Lô partiu…, por Marquinho Carvalho
Lô partiu…
E agora como seguir em frente sem o “Girassol”…
Passei o dia pensando como eu poderia traduzir o meu sentimento sem a “companhia” do Lô.
Foi um dia muito triste.
Lô Borges está comigo desde 1983 quando o meu querido amigo/irmão Tupi me apresentou sua música.
Ao longo dessa história eu curti e busquei compartilhar com amigas e amigos queridos a música do Lô.
Hoje, no dia que o Lô nos deixou, eu quis muito escrever algo que traduzisse o meu amor e minha gratidão por tudo que ele plantou no meu coração de goiano nascido e criado nos rincões de Goiás.
Mas eu não encontrava palavras que traduzisse a transcendentalidade de todas as canções que ele compôs, cantou e nos encantou…
Mas foram nas palavras simples da fantástica cantora @titaneoficial que encontrei a melhor tradução:
“Querido Lô, meu coração está sangrando.
Difícil encontrar palavras que deem conta de tudo que você e suas canções significam na minha vida. Minha vida, de meus amigos, de meus irmãos.
Siga com a certeza de que espalhou muita beleza, que embalou muitas emoções, que encantou a terra, esse planeta hoje tão sofrido.
amamos você.
Meu abraço carinhoso a seus irmãos, seu filho, a todos os Borges!”
Mais tarde a minha querida Andreia me enviou uma mensagem que completou o texto:
“Oi Marquinho, boa noite!
Te escrevendo pra dizer da tristeza bonita que fui sentindo ao longo do dia e que se intensificou na volta pra casa agora à noite, depois da aula, ao pensar no Lô Borges e sua partida.
Que lindêza de obra que ele veio aqui pra esse mundo deixar pra gente, né!
Tô muito tocada e sentindo como se aquele rapaz gente boa e de alma tranquila que a gente sempre conheceu tivesse ido fazer sua viagem galática”.
Mas eis que outra querida, Adriana, “simplesmente” me enviou a letra da canção, digo, “Uma Canção”, do fantástico disco “Nuvem Cigana”, parceria do Lô com o incrível Ronaldo Bastos. Primeira música do Lô que tocou meu coração de maneira avassaladora depois do Clube da Esquina:
“Uma canção é leve e pode sustentar
Toda emoção
Que pesa demais
E num passe de mágica faz voar
É gota d’água e faz transbordar
Vai na enchente arrastando
O que pode transformar
Em nuvem do céu
Da inundação
Uma canção é clara e pode penetrar
Negro desvão
Que um raio de sol
Com a súbita chama faz clarear
Um viajante que se fez perder
Por sua estrela se inicia
Nos mistérios de querer
A lâmina ser
De tal precisão
Qualquer pessoa pode assoviar
A voz humana se decifra
Quando canta por prazer
De juntos trilharmos uma canção
Uma canção é lenha e pode consumir
Uma paixão, um caso de amor
Que o som das palavras vai traduzir
É rima simples e retém calor
Se ilumina quando toca uma pessoa
Que se quer bem perto da brasa do coração
Uma canção tem cheiro e pode transportar
Uma fração de um tempo qualquer
Que a gente viveu num outro lugar
É diamante para lapidar
Na pedra bruta segue o veio da beleza
Quando faz soar cristalina revelação”
Lô, meu querido, agora vou precisar da ajuda do Frejat e da Dulce Quental para tentar traduzir minha emoção:
“Guarda essa canção
Como o último desejo
Do fundo do coração
À superfície do beijo…
Esse tempo todo que foi lindo não é pra acabar assim
Chega então pra dentro do meu sonho e toma conte de mim
Vamos beber do mesmo copo, nosso corpo celebrar
Um tempo que se foi e a sorte que ele nos lançou
Sonhando viver entrelaçados
Copo de vinho na mão
Num blues carregado
Foi o fim daquele tempo e a sorte, ela te levou irmã(õ)”
Lô,
“…Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos
Calmos, calmos, calmos…”
Marquinho Carvalho (Marco Antônio Gomes de Carvalho) é formado em História pela Universidade Federal de Goiás, professor do Instituto Federal de Goiás, desde 1994, e militante na área cultural e ambiental. Foi secretário de cultura da cidade de Jataí-Goiás por dois mandatos, no período de 2009 a 2016. Criador da Rádio Web Boca Livre que está na rede desde 2005. Produtor e apresentador de 34 episódios do programa Almanaque do Vinil, dedicado à música brasileira lançada nos LPs, exibido na TV GGN. É pesquisador de música brasileira e “curador” de um acervo de discos de vinil também voltado para a música produzida no Brasil. Na área ambiental, foi o idealizador e mobilizador de um grupo de amigos que, no ano 2000, adquiriu uma área de 171 hectares de cerrado no sudoeste do Estado de Goiás para a criação da Reserva Ecológica Porto das Antas.
Rui Ribeiro
4 de novembro de 2025 7:54 amLô partiu…
…Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Estranho o teu Cristo, Rio
Que olha tão longe, além
Com os braços sempre abertos
Mas sem proteger ninguém
Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Viva a imortal MPB!
Marquinho Carvalho
4 de novembro de 2025 10:35 amRui, muito obrigado pelo cuidado de postar seu comentário da mesma forma que eu fiz o meu texto, ou seja, nos valendo da poesia para traduzir a nossa dor com a perda precoce do nosso querido Lô. Como muito bem traduziu a personagem do Massimo Troisi no filme “O Carteiro e O Poeta”: “A poesia não pertence a quem a escreveu e sim de quem precisa dela”. Nossa gratidão a Cazuza e Gilberto Gil. Abraço
Rui Ribeiro
4 de novembro de 2025 1:58 pmNão há motivo pra você me agradecer, Marquinho. Muito obrigado a você.
Conheci as torres e os cemitérios das Favelas
Conheci os homens favelados e os seus velórios
Marquinho Carvalho
8 de novembro de 2025 12:06 pmRui, fiquei emocionado com a sua citação de Paisagem da Janela fazendo alusão ao genocídio dos moradores de favelas. Pois saiba que o luto do Lô Borges só veio ampliar a minha tristeza e a minha dor depois da operação do genocida nos Morros do Alemão e da Penha por esse genocida que governa o Rio de Janeiro. Estou, desde então, em estado de choque com tamanha violência cometida contra a população pobre das favelas (sigo utilizando o termo favela, não gosto do nome “comunidades”. Por favor, me corrija caso o seu entendimento seja outro) sob os aplausos de grande parte da população brasileira. Em tempo, eu vou escrever um artigo ainda esta semana comparando o genocídio dos palestinos com o genocídio dos povos favelados das grandes metrópoles brasileiras, com foco no Rio de Janeiro ao longo de várias décadas. Grande abraço e muito obrigado pelo carinho e por manter a comunicação comigo por meio da poesia dos nossos grandes letristas/poetas. Abraço
Saulo Prado
4 de novembro de 2025 8:40 amUm texto como esse do Marquinho Carvalho é mais do que uma homenagem, é uma confissão de amor à arte e à alma de um artista que marcou gerações. Ele transforma o luto em poesia e o silêncio da perda em melodia, tecendo com lembranças e citações uma despedida à altura da grandeza de Lô Borges. O que emociona é como Marquinho traduz o sentimento coletivo em algo íntimo e verdadeiro: a sensação de que Lô não partiu, apenas atravessou para um plano onde as canções continuam vibrando. Ao misturar suas próprias memórias com as palavras de Titane, Andreia, Adriana e as letras eternas de Lô e Ronaldo Bastos, ele faz o leitor perceber que a música realmente cumpre seu papel: sustentar a emoção que pesa demais e, num passe de mágica, nos faz voar.
Em tempos de tanto ruído, um texto como esse é um respiro, um lembrete de que, enquanto houver canções, sonhos não envelhecem.
Marquinho Carvalho
4 de novembro de 2025 2:02 pmCaro, amigo Saulo, agradeço muito o seu comentário. Você captou muito bem uma das principais ideias que eu pretendia passar com o meu texto. Repare que o próprio Lô Borges canta (veja que eu coloco o verbo cantar no presente, isto porque Lô segue cantando pra gente) na belíssima Girassol da Cor de Seus Cabelos, parceria com seu irmão Márcio Borges o seguinte verso: “E se eu morrer, não chore não/É só a lua…”. Nesse contexto vou citar o seu grande amigo e parceiro Beto Guedes/Ronaldo Bastas na canção “No Céu com Diamantes”:
“Dói de tanto medir a distância
Saber que não vou te tocar
Além da lembrança
A tua falta é sol sem calor
E está aqui mas se foi
Virou estrela, a nossa estrela do céu”.
Valeu parceiro!
Patrícia Grillo
4 de novembro de 2025 11:02 amUma homenagem singela de um verdadeiro fã e escrita com o coração.
Exprimiu muito bem o senso de comunhão e beleza transmitido pelas canções de Lô Borges. Me sinto representada. Obrigada 🙏🏻
Marquinho Carvalho
4 de novembro de 2025 2:12 pmOi, minha querida amiga/irmã! Você sempre muito atenta e carinhosa também constatou outra ideia do meu texto que era mesmo traduzir a minha tristeza da maneira mais simples possível, sem arroubos, apenas traduzir a minha dor como o próprio Lô Borges muitas vezes cantou coisas lindas de maneira muito simples e muito tocante. Um bom exemplo é “Bom Sinal”, autoria do seu irmão Telo Borges:
” Quando eu sumir nesse mundo bom
Ponham sobre meu coração
A canção que fiz
Dos nomes que eu a chamava
Minha flor, tesouro, querida, bem,
Meu neném, minha droga, filha,
Meu temporal,
Princesa que eu nem sonhava…”
Ontem vendo um vídeo do grande Wagner Tiso, músico, arranjador, compositor, maestro e muito mais comentando sobre a obra do Lô e ele falava da beleza das suas criações tão belas e apresentadas, muitas vezes, de maneira tão simples.
Beijo, minha querida!
Lorenzo Max Gvozdanovic Villar
4 de novembro de 2025 11:07 amA profundidade das palavras só é percebida por quem sente. Amo você meu irmão Marquinho.
Marquinho Carvalho
4 de novembro de 2025 2:17 pmOlá, meu querido irmão e parceiro de longas noitadas ao som do seu belíssimo violão, tocando canções do nosso Lô Borges, nos idos dos anos 80 em Goiânia.
“Se você quiser eu danço com você
No pó da estrada
Pó, poeira, ventania
Se você soltar o pé na estrada
Pó, poeira
Eu danço com você o que você dançar…”
(Nuvem Cigana – Lô e Ronaldo Bastos)
Aí está um bom exemplo da profundidade que você se referiu!
Também te amo!
Beijo
Ricardo
4 de novembro de 2025 4:24 pmLo partiu… agora é eterno!
Marquinho Carvalho
5 de novembro de 2025 10:19 amRicardo, agradeço o seu comentário. No contexto da sua frase eu não resisto em citar novamente o verso que mencionei numa resposta acima, me referindo a belíssima canção “No Céu com Diamantes”, parceira Beto Guedes/Ronaldo Bastos no disco do “Paisagem da Janela” lançado pelo Beto Guedes em 1984:
Lô, “Virou estrela, a nossa estrela do céu”.
Abraço
Marcelo Mattos
4 de novembro de 2025 9:09 pmOntem foi mesmo barra, um dia daqueles de tristeza encharcando as horas, como difíceis tem sido esse acúmulo de perdas gotejantes nas artes, uma dor úmida ainda e sem nome. Lô Borges talvez tenha sido um dos primeiros compositores a alinhavar um universo ecológico (ambiental) ao cotidiano de nuvens, liberdade, amores, sons e serranias, além de tantos outros sentimentos solares daqueles jovens na encruzilhada das Ruas Divinópolis e Paraisópolis.
Talvez tenha sido esta uma característica futurista daquele Clube da Esquina (gravado somente em dois canais), impregnado de uma nova poesia bucólica, mineral, arada ao pó das estradas, dos versos em ventanias soprando longe, tão longe até nos alcançar naquelas noites insones, na barra de 1972, os sons daqueles jovens que, debruçados sobre a aragem da Serra do Espinhaço que entorna BH, sobre os diamantes esquecidos da Serra do Mel que abraça Montes Claros, os sons nos envolvia como chuva entardecendo por ondas radiofônicas, longe, longe…
Lô por toda tempo, por toda parte nos soprava o seu canto, silvo de viração, pássaro raro, bem-me-vi, bem-lhe-vi, bem-te-quis, bem-me-quer não me quis, os pintassilgos em cor, saíras viajantes, surucuá lavrando o ouro no sumidouro de Minas, ah! beija-flor em flores esquecidas. Lô sempre no encantamento: nas pedras de ponta no contra-corpo de Minas, cordilheiras acordoadas cristalinas de Minas, a forja voz de Minas transmineral, o pastoril, o carro-de-boi, as roças barrentas lavradas de musicalidade, a voz tão terna de Lô no sempre… enquanto uma fina garoa atravessa a tarde e nos encharca de saudades.
Marcelo Mattos
Itibiriçá Rodrigues de Oliveira
4 de novembro de 2025 9:22 pmFoi bacana mencionar o sentimento dos amigos no seu texto, ao reescrever o que disseram sobre a importância musical de Lô Borges em suas vidas. Enriqueceu o que já era belo em suas primeiras palavras. Assim, quero também dizer que: vento solar e uma estrela no céu, abrilhantou ainda mais o firmamento. Lô Borges é mais uma na constelação de grandes artistas.
Marquinho Carvalho
5 de novembro de 2025 10:21 amValeu, parceiro! Lindo comentário. Lô segue nos inspirando….
Obrigado
tupy barjud
5 de novembro de 2025 7:33 amÉ QUANDO A GENTE REBOBINA OS FILMES DE NOSSAS VIDAS E RELACIONA CADA UMA DESSAS EXPERIÊNCIAS ,ÀS MÚSICAS DESSE NOSSO AMADO GÊNIO DA MÚSICA LÔ BORGES.
INEVITAVELMENTE A SAUDADE CHEGA DE FORMA MUITO INTENSA E PARTE NOSSOS CORAÇÕES 💕 💕 💕 💕 💕 💕 💕 💕 💕 💕 💕 💕.
Marquinho Carvalho
6 de novembro de 2025 10:26 amOlá, parceiro! Minha eterna gratidão por você ter me apresentado Lô Borges.