

Muitos desenvolvimentistas acusam: “a ideologia liberal, travestida de neutralidade técnica, naturalizou a prioridade ao rentismo e marginalizou a política de desenvolvimento. Em última instância, essa hegemonia cultural e intelectual se tornou o principal motor sociológico da desindustrialização brasileira”. Temos de dar um passo além dessa crítica recorrente e renovar a abordagem estruturalista com a sistêmica, capaz de contemplar toda a complexidade brasileira diante dessa irreversibilidade histórica. Será possível a reindustrialização? Nem nos EUA…


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    20 de outubro de 2025 11:47 am

    A evanjeguização do STF por Lula é muito pior, porque garante a perpetuação do neoliberalismo enfiado goela abaixo dos brasileiros pelos pastores que derrubaram Dilma e elegeram seu Jair. Lula traiu seus eleitores não evangélicos. Ele pagará a conta na próxima eleição. O meu voto Lula já perdeu e eu ajudarei a tirar muitos outros dele.

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