Milei venceu e ainda assim…
por Mario Rapoport e Yair Arce
Toda eleição nos apresenta um retrato da sociedade, um raio-X político-ideológico de um dado momento. Mas essa imagem cristalizada não deve nos fazer esquecer a mudança tectônica que a tornou possível.
As eleições de meio de mandato na Argentina resultaram em uma vitória retumbante para o partido governista, vencendo inclusive na província de Buenos Aires, um histórico reduto do peronismo. Com 40,7% dos votos, La Libertad Avanza (partido de Milei) prevaleceu em nível nacional, contra 33,8% para Fuerza Patria (peronista) e seus aliados. Pesquisas de opinião e sondagens realizadas por institutos de pesquisa de diferentes tendências ideológicas não previram tais resultados.
A ruptura ocorrida após anos de um acúmulo contínuo de fracassos e frustrações para as duas principais coalizões políticas que governaram nas últimas décadas (Frente de Todos e Cambiemos) colocou a versão mais radicalizada da direita local no comando do Estado. Isso se explica em parte pelas crises em curso e pelas mudanças na estrutura social geradas pelo neoliberalismo, mas também por circunstâncias políticas específicas nas quais os Estados Unidos intervieram diretamente. As declarações públicas de Trump, do recém-nomeado embaixador dos EUA na Argentina, Peter Lamelas, e a ajuda econômica do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ocorreram em um contexto em que o governo está sitiado por escândalos de corrupção, possíveis ligações com o narcotráfico e dívidas sem precedentes. O novo resgate financeiro chegou e permitiu ao governo ganhar tempo e estabilidade na preparação para as eleições legislativas nacionais. A chantagem — disfarçada de dilema — a respeito das condições da aliança com a Argentina, expressa por Donald Trump na recente cúpula com o Governo Nacional na Casa Branca, produziu seus resultados políticos inesperados.
Javier Milei, com sua intransigência em questões econômicas, está levando adiante o ditame inegociável do “déficit zero”, transformando em pedra qualquer medida que ouse violá-lo. Essa lógica econômica funciona como um mantra, como a única estrutura mental que a prática política deve expressar, sufocando, assim, qualquer racionalidade (política) própria.
Dois anos após assumir o poder, e em meio a uma crise, uma parcela significativa da sociedade argentina reafirma um projeto hegemônico de um país excludente que, longe de resolver a luta ideológica e social, demonstra a impossibilidade de tal construção ao não conseguir guiar e incorporar toda a população em um modelo de desenvolvimento verdadeiramente nacional com amplas margens de justiça social.
É verdade que isso não ocorreu sem forte resistência: greves e manifestações de trabalhadores, aposentados, estudantes, mulheres e cidadãos de todas as classes sociais foram mobilizadas contra medidas que afetam direitos adquiridos no trabalho, na saúde, na educação, na inclusão de pessoas com deficiência e na igualdade de gênero. Em resposta, o Governo Nacional implementou uma estratégia repressiva abrangente (não apenas com a ativação do chamado “Protocolo Anti-Piquete” da Ministra Patrícia Bullrich, mas também com uma ofensiva midiática que estigmatiza qualquer forma de protesto social) com intensidade variável, dependendo da dimensão da mobilização. No entanto, até o momento, nenhum órgão político conseguiu unificar todas as reivindicações afetadas.
Por outro lado, um aspecto notável das recentes eleições é o nível de participação. Apenas 68% do cadastro eleitoral nacional compareceu às urnas, a menor participação desde o retorno à democracia, refletindo o crescente descontentamento com a política institucional e seus atores. Especificamente, a queda geral foi de 8% em comparação com as eleições presidenciais de 2023 e de 3% em comparação com as eleições legislativas de 2021, com a pandemia do coronavírus pairando sobre o cenário.

Daniel Acosta, pintor argentino, coleção Mario Rapoport
Neste ponto, que face(s) da sociedade revela esta eleição, e como isso se relaciona com outras formas necessárias de participação cidadã em nossa democracia, como o direito de protestar? Quais elementos contraditórios entram em jogo na sociedade quando observamos o comportamento do eleitor?
Parece que, como no tradicional jogo campestre argentino de taba, uma parte significativa da sociedade jogou para o alto as demandas associadas à defesa dos direitos sociais e à salvaguarda da soberania nacional contra a intervenção explícita dos Estados Unidos; para obter, em troca de seu sacrifício — que não começou, mas se intensificou com a chegada de Javier Milei à Casa Rosada — um governo que promete estabilização monetária e ordem por meio da disciplina social. Só assim podemos tornar inteligível a legitimação parcial do ajuste adiado e anunciado, que exporia aqueles setores “privilegiados” que se aproveitam do Estado. O afetivo e o político, em tempos de crise, atraem-se mutuamente, revelando que a dimensão econômica do voto só pode ser compreendida ponderando as consequências imediatas que um revés para o partido no poder pode trazer. Mas não se trata de encerrar a discussão demonstrando como opera uma espécie de “racionalidade eleitoral”, mas sim de compreender que comportamento subjetivo dentro de múltiplos processos nos registros interligados (ideológico, econômico, político e social) que os contêm.
Para além da caixa preta da votação, muitas vezes evasiva para os analistas políticos, a vitória de Milei cristaliza uma identidade política de extrema-direita com um núcleo duro de adeptos que partilham o denominador comum do lema difundido “não voltar ao passado”, ou seja, não regressar à experiência kirchnerista arraigada na memória recente.
Uma vitória inesperada para o partido no poder, sem euforia social, que lembra balões murchos e grinaldas secas que permanecem no ar depois das festas, com a promessa de sua renovação, talvez, na próxima celebração. Esta vitória eleitoral não deve nos fazer esquecer a perda de votos em comparação com as eleições presidenciais de 2023, em que La Libertad Avanza obteve 55% dos votos no segundo turno, contra os 40,7% que alcançou em 2025.
Uma mudança semântica torna-se urgente e necessária: a principal questão não deve ser porque Milei venceu, mas sim, quem pode derrotá-lo através de um programa que aspire construir e representar uma nova maioria democrática. Entretanto, o clima coletivo encontra um alívio precário, semelhante à calmaria antes da tempestade.
Mario Rapoport – Professor Emérito, Universidade de Buenos Aires
Yair Arce – Estudante de Mestrado em Sociologia (Universidade Nacional de San Martín)
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Robert Red
6 de novembro de 2025 5:25 pmA Argentina tem o governo que merece…
Jossimar
7 de novembro de 2025 1:57 pm3 dias antes dessa eleição um analista político argentino, com base nas últimas pesquisas realizadas um pouco antes, previu um derrota para o partido do Milei. Perderia muitas cadeiras no parlamento e não teria mais a maioria. Aí vieram os EUA e não se sabe que parte da Argentina o Milei entregou. Já ouvi falar que o dinheiro recebido foi para salvar um investidor norte americano que estava tendo um enorme prejuízo com investimentos na Argentina e que o governo argentino não receberá nada do valor “emprestado”. Mas, que parte da Argentina que o Milei entregou para salvar o próprio couro? Mais, para haver uma mudança de humor tão grande no eleitorado em três dias, será que só as promessas do Trump tinham esse condão? As eleições na Argentina são confiáveis? Esse pessoal já interviu na Romenia e Georgia recentemente porque o resultado das eleições naqueles países não agradaram a eles.