21 de maio de 2026

Finanças Comportamentais: Brasileiros versus Americanos, por Fernando N. da Costa

Finanças Comportamentais explicam anomalias de mercado financeiro e bolhas de ativos por meio de vieses cognitivos e emocionais
Reprodução

Finanças Comportamentais: Investidores Brasileiros versus Americanos

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por Fernando Nogueira da Costa

Fui convidado pelo COFECON – Conselho Federal de Economia para debater com duas especialistas a respeito de Economia Comportamental no Congresso Brasileiro de Economistas de 2025, realizado em Porto Alegre. Preparei bastante meus argumentos, em uma apresentação de 20 slides, para expô-los de modo todos os presentes os acompanharem.

Infelizmente, devido ao atraso da seção e por ser antes do almoço, só me deram 15 minutos para a apresentação. Fiquei frustrado, embora tenha recebido elogios de pessoas da plateia por me diferenciar das demais apresentadoras, sendo eu o gênero minoritário diante das três mulheres, inclusive a moderadora.

Vou, aqui, recuperar algumas ideias colocadas para o debate. Intitulei minha apresentação de “Finanças Comportamentais: Brasileiros versus Americanos em Investimentos Financeiros”.

A hipótese defendida foi a literatura de Economia Comportamental, predominantemente escrita por autores americanos (ou habitantes nos Estados Unidos), ter a necessidade de adequação local, institucional e à evolução histórica. No caso, trata-se de adaptá-la para, de fato, interpretar os comportamentos distintos dos investidores brasileiros, aqui-e-agora.

Para provocar o debate, de cara, discordei da psicóloga econômica defensora da ideia de Economia Comportamental ser interdisciplinar. Hoje, o desafio é construir um conhecimento transdisciplinar, isto é, juntar Psicologia Econômica (Economia Comportamental para economistas), Sociologia Econômica (Economia Institucionalista), Biologia Darwinista (Economia Evolucionária) e Econofísica (Economia da Complexidade).

O sistema complexo, no qual estamos imersos, emerge das interações dessas diversas áreas de conhecimento. Antes, eram apropriadas por corporações profissionais e agora é possível de serem acessadas via notebook, celular, internet e inteligência artificial, inclusive por meio de leituras de livros digitais, a custo (e tempo) relativamente muito menor diante o do passado.

Finanças Comportamentais explicam anomalias de mercado financeiro e bolhas de ativos por meio de vieses cognitivos e emocionais (euforia, aversão à perda, contabilidade mental etc.) de indivíduos, ou seja, seus autores permanecem com o individualismo metodológico do mainstream. Aqui, seus divulgadores não costumam contextualizá-los, institucionalmente, no tempo e no espaço.

Usam experimentos psicológicos e Neurociência para entender decisões financeiras individuais como fossem universais. Entre seus expoentes, citados como “argumentos de autoridade”, encontram-se Daniel Kahneman (1934-2024), Richard Thaler (Teoria do Prospecto ou das Perspectivas), Cass Sustein (nudges ou “empurrãozinhos), Robert Shiller etc.

Elas se tornaram uma vertente central da teoria econômica aplicada à compreensão de decisões financeiras em ambientes de incerteza. A literatura desta área de conhecimento baseia-se em estudos empíricos conduzidos nos EUA, com investidores mais escolarizados e ricos, mercados acionários com tendência altista e operações sob instituições consolidadas.

Tomando como estudo de caso o investidor pessoa física brasileiro, os chamados “vieses” comportamentais devem ser reinterpretados como respostas adaptativas a estruturas históricas e institucionais específicas da periferia do capitalismo. Uma agenda de pesquisa em Finanças Comportamentais no Brasil deveria ser capaz de articular variáveis econômicas, institucionais e sociocognitivas, além das evidências empíricas, datadas e localizadas, para baixar o nível de abstração e propiciar a melhor tomada de decisões financeiras práticas.

No período de 2000-2022, uma comparação sistêmica dos regimes de valorização, o retorno real médio da renda fixa no Brasil situou-se entre 5% e 11% a.a. e o da renda variável representada pelo Ibovespa foi volátil e inferior ao CDI. Em comparação, o S&P500 dos Estados Unidos foi de 6% a 8% a.a., tendo menor volatilidade se comparado ao Ibovespa, mas maior risco diante o CDI.

O risco percebido nessa renda fixa é soberano (Tesouro Nacional), ou seja, baixíssimo. O do Ibovespa é alto inclusive por instabilidade política e econômica, além de empresas cíclicas. O do S&P500 é médio por causa do mercado diversificado e profundo, isto é, com alta liquidez, onde grandes volumes de uma ação ou título podem ser negociados sem impactar significativamente seu preço.

Quanto à liquidez, há alta preferência por liquidez nos investimentos em renda fixa no Brasil, média na bolsa de valores brasileira e alta nas americanas. Aqui, a tributação dos rendimentos financeiros é de 22,5% (até 6 meses) a 15% (acima de 2 anos) em renda fixa.

Havia, até a recente reforma, isenção fiscal para dividendos das ações. Nos Estados Unidos, os milionários fogem da tributação sobre ganhos de capital com a estratégia Buy-Borrow-Die [BBD]: comprar-tomar emprestado-morrer.

A credibilidade institucional nos juros pós-fixados (“jabuticaba brasileira”) se dá pela subordinação do Banco Central do Brasil ao foco em meta inflacionária irrealista. A bolsa de valores brasileira é muito volátil, sujeita a choques e boatos. Nos Estados Unidos, as ações têm forte proteção contratual e jurídica.

Finalmente, quanto aos incentivos do regime macroeconômico, no nosso país, favorece juros altos e dívida pública com risco soberano por ter um mercado de capitais subdesenvolvido com um mercado de ações raquítico. Nos EUA, historicamente, há estímulo ao investimento com risco.

Um comparativo entre a variação anual do Ibovespa, da inflação (IPCA) e de aplicação a 100% do CDI, desde 2001 até 2024, mostra a média anual do primeiro ter sido quase 13% aa, mas com alta volatilidade (32%), inclusive por 10 anos em 24 o Ibovespa ter sofrido queda absoluta. Se comparado à aplicação em CDB com 100% do CDI, este rendeu quase 11% aa com um desvio padrão de menos de 4%.

A inflação foi em média 6,2% aa com baixo desvio padrão (2,45%). Daí justifica-se a preferência por liquidez com expressivo ganho real praticamente sem risco do CDI.

A riqueza per capita em 161.726 de contas exclusivas do Private Banking foi de R$ 14,970 milhões. Com o atual juro de 1,17% a.m. esse valor rende R$ 175 mil. A média por conta (745 mil contas com menos de 5 por cliente) foi de R$ 3,228 milhões em junho de 2025.

Cerca de 6,5% do volume financeiro total encontra-se em fundos de ações (Abertos, Exclusivos e ETF) e 22% em aplicações diretas em ações. Os ricaços detém 28,5% do seu volume financeiro (R$ 2,4 trilhões) em ações: R$ 690 bilhões.

Em contrapartida, a riqueza per capita em 169 milhões de contas do Varejo Tradicional foi de apenas R$ 15.733,41 e do Varejo de Alta Renda atingiu R$ 139.152,87, ou seja, quase 10 vezes maior. A do Private  é quase 1.000 vezes maior!

O Varejo Tradicional, de maneira agregada, possui R$ 2,7 trilhões, sendo 31% em depósitos de poupança e 15% em Previdência Privada. O Varejo de Alta Renda, também de modo agregado, possui quase R$ 2,9 trilhões, sendo menos de 5% em depósitos de poupança, 28% em Previdência Privada e 44% em títulos e valores mobiliários.

Para comparar, em 30 anos, uma poupança com juro de 0,5% a.m. renderia 371%. Enquanto isso, uma aplicação em 100% do CDI, renderia 5.515% em juros compostos.

Como dito, no exterior, o baixo juro prefixado sofre Mark-to-Market [“marcação-a-mercado”], enquanto aqui o juro pós-fixado é o preferido. Esse é um dos motivos para a distribuição de ações por faixa de renda nos EUA mostrar 94% dos 20% mais ricos terem participações acionárias, bem acima dos 17% dos 20% mais pobres com alguma exposição ao mercado de ações.

Lá, entre os mais velhos, grande parcela dos ativos se concentra em ações. O valor mediano dos ativos em ações chega a US$ 160.000 para idosos na faixa etária de 65 a 74 anos, US$ 110.000 na faixa etária de 55 a 64 anos, US$ 68.000 na faixa etária de 45 a 54 anos, US$ 30.000 na faixa etária de 35 a 44 anos, e jovens com menos de 35 anos têm uma mediana de US$ 12.000 nesses ativos.

Logo, nos EUA, o mercado de capitais é desenvolvido, os juros são baixos, o crescimento é cíclico. Aposta-se em mercado de risco (ações) com horizonte de capitalização em longo prazo. O enriquecimento se dá via ações e imóveis. Predomina a tendência a assumir riscos com apostas em alta de bolsa de valores.

No Brasil, o Estado é financiado via dívida pública e juros altos resulta em estagdesigualdade. Predomina a busca de proteção patrimonial em curto prazo com foco em segurança contra inflação. Opta-se por renda passiva via juros sobre dívida pública e bancária. Há uma aversão absoluta ao risco de volatilidade.

Os vieses estudados em Finanças Comportamentais — como excesso de confiança, aversão à perda, efeito enquadramento (framing), contabilidade mental, entre outros — emergem em contextos no qual há volatilidade e necessidade de decisão sob incerteza, características mais típicas da renda variável. O experimento do Kahneman e Tversky sobre escolhas em cenários de perdas e ganhos exemplifica justamente como a forma de apresentação (dependência da forma ou framing effect) afeta escolhas de risco — algo altamente relevante para investidores em ações.

Então, lancei para debate, no CBE 2025, a pergunta-chave: a leitura das Finanças Comportamentais ajuda aos investidores brasileiros? Sim, mas requer reinterpretação contextualizada.

Para o investidor brasileiro de renda pós-fixada, os conceitos ajudam a compreender a resistência à diversificação, o medo de mudanças e o apego a produtos bancários de baixo rendimento. O campo empírico original e as intervenções baseadas em nudges, por exemplo, precisam ser adaptadas à cultura, produtos e instituições locais.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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